CINEMA

Lupita Nyong'o vislumba polêmica na Berlinale: 'Vai ser apimentado'

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Por RODRIGO FONSECA, de Berlim
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Publicado em 15/02/2024 às 10:39

Alterado em 15/02/2024 às 10:52

Lupita Nyong'o, presidente do júri do Urso de Ouro do Festival de Berlim Foto: Evan Agostini/Invision via AP/dpa

Integrante septuagenária do chamado G7 dos maiores festivais de cinema do mundo (ao lado de Roterdã, Cannes, Locarno, Veneza, Toronto e San Sebastián), a Berlinale iniciou nesta quinta (15) sua edição de número 74, recebendo a presidente do júri do Urso de Ouro, a oscarizada atriz queniana Lupita Nyong'o. Num encontro com a imprensa, ela antecipou o que está por vir: "Vai ser apimentado". Ganhadora do Oscar de Melhor Coadjuvante por "12 Anos de Escravidão" (há uma década), Lupita falou ao JORNAL DO BRASIL sobre a arte de dirigir. Em 2009, ela rodou o documentário "In My Genes", retratando o dia a dia de pessoas albinas na África.

"Fico feliz de ter feito esse filme como um trabalho de conclusão de meus estudos, pois tenho um respeito enorme por cineastas, pelo foco que é exigido desse ofício na hora de se construir um filme", disse a estrela de cults antirracistas, como "Nós" (2019) e a franquia "Pantera Negra", aberta em 2018.

Estrela da nova aventura (sombria) da franquia “Um Lugar Silencioso”, chamado “A Quiet Place: Day One”, previsto para junho, Lupita, que tem nacionalidade mexicana também (por ter nascido em solo latino-americano), conta com uma seleção prestigiada de artistas em seu júri. Estão a seu lado a diretora Ann Hui (Hong Kong/ China), o ator e realizador Brady Corbet (EUA), a atriz e realizadora Jasmine Trinca (Itália), a poeta Oksana Zabuzhko (Ucrânia) e o cineasta Albert Serra (Espanha). Este último foi alvo de polêmicas durante a coletiva inicial do Festival de Berlim, na manhã desta quinta, depois que uma jornalista ligada a um órgão da imprensa alemã relembrou declarações pró Vladimir Putin feitas por Serra, que vive uma fase de apogeu desde a consagração do drama "Pacifiction", eleito o Melhor Filme de 2022 pela revista "Cahiers du Cinéma".

"Você ouviu a minha entrevista de duas horas na íntegra", disse Serra à repórter, alegando que suas palavras não devem sair do contexto.

Igualmente tensa foi a menção à controversa presença de políticos da extrema direita alemã na cerimônica inaugural da Berlinale. "Sou uma estrangeira. Acabo de chegar. Não faço parte desta cultura. Que bom que não tenho que responder isso", disse Lupita à imprensa.

Na noite desta quinta, Lupita e todo o colegiado do júri vai estar na sessão do filme de abertura da Berlinale .74: o drama irlandês (feito em coprodução com a Bélgica) “Small Things Like These”, de Tim Mielants, ambientado em 1985. Seu protagonista é Cillian Murphy, ganhador do Globo de Ouro de Melhor Ator Dramático por “Oppenheimer”, que lhe rendeu uma indicação ao Oscar. Famoso também no streaming pela série "Peaky Blinders", Cillian se destaca no longa de Mielants no papel de vendedor de carvão, Bill Furlong. Representante de um entreposto de carvoeiros, ele está prestes a celebrar o Natal com sua família, quando é assolado por segredos de sua comunidade, ligados ao abuso de poder da Igreja. O filme está na briga pelo Urso dourado e tem Matt Damon e Ben Affleck como produtores.
"Nas 48 horas em que estou nesta cidade, todo mundo me diz que a Belinale é um festival político", diz Lupita. "Mas tudo é político. A beleza desta experiência é ser capaz de reagir a filmes muito diferentes. Estou feliz de ver a África aqui (representada em longas como 'Dahomey' e 'Black Tea'). Mas tenho fome por mais".

No dia 24, Lupita anuncia quem ganha o Urso de Ouro e os Ursos de Prata.

Na mostra paralela Encontros, Berlim confere o longa brasileiro “Cidade; Campo”, de Juliana Rojas (de “Sinfonia da Necrópole”). A mesma sessão (competitiva) oferece brasilidade na coprodução multinacional “Dormir de Olhos Abertos”, de Nele Wohlatz. Este ano, a esquadra brasileira na Berlinale inclui títulos nas sessões Panorama (“Betânia”, de Marcelo Botta), Generation (“Lapso”, de Caroline Cavalcanti) e Forum Expanded (“Quebranto”, de Janaina Wagner).

No dia 20, o festival concede o Urso de Ouro Honorário de 2024 ao mítico realizador americano Martin Scorsese, numa cerimônia que inclui a projeção de “Os Infiltrados” (2006), pelo qual ele recebeu o Oscar de Melhor Direção. O cineasta alemão hoje nonagenário Edgar Reitz (de “The Tailor From Ulm” e “Alemanha no Outono”) também recebe um troféu de honra pelo conjunto de sua obra: a Berlinale Camera.

AS 20 PRODUÇÕES CONCORRENTES AO URSO DE OURO DE 2024

“Another End”, de Piero Messina
“Architeton”, de Viktor Kossakovsky
“Black Tea”, de Abderrahmane Sissako
“La Cocina”, de Alonso Ruizpalacios
“Dahomey”, de Mati Diop
“A Different Man”, de Aaron Schimberg
“L’Empire”, de Bruno Dumont
“Gloria!”, de Margherita Vicario
“Hors du Temps”, de Olivier Assayas
“From Hilde, With Love”, de Andreas Dresen
“My Favorite Cake”, de Maryam Moghadam e Behtash Sanaeeha
“Langue Étrangère”, de Claire Burger
“Who Do I Belong to”, de Meryan Joobeur
“Pepe”, de Nelson Carlos De Los Santos Arias
“Shambala”, de Min Bahadour Bham
“Small Things Like These”, de Tim Mielants
“Sterben”, de Mathias Glasner
“The Devil’s Bath”, de Veronika Franz e Severin Fiala
“Sons”, de Gustav Möller
“A Traveler’s Needs”, de Hong Sangsoo

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