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A sociologia vai ao shopping center

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Agência JB

VALQUÍRIA PADILHA - CIÊNCIAS SOCIAIS-Pesquisadora critica mercantilização das relações humanas e do lazer

Quem nunca ouviu falar em shopping center? Ou nunca passeou pelos corredores desse centro de consumo? Quantas vezes não viajamos para outra cidade ou país e desejamos visitar o shopping center local? Templo de culto à mercadoria, o shopping center é um espaço privado, objetivamente planejado para a supremacia da ação de comprar. O que se compra nesses centros, contudo, é muito mais do que mercadorias, serviços, alimentação e lazer. Compra-se distinção social, sensação de segurança e ilusão de felicidade e liberdade. Nessa exaltação ao consumo e ao lazer alienados, o shopping center exclui a 'vida real'. Pior: com suas vias limpas e iluminadas, deixa do lado de fora a cidadania e a prática da vida pública.

Atualmente, os shopping centers concorrem com a televisão e o computador entre as atrações mais citadas pela população como preferências de ocupação do tempo livre. Esses centros comerciais apresentam uma realidade construída: um 'mundo de dentro', limpo e isento dos fatores como chuva, mendigos e poluição, que agem no 'mundo de fora' o espaço urbano com seu caráter público. Assim, os shoppings centers configuram-se como espaços alienantes e reforçam uma visão da vida onde os valores são todos relacionados aos desejos individuais 'eu quero, eu posso, eu compro'.

O que conhecemos no Brasil com o nome de shopping center pode ser entendido como um espaço privado (que se diz público) criado para ser uma solução dos problemas da cidade. Hoje ele reflete a cultura de consumo norte-americano, mas suas raízes estão nas lojas de departamento da Europa do século 19. Essas lojas eram uma resposta à recente produção fabril, que possibilitava diversificar e baixar os preços das mercadorias. E como a produção era feita em massa, havia a necessidade de se formar também uma massa de consumidores.

Ao gerar o consumo de coisas supérfluas, os lojistas tinham diante de si um desafio: motivar as pessoas a comprar variadas mercadorias desnecessárias. Para resolver esse problema, os comerciantes inventaram espetáculos do lado de fora das lojas, dotando as mercadorias de um interesse que elas podiam intrinsecamente não ter. Assim surgiram as vitrines e as fotografias publicitárias que, até hoje, mostram ambientes fantasiosos ou figuras públicas usando tal ou qual mercadoria, criando uma associação entre os artigos à venda e o status incorporado neles.

O lazer também se faz presente como um fenômeno social importante na dinâmica dos shopping centers. Há uma mercantilização da diversão, que é produzida industrialmente, divulgada pela publicidade e trocada por dinheiro. Os equipamentos de lazer disponíveis nesses centros como mais um produto à venda levam os freqüentadores a encontrar diversão em torno da celebração de mercadorias. O 'ser' continua subjugado ao 'ter'. O lazer oferecido não permite a livre criatividade e a convivência desinteressada (do ponto de vista financeiro).

É preciso reconhecer que a privatização do lazer nos shopping centers acontece porque, entre outros fatores, não existem políticas públicas que entendam o lazer como um direito social. Essa ausência favorece também a segregação social, uma vez que o poder aquisitivo acaba sendo um dos determinantes principais para a tomada de decisões frente às escolhas existentes. Quem tem dinheiro tem mais opções.

Diante disso, olhamos para o shopping center como uma referência para pensar a 'sociedade de consumo'. Mergulhados nesse universo, os sujeitos sentem-se autorizados a ficar alheios à vida pública e permanecem afastados de si mesmos. Até o lazer, que deveria ser tempo de liberdade, torna-se algo a possuir, consumir, usar e gastar. Não há espaço nem tempo para a espontânea fruição do tempo livre.

Vale lembrar que não é somente o shopping center que gera emprego. Centros culturais e esportivos, escolas, postos de saúde, teatros, cinemas, praças públicas com animação cultural também. Os shopping centers são símbolos de uma sociedade que valoriza o espetáculo do consumo de bens materiais e do lazer-mercadoria. Além disso, oferecem a uma parcela da população o direito a esse consumo e a esse lazer, enquanto exclui dessa possibilidade a maioria das pessoas.

Portanto, o sucesso da fórmula atual do shopping center como lugar para a realização da lógica consumista traz consigo o fracasso da plenitude do ser social. Como diz o poeta Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) no poema Eu, etiqueta: Já não me convém o título de homem./Meu nome novo é coisa./Eu sou a coisa, coisamente.