O que temos a ver?

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O fim melancólico da passagem de Donald Trump pela presidência do país mais influente do mundo sugere exame mais aprofundado dessa personalidade, na qual incidem, segundo especialistas, certos aspectos psicóticos, que, aprofundados, sempre levaram o portador a estimar o gosto por polêmicas improdutivas. No caso, cabe observar que polemizar, só com intuito da provocação, não é, nunca foi, sinônimo de dialogar. Agora, a maioria dos estadunidenses preferiu apeá-lo do segundo mandato, algo difícil de se obter, porque lá a reeleição do presidente, quase imperativo de conveniências, só não acontece se for antecedida de muita incompetência ou, não menos grave, como produto de rigoroso descuido no trato da política.

Trump preferiu governar sentado num misto de arrogância e provocação. Não faltaram exemplos de tal disposição. O famoso muro com que pretendeu afastar os incômodos da imigração mexicana foi bom exemplo dessa conduta, à qual ele haveria de somar, quase ao mesmo tempo, humilhantes restrições a imigrantes árabes, prévia e indistintamente sob suspeição de encher malas de terrorismo. Satisfez-se com a polêmica, naturalmente provocada em todo o mundo. As repercussões foram notadas, mas de somenos para quem gosta de provocar, algo que ele haveria de confirmar, mais uma vez, quando foi à Coreia arrancar do ostracismo e engajar na comunidade internacional Kim Jong Un, o exótico administrador da mais fechada ditadura do planeta.

Na última semana, o republicano encerrou sua gestão provocando correligionários descontentes com o resultado da eleição, instigando-os à invasão do Capitólio, insanidade que acabou resultando em mortes e destruição. Horas atrás, para não se retira sem espargir poderoso estoque de bílis, prometeu não transferir o poder a Joe Biden, no dia 20, numa hostilidade pessoal ao sucessor. Em supremo gesto de irascibilidade, se fará ausente, representado pelo vice.

Atitude dessa natureza acaba causando mal-estar e constrangimento também a quem, por dever de ofício, estiver na solenidade. No Brasil, apesar de tantas radicalizações políticas, parece que, felizmente, isso só aconteceu duas vezes: em 1965, o governador Lacerda não transmitiu o cargo a Negrão de Lima, adversário que o sucedia; e, vinte anos depois, o presidente Figueiredo saiu pela porta do fundo, para não passar a faixa a José Sarney.

Mas, com razão, há que se perguntar o que temos, os brasileiros, a ver com as rabugices de Washington? Temos sim, particularmente nós, vizinhos do Sul, porque o presidente daqui nunca escondeu admiração pelo colega americano, e estima imitá-lo com desenvoltura. Consome todas as oportunidades para exaltar virtudes que vê no seu protótipo da cabeceira de cama. Admiração e afeto.

Bolsonaro – quem seria capaz de negar ? - aprecia, igualmente, a abordagem de temas polêmicos, e, se chamado a explicar-se de incursões mal sucedidas, tem sempre ao alcance, no bolso mais próximo, a mídia, culpada de todos os males. Como Trump. E, também como o herói importado, diverge, tanto no essencial como nas questiúnculas, com ministros e colaboradores próximos.

Com seu jeitão de ser, agressivo e autossuficiente, mesmo vendo milhares de concidadãos caindo mortos ao seu redor, o hóspede da Casa Branca viu o projeto do segundo mandato afundar nas águas do rio Potomac. As águas de Bolsonaro estão no Paranoá, e devia aproveitá-las, espelhando-se, para avaliar se tem adotado o modelo ideal para alguém que vai postular mais quatro anos de permanência no Palácio do Planalto. Trump pretendeu e naufragou.

No embalo esperançoso dos bolsonaristas, preocupados com semelhanças no circuito Brasília -Washington, e com um possível idêntico desfecho, argumenta-se que o tempo, se é curto para adotar outros padrões, não deixa de ser suficiente para o presidente, ao menos, se descolar da escola do colega americano, que já vai saindo pela cozinha.

Penso que Bolsonaro daria prova de boa vontade, desde logo, relegando outro mau exemplo importado, e preservar a Justiça, de quem o americano se queixa de permitir gigantesca fraude eleitoral, e, por isso, o derrotou. Bem faria se também abandonasse a imitação, bastando desistir de propor ao Congresso a adoção de cédula impressa para a eleição de 2022. A sugestão inspira um retrocesso, depois da bem sucedida experiência que tivemos com o voto eletrônico.

O processo eleitoral na Confederação americana, mesmo que possa incorporar alguma suspeita, difere, sensivelmente, do modelo que se adota no Brasil, a começar pelo fato de que aqui o eleitor não se serve de correios pela levar o voto, nem desfruta do direito de manifestar preferência por um candidato, dias antes da data oficial de votação; além de outras complexidades. Os desvios e as suspeitas que Bolsonaro vê nos Estados Unidos, solidário a Trump, são possibilidade inexistente entre nós.

Se desistir do que prometeu submeter ao Legislativo, terá dado um passo para se libertar de ideias e atitudes de alguém que adotou como ídolo; o atrapalhado professor que procurou seguir e ouvir. É a chance de se descolar de um modelo que quase todos os estadistas repudiam.

Ensinava o velho coronel Heliodoro, dono de votos do sertão do vale paraibano, que, também na política, leva-se o falecido até a cova, mas não se entra nela. Bolsonaro deve entender que Trump, num enterro de segunda classe, é página virada, para o povo dele e para o mundo.