Bolsonarismo explícito

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Objeto de constatação. Se o impossível é a única coisa realmente impossível de não acontecer nesse governo, ninguém melhor que o presidente para produzir palavras e atos que, em generosas cascatas, têm o condão de criar situações polêmicas e gerar confusão na opinião pública. Em rigor, ninguém a ele se iguala na promoção de surpresas que nascem quando a boca se abre. De tal forma, que hoje, neste país, as pessoas despertam sem saber das consequências do discurso mais recente que ele obrou, como também ignoram se suas declarações contribuirão para a Bolsa cair ou se um ministro desventurado vai amanhecer na marca do pênalti. O desjejum do Brasil costuma tornar-se amargo, mesmo se temperado com o leite mais condensado do mercado.

O doutor Bolsonaro excedeu-se, na semana passada, quando, recorrendo ao seu cardápio popularesco, escolheu vaso impróprio para estocar latas daquele produto, depois de desconsiderar legítimo o direito da imprensa de pedir explicações sobre gastos que pareciam exagerados, sobretudo em itens de duvidosa necessidade nas cozinhas do governo. Não explicou, mas deu ao episódio tratamento vulgar e obsceno, atitude agravada por ser perpetrada em ato público. Do que, aliás, restou outra dúvida, de difícil explicação: o que faz as pessoas sérias ficarem mais coradas, de tanta vergonha, a linguagem chula do presidente ou a claque dos ouvintes que o aplaudiram? A veneranda Dercy Gonçalves e seus auditórios teriam sido mais comedidos.

Tudo, menos a vulgaridade, diria o grande poeta português, se ouvido pelo presidente.

Depois do espetáculo deprimente, supõe-se, como conveniente, por mais constrangedor que seja, que, a partir de agora, os pronunciamentos presidenciais na televisão sejam antecedidos da tradicional advertência dos filmes indecentes e de conteúdo não recomendável: programa impróprio para menores de 14 anos, por conter palavras e atos de bolsonarismo explícito. O presidente vai falar, tiremos as crianças da sala.

Mas, quando essa temporada chuleira passar, se passar, questões mais importantes e urgentes poderão ganhar a preferência dos pronunciamentos oficiais. Possível, então, que cessem as agressões praticadas, indistintamente, contra a mídia, que tem preferido ligar pouco para os destemperos da fonte de onde partem as ofensas, e despreza as expressões mal ditas.

O que ainda não foi possível compreender, e surpreende, é que nos gabinetes e no recesso palaciano não surja alguém com autoridade para cobrar dele, pelo menos, - se nada mais for possível –, um palavreado diferenciado de gafieira.

Em outra ponta dos resultados, pergunta-se como os disparates oficiais têm repercutido no Exterior. Afora os constrangimentos internos, o nível inferior das palavras do chefe do Executivo também repercutem negativamente junto a outros governos e instituições, podendo chegar a comprometer o diálogo respeitoso. Porque um presidente tem direito de pensar e até resmungar palavrões, mas nunca pronunciá-los, dirão os colegas estrangeiros sobre a importância dos bons modos. Frente ao mundo, o presidente precisa ser levado a sério, e a palavra é sua primeira e mais importante credencial para merecer respeito. Sinal preocupante viu-se, há dias, em Washington, quando a jornalista quis saber de Joe Biden seus planos para conversar com o colega brasileiro, o que ele respondeu, em silêncio, apenas com sorriso sarcástico, num gesto de total desconsideração.

Mais do que nunca, é perigoso abrir mão do respeito, tanto interna como externamente, e para isso chacotas que azedamleite condensado em nada contribuem.

Insistindo nas repercussões externas da verve grosseira, é preciso lembrar que a conduta pessoal dos dirigentes é fundamental, cada vez mais indispensável num mundo em que as relações em torno dele vão se estreitando cada vez mais. Os estadistas têm de revelar seriedade e respeito, a começar nas relações entre governante e governados. Quando isso falta, se por primeiro não se constrói internamente, as relações externas também acabam se ofendendo.

O presidente precisa se impor, ao peso das responsabilidades que carrega, num mundo cada vez mais conturbado e íntimo, onde ninguém já é dono de totais suficiências para orgulhar-se demais; e faria bem se avaliasse a crescente degradação a que tem submetido sua imagem em outros países, onde a imprensa lhe dedica escasso respeito. Repensar-se e medir bem o que está para falar, começando pela maneira como continua se portando frente ao vírus da Covid 19, em contraste com a realidade da pandemia apocalíptica, que passa e flagela, mas também ensina a ele e a todos. ( De que valeram as hostilidades gratuitas do Planalto em relação à China, em cujas portas fomos bater, pedir boa vontade e disputar insumos para a produção de vacinas? Ou, depois de tantos desencontros com a Venezuela?, termos de agradecer o oxigênio solidário que não tínhamos para salvar vidas no Amazonas).

O mundo é a escola de interdependências, onde presidentes, reis, rainhas e líderes religiosos não podem prosperar sem que se façam respeitados, mesmo que faltem razões para admirações mútuas.

Bolsonaro xinga a imprensa de casa, que não reage, nem poderia reagir, porque é impossível dar-lhe tratamento no mesmo nível de obscenidades, mas a repercussão externa é desabonadora. Bate aqui, ressoa lá fora. Há alguém na antessala para dizer isso a ele?