Ambiente de trabalho contribui para a auto-medicação, diz médico

JB Online

RIO - O livre acesso à pequena farmácia disponível em algumas empresas ou o apelo ao colega precavido que sempre dispõe de um comprimido para qualquer mal-estar, além da facilidade no Brasil em se adquirir remédios controlados, podem significar riscos à saúde. De acordo com o diretor médico da clínica Med-Rio Check-up, Gilberto Ururahy, a automedicação pode mascarar doenças graves e até mesmo causar dependência.

O médico alerta que, para manter a saúde em dia, todo trabalhador deve manter seu check-up atualizado.

- Essa é a melhor maneira prevenção. O alto nível de estresse no trabalho pode desencadear patologias, como depressão, diabetes, hipertensão arterial, colesterol elevado, alterações do desejo sexual, aumento do tabagismo e queda na imunidade do indivíduo, além de fadiga e insônia. Tratá-las sem acompanhamento médico é um erro - alerta Ururahy.

Ao longo de 18 anos, Gilberto Ururahy acompanhou 32 mil executivos e realizou uma pesquisa no Rio de Janeiro que constata que a automedicação por vitaminas, redutores de colesterol, antihipertensivos, anti-inflamatórios, analgésicos, antiácidos, tranqüilizantes, moderadores de apetite, ansiolíticos, e substâncias indicadas para distúrbio da ereção no ambiente empresarial é muito mais comum do que se imagina. Em um universo de 6.400 executivas avaliadas, 20% assumiram se automedicar e 16% dos 25.600 homens envolvidos no estudo, também. A tensão no trabalho é o combustível para doenças: 62% das mulheres e 70% dos homens sofrem altos níveis de estresse e apresentam estilo de vida competitivo e obsessivo por resultados.

Isso reflete os índices de depressão (8%), insônia (média de 25% entre homens e mulheres), diabetes (7%), hipertensão arterial (16% em no caso delas e 23% deles), colesterol e triglicerídeos elevados (42% das avaliadas e 80% dos avaliados), entre outras patologias. O pior é que muitas das vezes esses sintomas são agravados com a automedicação, especialmente quando esta é realizada de maneira combinada.

- Independentemente da posição que ocupam na empresa, idade ou sexo, a maioria dos trabalhadores recorre, em algum momento da vida profissional, a um desses medicamentos como forma de enfrentar o turbilhão do cotidiano - lamenta o médico.

Ignorando os riscos a que se submetem, os mais velhos optam pelo mau hábito, visando a melhora em suas condições físicas. Já os mais jovens praticam a automedicação para enfrentar as doenças como modernas, entre elas as psicossomáticas, como a síndrome do pânico. O que ambos esquecem é que os medicamentos apresentam efeitos colaterais.

O ácido acetilsalicílico (aspirina), por exemplo, tão utilizado para dores de cabeça, pode acarretar alergia, gastrite ou hemorragia digestiva quando utilizado de maneira continuada. O mesmo pode ocorrer mediante uso freqüente de anti-inflamatórios. Outro exemplo são os antibióticos, que podem não produzir o efeito esperado, gerar resistência e até provocar o desenvolvimento de fungos indesejáveis.

- Essa bengala química traz riscos ao coração, ao fígado e aos rins, entre outros órgãos - alerta o médico.

Para Gilberto Ururahy, além da questão cultural do brasileiro, a prática da automedicação é impulsionada pelo envolvente marketing praticado pelas indústrias farmacêuticas. As vendas anuais de vitaminas nos Estados Unidos giram em torno de US$ 15 bilhões. Embora não haja dados de órgãos oficiais, a experiência do médico aponta que, no Brasil, a realidade não é muito diferente.

- Aqui, o indivíduo comumente se automedica com o balconista da farmácia, seja por falta de tempo, impaciência, comodidade, ou até economia, evitando uma consulta médica. Quando não, busca facilmente todo tipo de medicamento através da internet, hábito cada vez mais difundido e perigoso - pondera Ururahy.