Cientistas desvendam mistério de tesouro do Império Romano encontrado em floresta russa

Uma coleção impressionante de moedas romanas antigas, descoberta na Rússia a mil quilômetros das fronteiras conhecidas do Império Romano, ajudou os cientistas a entender melhor os laços da região com essa antiga civilização

Foto: Pixabay
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Especialistas da Rússia e da Polônia contam como a numismática (estudo sob o ponto de vista histórico, artístico e econômico das cédulas, moedas e medalhas) revela realidades desconhecidas do passado e ajuda a encontrar nações "perdidas".


Macaque in the trees
Moeda de Constantino II, cunhada em Nicomédia em 330-335, a frente (anverso) retrata um perfil do imperador, as costas (reverso) - dois soldados romanos com lanças e dois estandartes entre eles, a inscrição no verso diz "Glória para o Exército" (Foto: Kulikovo Battlefield Museum)

 

Um tesouro de 140 moedas, descoberto neste outono europeu por arqueólogos do Museu-Reserva do Estado "Campo de Kulikovo", em uma floresta a dez quilômetros do centro da cidade de Tula, é uma das principais descobertas de moedas de bronze romanas tardias, acreditam os especialistas. As moedas foram todas cunhadas no final do século IV e início do século V. Segundo cientistas, arqueólogos e caçadores de tesouros amadores, foram descobertos quatro tesouros desse período na região nas últimas décadas, mas cada um deles não continha mais do que duas dezenas de moedas.

 

Convidados vindos de longe

O nome da tribo que vivia no curso superior do rio Oka naquela época não chegou até os nossos dias. Para os geógrafos antigos, eles eram uma das centenas de tribos bárbaras que viviam longe das fronteiras imperiais. Os arqueólogos se referem a eles como a cultura Moshchiny, em homenagem ao nome do povoado Moshchiny escavado na margem do rio Popolta, na região de Kaluga.

Os bárbaros não tinham circulação de dinheiro adequada naquela época, acreditam os historiadores. Pequenas moedas de bronze podem ter circulado entre os bárbaros em áreas ao longo das fronteiras romanas, mas como elas chegaram ao Oka, a mil quilômetros da periferia do Império Romano? Os cientistas argumentam que o comércio não pode explicar isso, essas áreas remotas não estavam na órbita dos interesses comerciais dos antigos romanos.

 

Macaque in the trees
Moeda de Flávio Júlio Constante, cunhada em 347-348, nenhum local de cunhagem pode ser identificado no momento; a frente (anverso) retrata um busto do imperador de perfil, a parte traseira (reverso) - uma coroa de flores e a inscrição VOT XX MVLT XXX (Foto: Kulikovo Battlefield Museum)

 

Os especialistas suspeitam que as moedas foram trazidas por moradores que trabalharam para os exércitos romano e bizantino. Desde o reinado de Constantino, o Grande, no início do século IV, os bárbaros foram ativamente recrutados para o serviço militar não apenas nas fronteiras, mas também no interior do Império.

"Esses mercenários eram chamados de 'foederati'. Eles eram pagos não apenas em ouro, mas também em moedas de bronze. Alguns dos mercenários do Oka devem ter guardado esse bronze para quando retornassem ao Império. Ou seja, não se trata de tesouros saqueados, mas sim de moedas que ficaram nos bolsos, daquelas que podemos guardar depois de uma viagem", disse o secretário científico do Museu do Estado-Reserva Campo Kulikovo, Aleksei Vorontsov.

Segundo os pesquisadores, o tesouro remonta ao início da Grande Migração dos Povos, que começou com a travessia do rio Don pelos hunos, em 375 d.C. Os godos, que foram derrotados pelos hunos e viviam na região norte do mar Negro, anteriormente se acreditava que foram para oeste. No entanto, agora os cientistas acreditam que há cada vez mais evidências que alguns dos godos se deslocaram para leste ou nordeste e, portanto, podem ter sido eles que trouxeram essas moedas para o Oka.

 

Na trilha das finanças antigas

Todo o tesouro consiste em pequenas moedas de um a dois gramas. De acordo com especialistas do Museu-Reserva do Campo Kulikovo, moedas desse tipo são pequenas moedas padrão romanas e bizantinas tardias, cunhadas aos milhões de peças por ano. As moedas de bronze ou cobre tinham um valor menor e as mais valiosas eram os sólidos de ouro pesando cerca de quatro gramas e meio.

Muitas cidades tinham o direito de cunhar moedas no império, mas o estilo em geral tendia a permanecer. O local da emissão costumava ser registrado no verso da moeda, ou seja, no verso da imagem do governante. As técnicas numismáticas modernas podem ajudar a recuperar essas informações se a moeda estiver muito deteriorada.

"A tecnologia de hoje nos permite detectar nas moedas detalhes que são invisíveis a olho nu, examinar sua superfície em nanoescala e analisá-las usando inteligência artificial. A origem do metal pode ser identificada por análise química usando o método fluorescente de raios X ou, por exemplo, o método de emissão de raios X induzida por prótons", disse o professor adjunto do Instituto de Arqueologia da Universidade de Varsóvia Kyrylo Myzgin.

Nos territórios da Europa bárbara, as moedas mais comuns não eram as moedas de cobre do século IV, mas moedas de prata – denários romanos produzidos em massa dos séculos I a III. Embora o salário de um legionário pudesse ser muitas vezes inferior a um denário por dia, os bárbaros recebiam essa prata em grandes quantidades como garantia para a segurança das fronteiras. Os tesouros bárbaros habituais contêm duzentas ou trezentas moedas, mas também existem achados de até nove mil denários, pesando várias dezenas de quilos de prata.

 

Tesouro como prova

As moedas eram uma das mercadorias mais populares da antiguidade devido à sua mobilidade e durabilidade, dizem os cientistas. Estes fatores, aliados à facilidade com que podem ser datadas, dão muitas vezes aos historiadores uma chave para compreender eventos e tendências passadas.

Moedas em culturas "não civilizadas" podiam se tornar um elemento de joalheria ou de utensílios com status especial ou funções mágicas. Por exemplo, um grande número de moedas de ouro romanas, cunhadas principalmente sob o imperador Trajano Décio por volta de 249 a 251 d.C., foram descobertas recentemente na Ucrânia e na Polônia, quase todas elas tinham orifícios para serem penduradas.

Os historiadores associam este fenômeno à derrota dos romanos em uma batalha com uma coalizão bárbara perto da cidade de Abrito, localizada na atual Bulgária, em 251 d.C. Os vencedores capturaram o tesouro do imperador caído e pelo menos alguns milhares de moedas de ouro tornaram-se amuletos comemorativos. (com agência Sputnik Brasil)



Uma coleção impressionante de moedas romanas antigas, descoberta na Rússia a mil quilômetros das fronteiras conhecidas do Império Romano, ajudou os cientistas a entender melhor os laços da região com essa antiga civilização.
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Moeda de Constantino II, cunhada em Nicomédia em 330-335, a frente (anverso) retrata um perfil do imperador, as costas (reverso) - dois soldados romanos com lanças e dois estandartes entre eles, a inscrição no verso diz "Glória para o Exército"
Moeda de Flávio Júlio Constante, cunhada em 347-348, nenhum local de cunhagem pode ser identificado no momento; a frente (anverso) retrata um busto do imperador de perfil, a parte traseira (reverso) - uma coroa de flores e a inscrição VOT XX MVLT XXX


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