Por quais mortos nós vamos chorar?

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Na manhã de 3ª feira, 4 de maio, quando as atenções estavam voltadas para a instalação da CPI da Covid-19 no Senado, o país foi acordado pela tragédia da poética Saudades, no oeste de Santa Catarina. A pacata cidade de 10 mil habitantes, próxima a Chapecó, foi sacudida por chacina que parecia saída de um filme de terror de Hollywood ou da realidade que o culto à violência e o farto uso de armas por seus cidadãos costuma produzir. Um rapaz de 18 anos, inspirado no culto aos ninjas (antigos guerreiros medievais do Japão, que conheceu em filmes e séries de desenhos animados) munido de um arremedo de faca ninja que ele mesmo fabricou, invadiu uma creche e assassinou duas cuidadoras (de 30 e 20 anos) e três bebês (um menino de 1 ano e nove meses e duas meninas, de 1 ano e sete e de um ano e oito meses). Só não ampliou o massacre porque uma professora fugiu ao cruzar com seu olhar de fúria e correu à rua para pedir ajuda. Em seguida, o jovem atentou contra a própria vida e foi internado em estado gravíssimo em hospital local.

Enquanto a CPI da Covid ouvia o ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, demitido pelo presidente Jair Bolsonaro, em 16 de abril de 2020, contrariado pelo fato de o ministro pregar medidas de isolamento social, uso de máscaras e não endossar a recomendação presidencial para o uso de hidroxicloroquina e outras drogas do tratamento precoce cuja ineficácia contra a Covid-19 já foram atestadas pela OMS e a FDA americana, o país acumulava mais 2.966 vítimas fatais do novo coronavírus, somando 411.588 brasileiros. Mas, bastou o anúncio, após as 21 horas da 3ª feira (já fora da estatística diária encerrada pelas secretarias municipais e estaduais de Saúde, às 18 horas, quando os totais são compilados pelo pool da imprensa ou pelo Ministério da Saúde) da morte do ator Paulo Gustavo, aos 42 anos, após uma luta de 53 dias de internação hospitalar, para explodir uma comoção nacional.

Ator de carreira fulgurante, talvez o mais bem-sucedido praticante moderno da mistura do teatro do besteirol, do fim do século passado, com a “stand-up comedy”, campeão de bilheteria no teatro e no cinema e onipresente na TV, Paulo Gustavo tinha encantado e alegrado as famílias brasileiras com a personagem D. Hermínia, inspirada em sua mãe. Mas, também, por sua decisão de casar com o namorado, um médico dermatologista de sucesso e ainda por encomendar nos Estados Unidos (pelas dificuldades legais de fazer o mesmo no Brasil) dois filhos, um dele e outro do marido Thales, por inseminação artificial em duas “barrigas de aluguel”. Foi impossível não pensar na situação dos meninos Gael e Romeu, objetos de seu amor e carinho. As manifestações de pesar da classe artística, à frente a primeira-dama do Teatro, Fernanda Montenegro, que o considerou um dos maiores talentos da nova geração, e de personalidades vararam a noite e os dias seguintes.

E a corrente de pesar chegou até ao presidente Jair Bolsonaro. Entretanto, assim como foi o último Chefe de Estado a cumprimentar o novo presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, pela eleição (só em 6 de janeiro, quando o vice-presidente de Trump, Mike Pence, presidiu cerimônia de homologação, após a infame invasão do Capitólio insuflada pelo presidente derrotado na reeleição), Bolsonaro ficou atrás de outros presidenciáveis. O primeiro a se manifestar, pelo Twitter, às 22:28, foi Guilherme Boulos (PSOL). No mesmo horário de 22:31 vieram os pêsames de Lula (PT) e João Dória (PSDB). Ciro Gomes (PDT) postou mensagem às 22:40. O filho 01 do presidente da República, o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) se manifestou às 22:41 pela morte do ator, fluminense de Niterói. Às 22:42 veio o Twitter do presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira. As 23:01 surgiram mensagens da ex-ministra de Meio Ambiente, Marina Silva (Rede) e da deputada bolsonarista Carla Zambelli (PSL-SP).

A assessoria de comunicação do presidente da República comeu mosca e demorou a se manifestar. Talvez o filho 02, o vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-Rio) que atua como coordenador informal da comunicação presidencial, já tendo até invadido a conta oficial do presidente para postar mensagens, tenha demorado a perceber ou ser alertado pelo irmão senador, da necessidade de uma manifestação de empatia do presidente da República. Empatia que Bolsonaro raramente manifesta no dia a dia das trágicas estatísticas de brasileiros vitimados pelo vírus que o presidente da República enfrentou sem o devido cuidado e empenho. A cruzada para louvar a cloroquina e desacreditar a vacina foi um dos atos mais nefastos. Em março, com 300 mil mortes acumuladas, fez uma macabra imitação de um paciente morrendo por asfixia da Covid-19 em sua “live” semanal (Paulo Gustavo já estava internado e não pode reagir a essa agressão às famílias brasileiras). O fato é que, no Twitter oficial, a postagem tem horário de 12:21 PM de 5 de maio (após o meio dia), mas no alto da mensagem consta já terem se completados 20 horas da postagem. A ser verdade, só às 23:40, quase meia noite, a presidência da República se manifestou, por Twitter, sobre a morte do ator.

Mas se manifestou. Há um ano quando morreu, também vítima da Covid-19, o grande compositor, escritor e médico Aldir Blanc, Bolsonaro não fez qualquer manifestação. E ainda demorou a viabilizar a Lei Aldir Blanc, aprovada pelo Congresso para socorrer a classe artística, que ficou sem trabalho e faturamento devido ao isolamento social recomendado na pandemia. Quase nunca demostrou solidariedade e empatia com outros ídolos da classe artística que se foram. Uma das raras exceções foi com o cantor e ex-deputado federal Aguinaldo Timóteo, que já foi seu colega de partido na Câmara (PP).

As manifestações de Bolsonaro e filhos não são movidas pela empatia e o pesar, mas pelo viés ideológico e afinidades políticas. Vejam como reagiu o clã quando da maior matança policial da história do Rio de Janeiro na manhã de 5ª feira, 6 de maio, na favela do Jacarezinho, na Zona Norte da cidade. Tão logo um policial foi morto com um tiro na cabeça, quando tentava remover uma barricada para a entrada de um veículo “Caveirão”, blindado com policiais fortemente armados em seu interior, (atuaram 250 soldados e um helicóptero) e gerando brutal revide que levou à morte 28 moradores (suspeitos ou não), o filho 01, senador Flávio Bolsonaro, só manifestou pesar pela morte do inspetor da Polícia Civil, André Leonardo de Mello Frias, seguido pelo irmão 02, vereador Carlos Bolsonaro, e o 03, deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP). Vá lá que o fato de serem os filhos 01 e 03 quadros da Polícia Federal gere mais empatia com o policial (e com milicianos). Vidas negras e pobres importam. Não se pode ignorar as vítimas. Muito menos aceitar o argumento do governador Cláudio Castro (PSL-RJ) de que “a reação dos bandidos foi a mais brutal registrada nos últimos tempos”. Como, se o placar de mortes foi de 28 moradores X um policial? Cabe ao MPF-RJ apurar tudo. E ao Supremo Tribunal Federal cobrar do governador, aliado de Bolsonaro, a afronta à sua decisão de suspender ações policiais em comunidades na pandemia. A necropolítica visava provocar o próprio STF?

Definitivamente, na política não se pode ficar em cima do muro. É preciso fazer escolhas. Vejam o caso do presidente da mais poderosa nação capitalista do mundo. Na 4ª feira, Joe Biden, presidente dos Estados Unidos, onde estão os mais poderosos laboratórios farmacêuticos do mundo, defendeu a quebra das patentes para uso universal das fórmulas das vacinas contra a Covid-19 e suas variantes. A defesa de patentes (por 20 anos e prorrogáveis por mais alguns anos) é pedra de toque do “lobby farmacêutico” do 1º mundo. Durante a fase mais aguda da expansão do vírus do HIV (causador da AIDS), por iniciativa do ex-ministro da Saúde do governo FHC, José Serra, o Brasil conseguiu a quebra das patentes para antivirais para o HIV. Mas, quando era de se esperar comportamento semelhante quando o grupo do BRICS, à frente a Índia e a África do Sul, propôs, em outubro do ano passado, a quebra das patentes para as vacinas contra a Covid-19, o Brasil, por orientação do ex-chanceler Ernesto Araújo, deu voto contrário. Pois a União Europeia, que era contra a universalização da vacina da Covid, por resistência da Alemanha, já se mostra a favor. E o presidente Macron, da França, foi ao cerne da questão: a quebra de patentes tem de vir junto com a redistribuição de vacinas e insumos.

A generosidade de Biden podia ser posta à prova na redistribuição de 60 milhões de doses da vacina AztraZeneca, desenvolvida a partir de uma incubadora de negócios da Universidade de Oxford, no Reino Unido, não aprovadas pela Anvisa local. Elas fazem falta ao Brasil e a vários países. Incluindo a própria Índia que seria o grande supridor dos Insumos Farmacêuticos Ativos (IFAs) para o envasamento desta vacina pela Fiocruz. Com a explosão da Covid-19 na Índia, que superou largamente o Brasil em novos contágios e mortes (que ainda elevados por aqui com o surgimento de novas cepas do vírus, diminuíram em várias regiões que adotaram medidas mais rígidas de confinamento e isolamento). A melhor defesa sem a vacina.

Na ausência de vacinação (só pouco mais de 7% da população brasileira recebeu a 2ª dose, que oferece imunidade) deve-se tomar medidas rígidas de higiene, com asseio das mãos e uso permanente das máscaras. Números absolutos são menos importantes que a relação com a população total. Veja o caso da Índia: foram aplicadas 147 milhões de vacinas (250 milhões nos EUA), mas só 2,47% da população (1,380 bilhão) tomou a 2ª dose. A Europa voltou a reabrir até shows, graças à queda de contágios (que antecedem a curva das mortes nos dois sentidos). Os grandes responsáveis foram o isolamento e a vacinação, que reduziu a internação hospitalar dos acima de 60 anos.

Entretanto, o descuido dos mais jovens, que seguem o mau exemplo do presidente que continua a participar de aglomerações sem máscaras, tem levado à explosão de casos entre os jovens. Não se sabe como Paulo Gustavo foi infectado. Mas sua morte deve servir de alerta aos jovens. A doença não respeita ricos ou pobres, velhos ou jovens, cor ou posição social. Na Índia, a explosão veio do descuido com as aglomerações, tão comum nas celebrações religiosas. Aqui, foi-se ao Supremo Tribunal Federal para reabrir os templos e igrejas. Menos pela fé, que pode ser praticada em casa, na solidão. E mais pela coação que a situação de multidão exerce na doação ‘sagrada’ do dízimo.

O índice de vacinação no Brasil não deve se comparar em números absolutos (nossa população de 213 milhões praticamente supera a dos vizinhos) mas o quanto da população foi efetivamente vacinada com a 2ª dose. Vale lembrar que a chamada “taxa de imunidade do rebanho” só seria alcançada quando 80% estiverem vacinados no fim do ano, se houver retomada de fornecimento. A produção das vacinas CoronaVac, do Butatan, e AztraZeneca, da Fiocruz, está no ritmo “stop and go”, dependente de IFAs da China, justamente quando Bolsonaro cutuca o tigre asiático e o país fecha a semana com 420 mil mortos.

Os 7,2% alcançados pela 2ª dose no Brasil esta semana estão melhores que os 2,5% da Argentina, os 3,47% da Colômbia e os 6,5% do México. Perdemos para os 10,2% do Peru e os 36% do Chile, que tem uma população de apenas 19 milhões de habitantes (pouco mais que os 17,3 milhões do RJ) e para os 32,2% dos Estados Unidos. Na Europa, o melhor índice é do Reino Unido, com 24%, motivo da reabertura, controlada de bares e shows. Mas vale dizer que tanto os EUA como o RU garantiram vacinas para si mesmo e não exportam. É curioso, mas os piores índices de cobertura são da Alemanha, com 8,6% de vacinados com a 2ª dose. A França garantiu 10,6% de vacinação, a Itália, 11% e a Espanha, 12%. Portugal imunizou 9,3% da população com a 2ª dose.

A Rússia, com 147 milhões de habitantes, mesmo tendo uma vacina como a Sputnick V, disputada no Brasil, no Leste Europeu e na América Latina, só conseguiu aplicar a 2ª dose em 5,5% do total. A Turquia, com 83 milhões de habitantes, foi mais eficiente. Teve 42,5 mil mortes, mas aplicou a 2ª dose em 11,8%. Numa prova de que o desastre é previsível quando a ciência é deixada de lado no enfrentamento de uma epidemia como essa, veja-se o caso do vizinho Irã, dos aiatolás: um fracasso total. Com a mesma população da Turquia (83 milhões) acumula 74,2 mil mortes e só aplicou a 2ª dose em menos de 0,3% da população. Mas as estatísticas de contágios e mortes no Irã são as menos confiáveis entre as grandes nações do planeta.

Os depoimentos na CPI da Covid estão deixando claro responsabilidades, erros e omissões de cada um. Até para fingir o governo age mal, como ficou claro no suposto contágio pelo novo coronavírus do ex-ministro da Saúde que ficou mais à frente do cargo no enfrentamento da pandemia. O general (três estrelas) Eduardo Pazuello, que se mostrou nervoso, claudicante e exasperado ao responder a perguntas em “mídia trainning” (uma simulação para ele se acostumar com perguntas complexas e espinhosas, sem as facilidades oferecidas pelos senadores governistas), alegou que precisava fazer quarentena. Mas foi flagrado na mesma 5ª feira em que fugiu da CPI, recebendo o chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Onyx Lorenzoni. Está certo que ambos já tenham tido Covid-19, mas o risco de que poderia estar contaminado com novas cepas no ar (razão do seu “forfait” não foi eliminado. A fuga adiantará pouco. Dará tempo para a CPI reunir mais munição contra ele.



Bolsonaro
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