Um cenário de prioridades

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A composição das mesas diretoras do Congresso Nacional, que teve o presidente Bolsonaro como patrono, e o encheu de orgulho, se conteve, por hora, o fôlego dos adversários e o apetite dos amigos, não foi o bastante para engavetar projetos que pretendem ter logo as bênçãos de senadores e deputados. A incerteza quanto ao tempo de validade do casamento entre os dois Poderes está no fato de que a celebração tem tudo para assemelhar-se àquelas núpcias da Idade Média, inspiradas apenas nos interesses imediatos dos feudos. Estes, quando ofendidos, voltavam às armas. O noivo poderoso do nosso planalto deve saber que a lealdade do Centrão é tênue e circunstancial, tal como os romances medievais.

De outro lado, logo se revelou que na base do festejado diálogo incluem-se as reformas administrativa e fiscal, temas que se levantam, sem que seja possível negar-lhes importância e prioridade. São áreas em que, de fato, o Brasil padece de atraso, e nelas é possível identificar muitos dos problemas do dia a dia. São duas questões que sobrenadam muito acima de uma outra fixação presidencial, pedindo aos parlamentares que se associem à sua intenção de ver a população de armas em punho, e policiais menos tolerantes no enfrentamento com o crime.

Mas, se está em causa elaborar a linha de prioridades capazes de frequentar as relações Executivo - Legislativo, não seria demais oferecer espaço para o reexame da política externa, infestada de vácuos e remendos, além de pontilhada de dubiedades. O Brasil tateia e revela insegurança em alguns procedimentos, mesmo que evidências houvessem contribuído para recomendar comedimento. Não faltam exemplos de que é preciso introduzir reparos, algo de que a chancelaria e o Parlamento poderiam se encarregar, sem que, nesse particular, seja prudente atribuir à diplomacia ações menos decisivas. Mas os políticos com mandato têm obrigação de atuar.

Além dos visíveis sinais de que têm se deteriorado as relações com alguns governos, a pandemia veio oferecer uma advertência, também nesse setor. Contribuiu para expor nossa fragilidade, no momento em que foi preciso angariar insumos, que não temos, para produzir vacinas. Porque, cedendo a apaixonadas convicções direitistas, o governo revelou-se inseguro na hora de inscrever-se como cliente daquele material na Rússia e na China; esta vista, por delirantes assessores, como ideologicamente inconveniente; e, pior, produtora do vírus sinistro... Como se fosse possível inocular restos mortíferos de foice e martelo.

É longo o caminho a percorrer na tarefa de apagar pegadas que o atual governo veio deixando em incursões precipitadas, que dependiam de avaliações e cuidados, virtudes que instruem os melhores círculos diplomáticos do mundo. A Comissão de Relações Exteriores da Câmara, raramente ouvida, teria agora boa oportunidade para recuperar tempo perdido, já que a hora é de definir prioridades.

A queixa contra decisões apressadas encontrou, como primeiro exemplo, na atual gestão, o apoio dado ao governo do Estado de Israel, ao desejar transferir sua sede para Jerusalém, algo que, além de estimular a guerra entre judeus e palestinos, conflitou com histórica definição das Nações Unidas sobre a Cidade-Santa. Equívoco que se agravou com a explicação de que o presidente Bolsonaro nada mais pretendia, além de acatar um anseio dos evangélicos. Parta de onde tenha partido a ideia, fomos obrigados a esquecer e recuar, além do constrangimento imposto ao premier israelense, Benjamin Natanyahu, que aqui, gratíssimo, permaneceu alguns dias, animado pelo sol tropical, que enfrentou graças a generosas doses de caipirinha.

Inovação mais recente, esta ameaçando desdobramentos, foi a desmedida simpatia devotada ao colega Trump, dos Estados Unidos, o que, em parte, levou a atitudes hostis em relação aos chineses, não sem causar perplexidade, pois são eles grandes importadores de nossos commodities. Atitude do vendedor que fecha as portas da loja ao maior comprador.

Nas pegadas de Trump, mesmo sabendo que soçobrava a nau do republicano, o governo Bolsonaro causou maior estranheza, ao se revelar capaz de valorizar excessivamente impressões pessoais, menosprezando a estrela ascendente dos democratas, que, mesmo antes de chegarem ao poder, já manifestavam reservas em relação ao Brasil, pois consideram que não sabemos apagar o fogo da Amazônia, embora também não saibam como apagá-lo na Califórnia.

Há quem recomende ao presidente Joe Biden um jogo bruto com o governo brasileiro nas questões ambientais, aplicando-lhe severa sanção nas importações e na política diplomática. É pouco provável que chegue aos extremos, porque, no reverso, acabaria jogando o sentimento nacionalista no colo de Bolsonaro, fortalecendo-o para a reeleição. Biden não sabe o bem que faria, com o mal que pretendesse fazer.

Mas, acima de tudo, de erros passados, de simpatias ou inconveniências, o que cabe é o Congresso reconhecer o relevo da questão, e abrir espaço, entre as prioridades mais legítimas, para a avaliação da política externa, que, sob vários aspectos, tem a ver com a riqueza e a prosperidade do país. Se nem tudo está errado, há tortos a serem endireitados. Disso sabem muitos entre experientes diplomatas, que deviam ser consultados pelas casas parlamentares, independentemente da lealdade daqueles funcionários às instâncias superiores de hierarquia.

Saiam de onde saírem, mas que venham principalmente do Congresso, serão oportunos os esforços para uma avaliação crítica de nossas relações com o resto do mundo.