Uma coleção de fracassos

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Foto: Epa
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Às vésperas de o governo de Jair Bolsonaro completar dois anos e meio, no próximo dia 1º de julho, e antes da hecatombe das revelações de 6ª feira, 25 de junho, na CPI da Covid-19, de que o presidente da República, ao ser comunicado, em 20 de março, das possíveis irregularidades na importação da vacina Covaxin, do laboratório Bharat Biotech, com intermediação da Precisa Medicamentos, teria indicado o nome do líder do governo na Câmara, Ricardo Barros (PP-PR) duas pesquisas do Ipec, instituto que substituiu as pesquisas políticas do Ibope, mostraram a percepção do fracasso do atual governo pela sociedade brasileira.

Segundo a pesquisa, 50% dos entrevistados consideram o governo Bolsonaro como ruim e péssimo (na pesquisa anterior, de fevereiro, o percentual negativo era de 39%). Em fevereiro, o presidente tinha seu governo aprovado como bom ou ótimo por 28%, percentual que encolheu para 23% agora. Em fevereiro, 31% consideravam o governo regular, de modo que a aceitação (bom/ótimo mais regular) chegava a 59%. Agora, os que achavam o governo regular murcharam para 26%. Assim, a soma de aprovação mais a avaliação de regular ficou em 49%, sendo superada pela desaprovação. À indagação sobre a forma do presidente governar, veio um índice de reprovação de 66%.

Os destemperos do presidente Bolsonaro em duas cerimônias no interior de São Paulo quando agrediu a imprensa têm muito a ver com a divulgação de pesquisas que desaprovam sua conduta e sua forma de gerir o Brasil, sobretudo o negacionismo durante a pandemia e o pouco empenho em adquirir mais variedades e quantidades de vacinas. Bolsonaro que acreditava ter a reeleição garantida no ano passado, quando sua popularidade passou dos 60%, graças à irrigação do Auxílio Emergencial de R$ 600, viu sua aprovação esvaziar na razão inversa do crescimento das vítimas da pandemia e com o emagrecimento de 50% do Auxílio, a partir de outubro e sua interrupção no 1º trimestre deste ano, por decisão estúpida da Economia, como atestava a pesquisa de fevereiro.

Mas o que ele não contava é que a maré de sua eleição, quando surfou na onda anti PT, baixasse rapidamente com a sucessão de erros cometidos e as reiteradas demonstração de falta de empatia e compaixão para com as famílias e amigos do meio milhão de brasileiros que sucumbiram à Covid-19. Se a eleição fosse na semana passada, o ex-presidente Lula teria 49% dos votos contra apenas 23% de Bolsonaro. Ou seja, a eleição poderia ser decidida no 1º turno. Com ou sem voto impresso. No Nordeste, onde enfiou os pés pelas mãos numa visita esta semana para inauguração de uma perna da transposição do São Francisco no Rio Grande do Norte, obra que vem sendo construída pelos governos Lula, Dilma e Temer, e voltou a dar péssimos exemplos. Constrangeu uma mocinha a abaixar a máscara (fez sinal positivo quando ela cedeu à coação, sob o aplauso inconsequente dos apoiadores e bajuladores) e adiante pegou uma criancinha no colo e ele próprio baixou sua máscara, para delírio da claque! No Nordeste, Lula tem 63%, contra 15% de Bolsonaro. No Sudeste, Lula vencia por 47% a 24%. Mesmo no Sul, reduto de Bolsonaro, o presidente perderia por 35% a 29% dos votos.

Há quem diga que o destempero presidencial em São Paulo tem um pouco a ver com a retirada de cena do general Augusto Heleno. Ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência da República, Heleno anda recluso, tratando de uma depressão (não se sabe se causado pela frustração do desempenho de um candidato que tanto apoiou e mobilizou apoios nos meios militares). O fato é que a mesma GSI, que sob a batuta de Augusto Heleno, falhou ao não detectar um esquema de tráfico de cocaína por oficial que fazia parte da tripulação do avião de apoio à visita de Bolsonaro à Espanha, em 2019, teria cometido falhas ao não “limpar o terreno” de possíveis críticos à visita do presidente. Em vez habitual claque de apoiadores e evangélicos de várias seitas, o presidente topou com gritos de “Genocida”, Assassino” e críticas pesadas tão logo desceu do automóvel da Presidência. Passou uma descompostura no oficial que comandava a missão e não baixou a temperatura quando se viu cercado por perguntas incômodas da imprensa.

Vale lembrar que a pesquisa, realizada entre 17 e 21 de junho, em 141 municípios, ouvindo 2002 pessoas, ocorreu antes depois que o país acumulou 500 mil mortos pela Covid-19 (sábado passamos de 511 mil), mas antes de dois grandes marcos negativos para o governo: a queda ruidosa, qual madeira abatida ilegalmente na Amazônia, do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. Salles, o ministro que defendeu na fatídica reunião ministerial de 22 de abril de 2020, que selou a saída do ex-ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, do governo, era um dos ministros que mais seguia as ideias retrógradas do ex-capitão e ex-deputado federal no descaso ao meio ambiente e avanço sobre as áreas dos povos indígenas. À frente da pasta desmontou toda a estrutura de monitoramento dos desmatamentos e queimadas da Amazônia e outros biomas, com o enfraquecimento do Ibama e do ICMBio.

Quando Ricardo Salles foi acusado por delegado da Polícia Federal que tinha feito a maior apreensão de madeira nobre extraída de forma irregular da floresta, entrou no circuito para tentar liberar a carga, cujos números não batiam com o que fora autorizado pelos fiscais do Ibama. A casa de Salles ameaçou cair quando as próprias autoridades alfandegárias dos Estados Unidos apontaram inúmeras irregularidades nas cargas apreendidas em portos americanos. Nem assim Bolsonaro deixou de apoiar seu ministro. Afastou o delegado que cumpria seu dever (repetindo a intervenção na PF, após a saída de Sérgio Moro). E Salles ganhou sobrevida de duas semanas. A avaliação da população, no entanto, foi implacável. Uma nova pesquisa vai captar o tratamento infame dado aos índios brasileiros (senhores da “Terra Brasilis” antes que os portugueses chegassem aqui de barcos para tomar posse da Ilha de Vera Cruz, depois Terra de Santa Cruz e finalmente Brasil, e mais ainda os escândalos da queda de Ricardo Salles e a cada vez mais escandalosa importação da vacina Covaxin.

Para aceitar a oferta de reserva antecipada da vacina que seria desenvolvida pelo respeitado laboratório Pfizer, o governo Bolsonaro tergiversou desde maio do ano passado e só fechou a compra em fins de fevereiro deste ano. Já para a Covaxin, do Bharat Biotech, que só há um mês teve aprovação das autoridades sanitárias da Índia, diante da intermediação da Precisa Medicamentos, que tinha entre seus despachantes o líder do governo na Câmara, Ricardo Barros (PP-PR), que foi ministro da Saúde do governo Michel Temer, o governo Bolsonaro fechou contrato de R$ 1,6 bilhão, com sobre preço mínimo de 100% sobre as vacinas da Pfizer, da AztraZeneca e da CoronaVac, mesmo sem aprovação da Anvisa. As revelações feitas já na noite de 6ª feira na CPI da Covid no Senado Federal podem antecipar mais dificuldades para o governo Bolsonaro.

O governo que tentou usar sua tropa de choque para incluir investigações sobre a atuação de governadores e prefeitos com o uso de recursos (do Tesouro Nacional, resultado da arrecadação de impostos federais pagos pela população nos estados e municípios) no escopo da CPI – fora das prerrogativas de uma CPI –, pode acabar enredado na própria teia de corrupção dos órgãos federais, com intermediação de políticos e empresários. A ser verdade o depoimento do deputado federal Ricardo Miranda (DEM-DF), que era apoiador de primeira hora e frequentador dos palácios do Planalto e da Alvorada, onde foi denunciar suspeitas ao presidente Bolsonaro em 20 de março, estamos diante de crime de prevaricação presidencial: tomar conhecimento de crime contra o Erário e não determinar providências. Pode sobrar novamente para o ex-ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello. A versão palaciana foi de que o fato foi relatado ao general. Mas Pazuello já estava fazendo a transição do comando do Ministério da Saúde para o médico Marcelo Queiroga e deixou o cargo em 22 de março, sem tempo para nada, mas se queixando de pressões por um “pixuleco”. No dia 23 saiu a aprovação do contrato com a Covaxin, com intermediação de filial em Cingapura.

Vale lembrar que Queiroga é o 4ª ministro da Saúde. Na Pasta da Educação, o 2º maior orçamento depois da Saúde, também estamos sob a 4ª gestão, todas fracassadas AC/DC (antes e depois da Covid-19). Nos demais ministérios a eficiência não costuma fazer morada ou sentar praça. O exemplo mais gritante da descoordenação é a iminência do país entrar em racionamento de energia. A vazão das águas nas hidroelétricas não caiu apenas pela estiagem. Estiagem essa que é resultante do descaso sobre o meio ambiente da Amazônia, onde surgem as nuvens que absorvem a evaporação da flora e rios da floresta e funcionam como “rios voadores” que despejam as chuvas no Centro-Oeste e nas bacias hidrográficas do Sudeste. Desde maio do ano passado a estiagem é anormal. Mas os órgãos do Ministério das Minas e Energia e do Ministério da Economia não perceberam que a alta do dólar tinha estimulado as indústrias eletro-intensivas a produzir mais alumínio, petroquímicos, celulose, não ferrosos e aço e gusa para exportação. Quando foram perceber era tarde para acionar as termelétricas e a água tinha baixado extraordinariamente e só nos resta pagar muito mais caro na conta de luz.

A questão ambiental é muito grave para ser tratada por amadores ou pessoas que só vêm um lado da questão. Se os “rios voadores” minguarem, os produtores do agronegócio que avançaram sobre o cerrado e florestas nos estados do Centro-Oeste podem enfrentar estiagem semelhante à que castiga há séculos o Nordeste. O conjunto dos desastres explica a desaprovação.

O Brasil é um país estranho. Os escândalos se sucedem e os paladinos da moralidade e do combate à corrupção fazem cara de paisagem. Na Inglaterra, o ministro da Saúde, apesar de desempenho razoável na pandemia (o primeiro ministro Boris Johnson desdenhou inicialmente da pandemia, como Trump e Bolsonaro, e só mudou de atitude quando caiu doente e as mortes explodiram no Reino Unido) teve de renunciar porque foi flagrado aos beijos e abraços com a secretária. Aqui, senador é apanhado com pacotes de dinheiro enfiados nas nádegas e ainda não foi cassado. O que falta para se comprovar responsabilidades na tragédia da Covid-19. Batom na cueca?