Nilo Junior, Agência JB
RIO - Aos 32 anos e com três medalhas em Pan-Americanos, o judoca Flávio Canto já é um atleta consagrado no mundo do judô e do esporte. Porém, a poucos dias da estréia no Pan do Rio, engana-se quem pensa que o veterano Flávio está tranqüilo. Como ele mesmo diz, o nervosismo é de principiante e, por isso, velhas manias e superstições virão à tona no dia que antecede a luta e na hora dela. Dormir com a mesma camisa e cueca na noite anterior, passar o kimono e a faixa no rosto, rezar do seu próprio jeito, passar a mão no tatame, fazer o sinal da cruz... Vale tudo na briga pela medalha de ouro.
- É, tenho algumas mandigas mesmo. Se vocês repararem bem nos minutos que antecedem a luta, vão descobrir uma série de manias brinca o atleta.
Nesta terça-feira, Flávio realizou o último treino antes de entrar na Vila Pan-americana, com o restante da delegação brasileira. Ansioso com a proximidade dos jogos, o atleta diz que a ficha ainda não caiu e que o Pan do Rio tomou proporções olímpicas.
- O clima do Pan começa quando você conquista a vaga na seletiva. Depois recebemos o material e vamos entrando no espírito da competição. Mas acho que a ficha só cai mesmo quando a gente entra na Vila. Nessa hora eu penso: agora começou . Além disso, tem o fato do Pan ser no Rio, na nossa casa. Estamos vivendo e respirando os Jogos há meses. Acho que isso tudo fez com que o Pan ganhasse status e importância de uma Olimpíada.
Flávio sabe da pressão que será competir em casa, ainda mais depois do bom desempenho da equipe brasileira no último Pan-Americano.
- Em Santo Domingo conquistamos dez medalhas em 14 disputadas, sendo cinco de ouro. Queremos melhorar mais ainda esse quadro. Quanto a pressão que vamos sofrer, tento trabalhar isso como um fator positivo. Saber que na torcida estarão familiares, amigos e alunos me dá mais força e motivação para vencer explicou.
O técnico de Flávio e ex- treinador da seleção brasileira de judô, Geraldo Bernardes, faz coro com o atleta e garante que ele estará preparado na hora da luta.
- Essa responsabilidade não vai atrapalhar. Ele é muito centrado e isso não vai mexer com ele afirmou o treinador.
Judoca pode se tornar o brasileiro com mais medalhas na categoria
Flávio Canto participou dos três últimos Pan-Americanos, sempre subindo de produção ao longo dos anos. Em 1995, nos Jogos de Mar del Plata, ganhou o Bronze. Na edição seguinte, em 1999, em Winnippeg, perdeu na final e ficou com a prata. O tão sonhado ouro veio em Sato Domingo, em 2003. No Rio, o judoca terá a chance de bater o recorde de medalhas na modalidade, superando o atual treinador da seleção, Luiz Shinohara, e Vânia Ishii, que possuem três, cada.
- É claro que o objetivo principal é o ouro. Esse recorde é conseqüência. É uma honra e um orgulho poder representar o Brasil durante tanto tempo (desde 1995) e em tantas competições.
Em jogos Pan-Americanos, para chegar ao ouro, os judocas têm, em média, de três a quatro lutas, mas Flávio diz que não é hora de pensar nisso.
- Eu penso em uma luta de cada vez. Se eu vencer a primeira, ficará faltando a próxima e assim por diante. Não adianta se programar para um número de lutas. O pensamento é vencer uma de cada vez.
Flávio falou ainda dos adversários que terá pela frente. Embora tenha elogiado todos, admitiu que o cubano Oscar Cárdenas é o principal rival.
- Todos são grandes atletas. O argentino Emanuel Lucente, o norte-americano Aaron Cohen... Mas o Oscar é sempre um adversário complicado. Cuba tem uma escola forte no judô.
Ne-waza: o diferencial
Para superar adversários fortes, como o cubano Oscar, Flávio Canto tem um dom especial, aprimorado ao longo dos anos, através de muitos treinos: o Ne-waza ou técnicas de solo. Flávio é um dos melhores judocas do mundo na luta de chão e sempre preocupa os rivais.
- Todo mundo saber que você é bom no chão tem o seu lado negativo, pois o adversário já entra ligado e muitas vezes evita a luta no chão. Eu treino muitas variações de golpes para tentar surpreender, porque o pessoal se defende melhor a cada dia. Além disso tem muita gente boa no chão.
Geraldo diz que sempre fez questão que seus alunos treinassem técnicas de chão e que Flávio é especialista no assunto.
- A luta no chão é muito importante e o Flávio é excelente nesse aspecto. Muitas vezes os adversários ficam com medo de tentar quedá-lo e ficarem expostos explicou o treinador.
Alergia é sempre um adversário muito duro
Por incrível que pareça, Flávio tem um sério problema com o seu material de trabalho. O judoca é alérgico ao material do kimono e se dependesse do seu alergista, o Brasil teria menos três medalhas em Pan-Americanos.
- Fui no médico uma vez para tenta tratar essa alergia e ele me sugeriu que eu parasse de treinar. Resultado: nunca mais fui ao médico falou, rindo e arracando gargalhadas.
Novos 'Flávios' virão
Flávio Canto ensina judô e matém a Ong Instituto Reação, em quatro comunidades carentes do Rio: Rocinha, Cidade de Deus, Tubiacanga e Pequena Cruzada. Cerca de 1250 alunos participam do programa, que já tem dado frutos.
- Nos últimos dois anos nós ficamos bem colocados no rankig estadual de judô, geralmente em primeiro ou segundo, sempre disputando com a equipe Gama Filho, que, por coincidência, é por onde eu compito. Têm duas irmãs, alunas do Geraldo, que já venceram o Pan de Judô e com certeza vão despontar disse.