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ASSUNÇÃO - A vitória de um ex-bispo nas eleições do Paraguai aponta para um amadurecimento da democracia na América Latina, mas após 61 anos no poder, o Partido Colorado, que perdeu a disputa, talvez dite o ritmo das eventuais mudanças.
Fernando Lugo, um esquerdista de ares gentis que abandonou a batina três anos atrás afirmando então sentir-se impotente para ajudar os pobres de seu país, conseguiu derrotar, na votação de domingo, os colorados com promessas de minorar as desigualdades e combater a corrupção.
- Pedimos a vocês que nunca nos abandonem. Construiremos juntos a democracia! - afirmou o ex-bispo católico, 56, de óculos e barba, a uma multidão de simpatizantes enquanto fogos de artifícios estouravam em Assunção, na noite de domingo.
- Hoje, desejamos renovar nosso compromisso com o povo paraguaio, com os mais pobres - acrescentou. - Faremos todo o possível para garantir que nosso povo seja respeitado e reconhecido daqui para frente por sua honestidade, e não por sua corrupção.
Lugo descreve a si mesmo como um político independente e manteve-se afastado dos dirigentes esquerdistas mais radicais da América Latina, como Hugo Chávez, da Venezuela, e Evo Morales, da Bolívia.
No entanto, o ex-bispo é visto como um aliado em potencial dos presidentes esquerdistas mais moderados da região, os quais rejeitaram tanto as ditaduras de direita, quanto os governos extremamente corruptos e as rebeliões marxistas tão comuns no final do século 20.
Lugo toma posse no dia 15 de agosto e prometeu realizar uma reforma agrária a fim de garantir que os agricultores pobres consigam arar sua própria terra em um país onde uma pequena e endinheirada elite é proprietária da maior parte das terras de cultivo e das fazendas de gado.
Quase quatro de cada dez paraguaios são pobres.
- Se há um candidato esquerdista claramente identificado com os pobres e se ele conseguir romper com o domínio do partido que há mais tempo encontrava-se no poder no mundo, um partido de direita, acho que isso mostra o quanto a América do Sul mudou e o quanto a democracia sedimentou-se na região - afirmou Mark Weisbrot, do Centro para Pesquisas Econômicas e Políticas, um instituto dos EUA.
- Não sabemos quanto Lugo mudará o governo, ou quando conseguirá mudar - acrescentou, observando que a poderosa máquina do Partido Colorado encontrava-se presente em todos os níveis do governo.
A decisão da candidata do Partido Colorado, Blanca Ovelar que poderia ter se transformado na primeira mulher a comandar o Paraguai , de reconhecer sua derrota quando os resultados apontavam que Lugo recebia 41 por cento dos votos e mantinha uma vantagem de 10 pontos percentuais, representa um bom começo.
O comparecimento às urnas foi considerado expressivo, de cerca de 65 por cento.
O Partido Colorado dominou o cenário político do Paraguai desde que subiu ao poder, em 1947. A legenda deu apoio à brutal ditadura de 35 anos comandada pelo general Alfredo Stroessner até mudar de postura e contribuir para derrubá-lo do governo, em 1989.
Nenhum partido deve obter uma maioria no Congresso, o que forçará Lugo a fechar acordos com rivais no legislativo para ter medidas aprovadas.