Filósofa Marcia Tiburi lança novo livro: Um fascista no divã

Primeira peça de teatro escrita por ela e pelo jurista e psicanalista Rubens Casara procura mostrar como funciona o pensamento de um homem com ideias fascistas

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Um diálogo intenso em um consultório de psicanálise, construído por assuntos que giram em torno de autoritarismo, direitos humanos, filosofia, religião, opressão. O conhecimento da Psicanalista – com argumentos científicos, históricos e culturais – em contraponto à ignorância orgulhosa do paciente Fascista. Uma comédia de inspiração brechtiana que propõe ao espectador experimentar a transformação do riso despreocupado em reflexão sobre o crescimento do pensamento autoritário. Esse é o enredo do livro Um fascista no divã, de Márcia Tiburi e Rubens Casara (Editora Nós, 64 páginas).

Macaque in the trees
Marcia Tiburi (Foto: Foto: divulgação)

Uma psicanalista reconhecida recebe um paciente peculiar que se apresenta como um potencial candidato à presidência da república à beira de um ataque de nervos. Por sugestão dos publicitários que cuidam do marketing de sua campanha, o Fascista procura na psicanálise um espaço no qual possa falar livremente, sem prejudicar seu projeto político. De sujeito engraçado, um pouco exagerado, ao longo dos encontros com a Psicanalista, ele passa a demonstrar o quadro paranóico em que vive.

“Escrevemos esse livro entre 2016 e 2017, analisando o processo do golpe e da ascensão do fascismo. Era óbvio o que estava acontecendo naquela época, mas, para muitos, infelizmente, o fascismo se tornou óbvio apenas hoje”, explica a filósofa Marcia Tiburi. “A peça começou a ser construída após uma conversa com José Celso Martinez Corrêa sobre o crescimento do pensamento autoritário no Brasil e a importância do teatro como um espaço de resistência ao neofascismo. Um fenômeno que já dava fortes sinais no Brasil em 2016”, complementa Rubens Casara. “O texto é um convite para pensar como a naturalização do absurdo pode custar caro”, acrescenta. Marcia Tiburi é enfática: “creio que se trata de uma peça que oferece um espelho sobre certos personagens que se tornaram fundamentais no processo de decadência do Brasil”.

Com trechos como: “(Fascista) Gosto de coisas simples. Decido sem precisar pensar muito. Tudo é fácil, quem gosta de complexidade é intelectual. (...)”; “(Psicanalista, para o público) Há um fascista potencial em cada um de nós. É um idiota que fala a linguagem que toca o que há de idiota em cada um de nós”; “(Psicanalista) Errar (...) é divinamente humano. Errar, alguns se recusam a acreditar, mas é um direito humano. (Fascista, sério) Direitos humanos? A senhora é comunista? Direitos humanos é coisa de bandido (...). Bandido bom é bandido morto”, a obra Um fascista no divã expõe diálogos/confrontos entre a irracionalidade e a razão, os preconceitos e o conhecimento, e desvela a personalidade autoritária, paranóica, muito comum em nossos dias.

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Capa de Um fascista no divã (Foto: Divulgação)

A peça foi lida para o público por Paulo Betti e Zélia Duncan, no estúdio Midia Ninja, em 2018, no Rio de Janeiro. “Vivíamos já o bombardeio de ódio que resultou na eleição do mal. Estávamos todos muito pressionados, impressionados e um pouco amedrontados. Mas nada nos impediu, era uma necessidade física, bem maior do que qualquer receio”, escreveu Zélia Duncan na orelha do livro. “Vai ficar pra sempre em minha memória. Pensei em Plínio Marcos, Lauro César Muniz, Augusto Boal, Gianfrancesco Guarnieri, Vianinha e tantos outros (...). Vamos atuar até o fim para que não destruam o nosso Brasil”, completou Paulo Betti.

“Um fascista no divã é um portal para a reflexão e se torna cada dia mais urgente, devido ao problema que ele coloca de maneira crítica e didática”, conclui Marcia Tiburi. “O livro foi escrito para ajudar na compreensão do caos autoritário em que nós estamos lançados”, finaliza Rubens Casara.



Marcia Tiburi
Capa de Um fascista no divã
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