Testamos: Nokia N8, bonito por fora, mas nem tanto por dentro

 

Em outubro de 2010, chegou ao Brasil o Nokia N8, smartphone lançado no meio do ano passado nos Estados Unidos com o objetivo claro de competir com o iPhone, da Apple, mas que acabou se tornando também concorrente dos aparelhos dotados de versões do Android, sistema operacional do Google. Com preço médio abaixo de R$ 1.500 em planos pré-pagos, mas podendo sair por menos de R$ 1.000 em alguns planos pós-pagos das operadoras brasileiras - ou seja, quase R$ 500 mais barato que um iPhone 4 16 Gb - o Nokia N8 é uma verdadeira máquina, levando-se em conta apenas seu exterior. O Symbian^3, que nessa sexta-feira virou passado com o anúncio da Nokia de que seus aparelhos terão Windows Phone, o sistema operacional da Microsoft, compromete o desempenho do N8.

Iniciando pelo chassi do Nokia N8, observa-se que ele é um pouco mais pesado que outros smartphones top de linha dos fabricantes concorrentes, e mais do que um iPhone 4, mas nada que prejudique. Pelo contrário, pelo peso e também pela moldura inteira - para tirar a bateria é necessário abri-lo com chave de fenda - o Nokia N8 passa uma impressão de resistência que de fato se confirma. Por duas semanas, ele resistiu bravamente a todas as intempéries de um teste.

Indo na mesma direção dos demais fabricantes, a Nokia apostou em poucos e imprescindíveis botões físicos no N8. A começar pelo botão de liga-desliga, que de tão minimalista por vezes dificulta a mudança de perfil: colocá-lo no silencioso, por exemplo, pode demorar tempo demais quando se está entrando em uma reunião. Junto do botão de off, no topo do aparelho, está a entrada para os fones de ouvido, muitos bons, por sinal, com botões para atender ligações, aumentar o volume, trocar e dar play nas músicas, e para o cabo HMDI (calma, já chegamos lá). Na lateral direita estão a regulagem do volume/zoom, o botão de bloquear a tela e também o de tirar fotos ou fazer vídeos. Na esquerda, ficam a entrada para o cartão de memória microSD (até 32GB), para o cartão SIM e para uma porta de microUSB. Na parte inferior do aparelho, está a entrada para o carregador, aquele mesmo de pino fino dos mais recentes Nokia. Ou seja, nada de carregador USB.

A tela, tal como se espera dos novos smartphones, é full touch screen, ou multitouch, que possibilita ao usuário usar dois dedos, tem 3,5 polegadas com tecnologia OLED e resolução de 640 x 360 pixels. Logo abaixo, está o único botão físico na face do aparelho, um botão que acende quando ele é ligado - a melhor forma de descobrir se ele está de fato ligando uma vez que a abertura da Nokia leva certo tempo para iniciar - e que abre o menu principal. Dentro do meu, o botão, quando pressionado, mostra os aplicativos abertos, permite deixar os ícones grandes e organizá-los e ainda dá acesso ao Guia do Usuário. Sim, o manual está dentro do aparelho, o que só pode ser uma coisa boa.

Na traseira do Nokia N8 está o xodó do modelo, que impede o smartphone de ter um design sem saliências como um iPhone, mas que certamente compensa: uma câmera de 12 megapixels com lente Carl Zeiss, flash de Xenon e um grande sensor óptico semelhante ao das câmaras digitais compactas. Não bastasse tanta tecnologia em um "celular", o N8 permite que o usuário não apenas assista a vídeos em alta definição, faça vídeos em alta definição (sim, por isso o cabo HDMI) e, é claro, edite seus vídeos com um programa que já vem instalado. E se já não fosse o bastante, com o Nokia N8 é possível reproduzir os vídeos feitos e também os baixados em uma televisão graças ao cabo HDMI. Sensacional, não?

Por dentro do Nokia N8

Sensacional mesmo seria se o Nokia N8 fosse a mesma máquina que é por fora, mas por dentro. O Symbian^3, nova versão do sistema operacional de código aberto usado pela fabricante há alguns anos deixa, e muito, a desejar. Especialmente para quem está acostumado aos padrões Google, ou mais especificamente ao Android, ou ao maior concorrente da Nokia, o iOs do iPhone, da Apple. Regras básicas de um sistema operacional para dispositivos móveis como "quantos menos clicks melhor" ou "ser simples não quer dizer ser simplista" não chegou à Finlândia, pelo visto.

O Nokia N8 tem três telas iniciais, o que para os entusiastas dos widgets (espécie de atalho em smartphones) pode soar atraente, mas organizá-los pode não ser tão legal assim. Os atalhos e widgegts podem ocupar apenas seis posições e, no caso dos atalhos para os aplicativos, é preciso formar blocos de quatro ícones. Se o usuário não gosta da formação "Orkut, Navegador, Fotos e Mensagens", por exemplo, é preciso configurar todo o bloco. O segurar e arrastar do iOs e do Android passaram longe do Symbian. Um lado positivo das telas iniciais são os atalhos localizados no lado esquerdo e superior da tela. Ali, o usuário encontra um menu rápido com as mensagens não lidas, o despertador, a conexão Wi-Fi, as chamadas não-atendidas, as mensagens de voz, entre outros. Porém, os ícones são tão pequenos que o usuário precisa ser certeiro no toque, ou acabará abrindo outro atalho. A precisão do toque, aliás, se faz essencial no Nokia N8.

Além disso, a aparência do Symbian também não ajuda. Para quem conhece ou está acostumado com o design e com as fontes elegantes da Apple, ou mesmo com a simplicidade e a descontração do Google, vai estranhar o Symbian^3. Suas fontes quadradas e pequenas dão um ar de antigo para o sistema operacional, que de fato é: ele existe desde 1998.

Seguindo para as suas funcionalidades, pode-se dizer que o Nokia N8 é mais ligado à imagem do que ao texto. Além das fontes pequenas e quadradas, o teclado virtual - na horizontal - é um tanto quanto pequeno para a ponta dos dedos humanos, mesmo para os dedos mais delicados. Durante as duas semanas de teste, o teclado alfanumérico de doze teclas se mostrou mais ágil. Talvez seja a memória corporal dos tempos em que ainda não utilizávamos smartphones e fazíamos campeonatos de quem digita mais rápido uma mensagem no celular. Já o navegador nativo do Nokia N8 é do tempo em que os smartphones nem pensavam em existir, aparentemente. Baixar um aplicativo é essencial para usufruir da internet, uma das, se não a mais importante dos usos que se faz de um smartphone.

Em contraposição, qualquer funcionalidade que envolva imagem é desempenhada pelo Nokia N8 muito melhor do que muito Android e, pasmem, que um iPhone 4. Isso porque além da câmera de 12 megapixels e o sistema ótico Carl Zeiss, o Nokia N8 tem flash de Xenon - recurso que só chegou ao iPhone na quarta versão - e, o mais importante, faz vídeos em alta definição. É aqui que a Nokia ganha da maioria de seus concorrentes e conquista usuários, muitos dos quais ajudaram a empresa finlandesa a se tornar a maior fabricante de celulares do mundo até hoje. É realmente fantástico que com um smartphone que custa menos de R$ 2.000 o usuário possa criar seus vídeos em HD e, ainda por cima, diretamente do aparelho, vê-los em televisores que possuem tal tecnologia. O cabo, ponto para Nokia, já vem junto com o N8. E, para coroar o sucesso da Nokia no que diz respeito à imagem, há no N8 outro diferencial: uma câmera frontal para vídeochamadas.

Outro ponto positivo do Nokia N8 é o Ovi, que integra a loja de aplicativos, os contatos dos usuários, os downloads de músicas, mapas, serviço de e-mails, entre outros. Entretanto, na maioria das vezes, o widget do Ovi, que reúne atualizações do Twitter e do Facebook na tela inicial, só atualiza quando se abre o aplicativo e clica-se em "refresh". Ainda assim, o Ovi é mais amigável do que muito aplicativo oferecido para o mesmo fim, como o Snaptu. Com o e-mail, acontece o mesmo: para visualizar os últimos recebidos é preciso entrar no widget e aguardar. E para aqueles que utilizam o Gmail e não estão dispostos a criar um Ovi Mail, uma má notícia: assim como os iPhones anteriores à versão 4, o Ovi não reconhece o sistema de conversas do Google: cada e-mail é um e-mail. O Ovi Maps, por sua vez, em nada fica devendo ao Google Maps, do Android. Pelo contrário, além de mapas e de funcionar como um GPS, o aplicativo traz previsão do tempo e até dicas do que fazer na cidade perto de onde o usuário está. Além disso, é através do Ovi que as fotos são compartilhadas tanto no Twitter quanto no Facebook a partir da galeria, e não da máquina.

Resumindo, para usufruir do que o N8 tem de melhor por dentro, e que sem sombra de dúvidas é o Ovi, é preciso criar uma conta, mas nada que desmereça o serviço que possui uma versão online na internet. Afinal, convergência é sempre bem-vindo, certo?

Veredito final 

Em duas semanas de testes com o Nokia N8, pode-se dizer que ele tem um hardware e tanto. De modo geral, o dispositivo desempenha aquilo que se espera de um smartphone: acesso à internet (se com um aplicativo), chamadas telefônicas, fotos, vídeos e acesso às redes sociais. Mas, para qualquer usuário de serviços do Google e de produtos da Apple e seus sistemas, ele deixa e muito a desejar, única e exclusivamente por causa do Symbian^3. O Ovi é que minimiza a frustração do usuário com bons aplicativos próprios. Ao final das duas semanas, entre voltar para o meu Android e comprar uma televisão com entrada HDMI para aproveitar o melhor dos recursos do N8, preferi voltar para o meu Android. Nada substitui um sistema que entende as necessidades do usuário, nem mesmo uma verdadeira máquina como o Nokia N8.

Em tempo

Com o anúncio da Nokia de se aliar à Microsoft e adotar o sistema operacional Windows Phone em seus smartphones, descontinuando o MeeGo - que deveria ser o sistema operacional próprio - e deixando o Symbian para trás, fica a pergunta: e porque não o Android? Segundo informações do Gizmodo, o CEO da Nokia, Stephen Elop, foi franco e disse em coletiva nessa sexta-feira que o principal motivo para não fechar uma parceria com o Google é que a Nokia não queria ser "mais uma". Ao aderir ao Android, a Nokia deixaria de lado o Ovi, por exemplo, e se tornaria só mais uma fabricante de smartphones.

Apesar de todo o otimismo da companhia, o mercado não reagiu bem, e as ações da Nokia nas bolsas europeias caíram logo após o anúncio. Ainda assim, caberá aos usuários dizer se eles acertaram ou não na parceria com a Microsoft, pois essa é a chance de termos no mercado smartphones tão bons quanto o N8, mas com um sistema operacional que esteja a sua altura. Ou não.