Brasileiros estão entre os que mais procuram sites de infidelidade 

Espaços para casados em busca de aventuras extraconjugais confirmam a tendência da internet de colocar a traição à apenas um clique

Entre os dez mandamentos bíblicos, lá está: "não adulterarás". Mas ao que tudo indica, o conjunto de leis que teria sido escrito por Deus não é exatamente levado ao pé da letra. Prova disso é a nova ferramenta na internet que vem se tornando febre entre os adúlteros - os sites de infidelidade. 

Sob slogans como “A vida é curta. Curta um caso”, as páginas, voltadas para pessoas casadas que gostariam de ter um affair sem serem flagradas, começam a ganhar popularidade entre os brasileiros. 

É o exemplo do site Ohhtel.com, rede de relacionamentos que promete encontrar para o usuário um “amante discreto” em apenas um dia. E como não haveria de ser, a proposta levanta polêmica. Segundo Laís Ranna, VP de Operações do site, lançado no Brasil há menos de dez dias, mais de 80% das pessoas que aderem ao site já tinham traído seus companheiros antes. >> Veja mais dados da pesquisa

“Não inventamos a infidelidade. Quem quiser trair, vai trair, com site ou sem site”, defende. “Por que a gente ainda tem que tolerar um modelo de casamento que existe há mais de cem anos? Daqui a algum tempo, a traição vai ser mais do que normal”, sustenta.

Segundo a representante, desde que o site foi lançado nos Estados Unidos e na Argentina, há cerca de dois anos, os brasileiros eram os que mais tentavam acessar o espaço. “Então fizemos uma pesquisa que mostrou que os brasileiros, comparados com os argentinos e americanos, são os mais insatisfeitos no que diz respeito ao sexo no casamento”, conta.

A pesquisa feita pelo grupo, com 2.500 mulheres e homens brasileiros casados, mostrou que 19,2% vivem com menos de uma relação sexual por mês e que 51% deles estão insatisfeitos. Em um cruzamento com dados do censo, a pesquisa concluiu que quase 15 milhões de brasileiros vivem em relacionamentos sem sexo.

São estes números que levam Laís Ranna a acreditar que a “infidelidade pode ser o segredo para o casamento durar”. Para ela, por ser discreto, o serviço é a melhor saída para quem está insatisfeito com a falta de sexo no casamento, mas não quer se divorciar.

É o caso de uma usuária de Ohhtel.com, que, depois de conhecer o site, afirmou em um depoimento que esse tipo de serviço é “necessário para pessoas que estão em uma situação em que não podem deixar seus parceiros”. Ela contou que procurou o site porque estava cansada de ter que “pedir a atenção do marido”.

Para a psicanalista Susan Guggenheim, do departamento de psicologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), atualmente, as dificuldades de relacionamento se tornam mais acentuadas porque as pessoas levam um estilo de vida mais centrado em si mesmas.

“O casamento é uma instituição burguesa, existe em função de manter certos valores sociais”, explica a psicóloga. “As pessoas casadas que procuram por esses sites acreditam neste valor burguês do casamento, que envolve os filhos e a divisão do patrimônio. Para preservar isso, elas buscam esses tipos de encontros, que oferecem menos riscos”

Porta-voz do site de infidelidade Second Love no Brasil, Anabela Santos conta que muitos casais “relatam que a sua relação atual fica melhor após terem tido um affair”.

“Somos uma plataforma virtual online para pessoas que já estejam numa relação e estejam à procura de outras pessoas para flertar ou para terem mais atenção e eventualmente para conhecê-las pessoalmente. Somos mais uma opção tal como o flerte no trabalho ou no bar”, acrescentou.

Polêmicos ou não, os sites ganham popularidade entre os brasileiros. Lançado há menos de dez dias no país, o Ohhtel.com já soma mais de 60 mil usuários. Precursor no movimento pró-infidelidade, o site americano Ashley Madison também deve ganhar versão brasileira em agosto. No mercado desde 2002, com 10 milhões de usuários e adesão a cada nove segundos, a empresa afirmou que cerca de 190 mil brasileiros já procuravam a versão americana do site. 

Para o fundador do site, Noel Biderman, a ideia é evitar que as pessoas tenham casos no local do trabalho. “Muitos aqui estão tendo ou já tiveram casos. Sabemos que isso faz parte da condição humana”, disse em uma das entrevistas que dá com freqüência aos talkshows americanos.