Ficamos com as piores vacinas

Confesso, caro leitor, que não imagino o rumo que irá tomar a CPI da Covid. Não creio que acabe em pizza. Há muitos anos as CPIs do Congresso não assam no forno a massa italiana mais apreciada no mundo. A última que pretendia acabar em pizza foi a CPI Mista da Petrobras. Na primeira oitiva, o então diretor de Refino e Abastecimento, Paulo Roberto Costa, indicado pelo PP, bradou em maio de 2014: “senhores, a Petrobras é uma empresa séria”. E convenceu senadores e deputados governistas que o tratavam com cerimônia e consideração. A estatal continua séria. Só não eram os gestores da época.

Em novas investidas da Polícia Federal, no âmbito da Operação Lava-Jato, em setembro, às vésperas da eleição que reelegeu a presidente Dilma Roussef, foram descobertas contas da filha e do genro que receberam propinas de empreiteiras e intermediários. Aí, Paulo Roberto Costa começou a dar os nomes aos bois e reconheceu que as estimativas de gastos da refinaria Abreu e Lima (PE), inicialmente de US$ 2,5 bilhões, quando foi iniciada em 2005, haviam sido “uma conta de padeiro”.

Por aquelas estimativas, o presidente Hugo Chaves, da Venezuela, quis botar a mão na massa e bancar 40% do investimento (o que eram US$ 1 bilhão para a Venezuela em 2008, quando o petróleo estava acima de US$ 140 e o país produzia mais de 3 milhões de barris/dia?). Logo, Chaves viu que os custos cresciam seis vezes e pulou fora. Hoje, a Venezuela de Nicolás Maduro não produz metade e o barril está na faixa de US$ 64. Só de baixas contábeis a Petrobras perdeu R$ 19 bilhões, com o descarte dos equipamentos e obras gastos para a 2ª fase da refinaria, que processaria 330 mil barris/dia. Aquela que seria a maior refinaria do país, voltada para a produção de óleo diesel, o combustível mais consumido do país em proporção que excede a extração básica de diesel no refino do petróleo em refinaria padrão, ficou reduzida à 1ª fase, com produção limitada a menos de 140 mil barris/dia. E foi posta à venda.

Não se sabe se a venda será mantida em função da eleição em 2022. O presidente Bolsonaro trocou o economista Roberto Castello Branco pelo general Joaquim Silva e Luna na direção da Petrobras, inconformado com a alta dos preços dos combustíveis (diesel, gasolina, GLP, óleo combustível e querosene de aviação), dentro da estratégia de alinhamento dos preços domésticos à cotação do barril ajustada ao dólar para vender parte das refinarias. Esta semana disse, em discurso, para Silva e Luna baixar o preço do GLP, usado em mais de 90% dos lares brasileiros. A troca no comando da Petrobras pode ser uma estratégia para congelar os preços visando recuperar popularidade (Lula e Dilma abusaram disso para se reeleger e geraram pesados prejuízos à estatal). Manter a refinaria no Nordeste (a pioneira Landulpho Alves, na Bahia, foi vendida há um mês) seria uma forma de tentar reduzir a rejeição recorde ao presidente no Nordeste, onde Lula é o mito.

Mas a CPI da Covid pode ir muito além do que imaginam a oposição e os governistas. A oposição sonha que as revelações facilitem os pedidos de “impeachment” do presidente na Câmara dos Deputados, onde hoje a base aliada do governo tem maioria com o apoio do Centrão. Mas o Centrão, mostra desde que foi criado, na Constituinte de 1986, ir sempre na direção que a biruta aponta. Já os governistas imaginavam que se levantassem na CPI o mau uso de recursos públicos pelos estados e municípios (em boa parte, transferências obrigatórias das cotas partes de impostos federais para estes entes federativos), conseguiriam embolar o jogo e deixar elas por elas.

Considero razoável a escalação dos convidados a depor na Comissão. Poderia ser melhor escalada desde início e não recheada de novos depoimentos. Em parte, porque o ex-ministro Eduardo Pazuello fez “forfait” como o 4º depoente, alegando contato com duas pessoas com Covid-19. O que era claramente mentira, porque no depoimento transferido para o dia 19, ele pediu “Habeas-Corpus” no Supremo Tribunal Federal para poder permanecer em silêncio e não se incriminar). Mas há um pouco de despreparo dos inquiridores.

Vejam o caso do depoimento do ex-secretário de Comunicação da Presidência, Fábio Wajngarten. Ele foi convocado na 4ª feira, 12 de maio, por ter participado de reuniões com representantes da Pfizer depois que a carta do presidente do gigantesco grupo farmacêutico, Albert Bourla, ao presidente Jair Bolsonaro, com cópia ao vice, Hamilton Mourão e a outros três ministros (Paulo Guedes, da Economia, Eduardo Pazuello, da Saúde, Braga Neto, então Casa Civil, e ao embaixador do Brasil em Washington, Nestor Foster), de 12 de setembro de 2020, foi divulgada no Brasil em janeiro. Na carta, o CEO da companhia menciona reuniões anteriores de executivos da empresa com autoridades brasileiras. Não se perguntou sobre isso a Wajngarten, muito menos sobre quem participou das reuniões em que se conversou com o presidente da Pfizer.

Pois só depois do intervalo para almoço na 5ª feira, 13 de maio, quando foi ouvido o ex-presidente da Pfizer no Brasil e atual gerente da América Latina, Carlos Murillo, um senador mais arguto indagou ao executivo quando tinha sido a 1ª reunião (a 1ª sondagem da Pfizer foi em maio de 2020). Foram três em agosto (a 1ª em 6 de agosto). Sem retorno, em 12 de setembro, Albert Bourla, decidiu cobrar diretamente ao presidente Jair Bolsonaro uma resposta à última oferta de 70 milhões de doses de vacina, com entrega inicial de 1,5 milhão de doses em dezembro de 2020 e o restante ao longo de 2021. Pelo tamanho de sua população o Brasil era um mercado importante para a farmacêutica e teria de ter uma programação especial, diante dos pedidos de dezenas de países.

Bolsonaro, recém curado da Covid-19 em julho, estava mais preocupado em produzir nos laboratórios do Exército e difundir o uso da hidroxicloroquina no “tratamento precoce” do que em se envolver na contratação de vacinas (ainda na fase intermediária de testes). Mas já era a aposta do governo de seu ídolo, Donald Trump, que fez os Estados Unidos investirem bilhões em vacinas da Moderna, Janssen (J&J) e Pfizer, e de Boris Johnson, do Reino Unido (Oxford-AztraZeneca), dos países europeus, além da Rússia, China e Índia, que desenvolveram vacinas próprias (os soldados da China e Rússia foram vacinados desde julho). Não fossem as tratativas do governador de São Paulo, João Dória Jr, que através do Butantan, fez convênio para testar e desenvolver no Brasil a vacina chinesa CoronaVac, do laboratório Sinovac, e da Fiocruz, que virou parceira da fase de destes e desenvolvimento da Covashield desenvolvida pelo laboratório da Universidade de Oxford e a farmacêutica AztraZeneca, o Brasil não teria vacina alguma para aplicar no 1º trimestre desde ano. Mas poderia ter em dezembro as da Pfizer. O Reino Unido iniciou vacinações em 8 de dezembro e os EUA em 14 de dezembro. No Brasil, a 1ª vacinação ocorreu em 17 de janeiro, numa enfermeira da capital paulista.

Só em meados de novembro, o “diligente” Wajngarten, que fazia dobradinha na comunicação da Presidência da República com o filho 02, o vereador carioca Carlos Bolsonaro (Republicanos-Rio) - que em vez de dar expediente na Câmara dos Vereadores, na Cinelândia, despachava numa sala do 4º andar do Palácio do Planalto, em Brasília - saiu a campo para falar “por iniciativa própria” com o presidente da Pfizer. Que recomendou a conversa com Carlos Murillo. Após dois dias de conversas (das quais não participou o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, que se limitou a cumprimentar o executivo, deixando as tratativas a cargo do coronel Élcio Franco, cuja grande credencial foi ter ensaiado uma evacuação do Maracanã em caso de atentado nas Olimpíadas de 2016 - nenhum epidemiologista de renome fazia parte do grupo do Ministério nas conversas), Wajngarten pôs o presidente Bolsonaro e o ministro da Economia, Paulo Guedes, em contato, via celular, com os dirigentes da Pfizer. E o contrato só foi assinado em fevereiro.

Mais interessante foi o executivo Carlos Murillo puxar, no meio de seu depoimento, do celular as mensagens trocadas com a representante da Pfizer nas conversas com Fábio Wajngarten no Brasil, na qual ela indica uma lista de autoridades. Sem que nenhum senador fizesse essa indagação básica, ele listou os vários representantes da Secretaria de Comunicação da Presidência, os poucos do Ministério da Saúde (nenhum epidemiologista), nenhum da AGU ou da CGU e, pasmem, narra o ingresso na sala do Assessor de Assuntos Internacionais da Presidência da República, o jovem Felipe Martins. Embora exerça hoje no Palácio do Planalto funções semelhantes ao que fez Marco Aurélio Garcia no governo Dilma, no aconselhamento paralelo ao Itamaraty (a Chancelaria brasileira), só que pelo viés da ultra-direita, como deixou claro no gesto supremacista do White Power”, o símbolo dos racistas brancos americanos ligados à Klu-Klux-Klan que fez em deboche, durante a audiência no Senado, que destituiu o ex-ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo. E Martins veio acompanhado de ninguém menos do que o filho 02, o vereador Carlos Bolsonaro. Carlos Murillo revelou que Carlos Bolsonaro ficou pouco tempo deu um alô e saiu. Talvez por perceber que não haveria vacina da Pfizer antes da “vachina do Dória”.

Felipe Martins, que demonizava as “vachinas comunistas da China” e da Rússia demorou um pouco mais e saiu (não se sabe se ambos se convenceram de que a da Pfizer não tinha ideologia, não transformava alguém em jacaré ou que simplesmente que a Pfizer não estava distribuindo Viagra, para deixar logo o recinto). O fato é que precisa ser esclarecida a presença de ambos na reunião, assim como a onipresença de Carlos Bolsonaro em vários episódios e reuniões ministeriais, mas principalmente por entrar, como se fosse um “hacker autorizado”, nas contas oficiais do presidente Jair Bolsonaro nas redes sociais. O Gabinete de Segurança Institucional do general Heleno deveria esclarecer essa questão que mostra a vulnerabilidade do governo.

Os ex-ministros Ernesto Araújo e Eduardo Pazuello têm muito a explicar esta semana. Pazuello, que evitava perguntas da imprensa em seus comunicados diários vazios como ordens do dia de cumprimento de obrigações administrativas, vai mais uma vez ficar calado. Com respaldo do ministro do STF, Ricardo Lewandowski. Mas isso não impede os senadores de estudarem o assunto a fundo para fazerem perguntas mais pertinentes e encadeadas.

Cabe a Araújo explicar porque o Brasil se indispôs com a Índia, que seria o grande fornecedor de insumos farmacêuticos ativos (IFAs) para a Fiocruz envazar as vacinas da AztraZeneca, quando se opôs à proposta de Índia e África do Sul, de quebra de patentes das vacinas da Covid-19. A proposta, feita em evento dos BRICS, tinha presença de representantes da China e Rússia. O Brasil se indispôs com o maior produtor de IFAs, que nos retardou entregas até cortar exportações na explosão de contágios de Covid-19 e mortes na Índia.

Pazuello tem um rosário de perguntas a responder sobre erros e omissões. O caso da Pfizer se desenrolou todo em sua gestão, iniciada em junho do ano passado. E é interessante que os senadores explorem a frase de apoio do presidente Bolsonaro a seu 3º ministro da Saúde “Pazuello fez tudo certo, não errou nada no ano passado”. Já em 2021 já errou feio. Começou na largada do ano, na crise da falta de oxigênio de Manaus, terra da família. Agora que o Brasil caminha para superar 440 mil mortes (435 mil neste fim de semana), ele tem de explicar porque houve tão pouco empenho por mais vacinas (em variedade e quantidade). No momento, com Butantan e Fiocruz estão parados.

Diante da falta de campanhas oficiais pelo uso de máscaras (a começar pelo mau exemplo presidencial), pelo desrespeito às regras de não aglomeração e asseio, e da lentidão da vacinação, o “Institute for Health Metrics and Evaluation” (IHME), de Seattle (EUA), tem dramáticas previsões para o Brasil. Num cenário realista está prevendo que teremos até 1º de setembro 807 mil mortos pela Covid-19. No pior cenário, as mortes atingiriam 942 mil brasileiros. Vale lembrar que em maio do ano passado o IHME estimou quantos seriam os mortos pela Covid-19 no Brasil em 2020 (182,8 mil no cenário básico e 188 mil no pior cenário). Em 31 de dezembro, o Ministério da Saúde informou 193,8 mil óbitos e o número do dia 1º (mais realista quanto a 2020) foi de 195 mil.

O Instituto fez um cálculo mais perturbador em 10 de maio último. As mortes por Covid no mundo estão subestimadas. Nos Estados Unidos, em vez de 574 mil óbitos (dia 14 eram 590 mil) as vítimas de Covid-19, mas arroladas em outras doenças, como isquemia, tuberculose, trombose, crise respiratória aguda, e doenças circulatórias, passavam de 905 mil. A ser verdade, com os valores do dia 14, somariam 1 milhão. Na Índia, as mortes (então de 221 mil), chegavam a 654 mil, e eram, oficialmente, de 258 mil, dia 14. O México superaria o Brasil. Oficialmente, o Brasil teria 408,6 mil óbitos dia 10, contra 217,6 mil no México. Nos cálculos da IHME, seriam 617 mil mortes no México, contra 595,9 mil no Brasil. Vale lembrar que o Brasil tem 213 milhões de habitantes, 85 milhões a mais que os 128 milhões do México. Na Rússia, em vez de 109 mil, 593 mil. No Irã, em vez de 72,9 mil, teriam morrido 174 mil. No Egito, em vez de 13,5 mil, 170 mil. Na Alemanha, 123 mil e não 83 mil.

O que me preocupa, e considero que isso deveria ser explorado na CPI da Covid, é o baixo grau de eficácia das vacinas que o Brasil aprovou inicialmente. Segundo pesquisas internacionais, a CoronaVac, que domina até aqui a vacinação dos idosos, só tem eficácia de 50% contra a Covid-19. Vai caindo para as variantes inglesa (43%) para a da África do Sul (38%) e para 25% na variante brasileira de Manaus. A AztraZeneca tem eficácia de 75% contra a Covid-19 original, de 52% contra a do Reino Unido, mas só 6% contra a do Brasil. E isso com duas doses. E o Brasil nem chegou a imunizar 10% da população com duas doses, que é o que garante a eficácia.

A mais eficaz (94%) contra Covid-19 original, a Moderna, não foi cogitada pelo Brasil. A Pfizer/BionNTech tem 91% de eficácia. A Sputnik V, ainda não aprovada pela Anvisa, tem 92% de eficácia e 45% na variante de Manaus. A Janssen, já aprovada, tem 72% de eficácia na Covid-19 normal e 42% na variante brasileira. As vacinas que o Brasil escolheu estão entre as piores.

Por fim, o texto já está cansativo, mas não pode deixar de ser convocado o “Posto Ipiranga”. Em fala nesta 6ª feira, 14 de maio, o ministro da Economia, Paulo Guedes, admitiu que a equipe econômica (que comanda) errou ao não prever reservas para enfrentar a pandemia em 2021. Há muito venho falando disso em minha coluna “O Outro Lado da Moeda”. Só um economista ultraliberal e insensível ia trabalhar com a hipótese de que acabando o ano fiscal de 2020 a pandemia estaria praticamente extinta e não seria preciso reservar recursos no orçamento para prorrogar o Auxílio Emergencial para 2021 bem como programas de socorro ao emprego e às empresas que seguem fechando aos milhares. Somado aos erros na Saúde, é o atestado final de incompetência de todos os setores importantes do governo Bolsonaro.



O diretor-presidente da Anvisa, Antonio Barra Torres, depondo na CPI
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