CINEMA

'Malu', primeiro filme de Pedro Freire, é selecionado para o Festival de Sundance

Vai concorrer na principal mostra competitiva, a World Dramatic Competition

Por MYRNA SILVEIRA BRANDÃO
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Publicado em 04/01/2024 às 21:01

Alterado em 04/01/2024 às 21:04

O diretor de cinema Pedro Freire Foto: divulgação

Considerado uma das principais vitrines do cinema independente, o Sundance acontece de 18 a 28 de janeiro. 

"Malu” é um drama familiar que marca a estreia de Pedro Freire na direção de longas-metragens. O cineasta, que já trabalhou com nomes como Ruy Guerra, Karim Aïnouz e Marcelo Gomes, se inspirou na história de sua própria mãe para desenvolver o filme.

Interpretada por Yara de Novaes, a trama segue uma atriz inconstante e desempregada que mora com a mãe conservadora em uma casa precária numa favela do Rio de Janeiro. Ela tem um relacionamento tenso com a filha e tenta lidar com isso, enquanto sobrevive das memórias de seu glorioso passado artístico. 

Além dela, o elenco conta, entre outros, com Carol Duarte, Juliana Carneiro da Cunha e Átila Bee.

Em entrevista ao JORNAL DO BRASIL, Pedro falou de sua satisfação com a seleção de “Malu” para o Sundance, detalhou um pouco mais o filme e contou como está sua expectativa para essa sessão em Park City.

 

JORNAL DO BRASIL -  Como é ter sido selecionado para o maior Festival do Cinema Independente do mundo, na principal mostra do evento?

PEDRO FREIRE - É uma loucura, porque Sundance é considerado um dos cinco maiores festivais do mundo, os "Big Five", e é o meu primeiro longa. Eu já tive, na juventude, sonhos ambiciosos e alucinados de que meu primeiro longa fosse ganhar prêmios em festivais importantes - que cineasta não tem? - mas confesso que ao passar dos 40 já vinha me tornando mais humilde e imaginando que meu filme poderia ter uma estreia bacana num festival menor, nacional, e tudo bem, tá tudo certo, o que importa é ter feito o filme. Então, de repente, chega essa notícia e eu não estava preparado. Me emocionei profundamente, chorei de soluçar. Foram 25 anos desde que comecei a trabalhar com cinema, como estagiário de direção em 1999, estudei muito, me preparei muito, então esse reconhecimento não é de um primeiro passo, é de um passo que vem com um lastro enorme”.

 

Fale um pouco mais de “Malu”, a motivação para o filme (que você já disse em entrevistas que se inspirou na história de sua própria mãe), o elenco, as dificuldades ou não para realizá-lo, enfim, o que você achar que deve dizer.

"Malu" já vinha sendo imaginado, de forma mais ou menos irresponsável e irregular, desde o final dos anos 2000. Eu sabia que eu queria que meu primeiro longa fosse sobre a geração da minha mãe, pensei durante muito tempo em fazer um filme sobre o teatro de Arena, o teatro de São Paulo na ditadura militar, cheguei a escrever uma história de amor nesse contexto. Mas nada terminava de me apaixonar - era um filme para outra pessoa filmar, não era algo que eu precisasse filmar e que só eu poderia fazer. E eu queria que meu primeiro longa fosse isso, um filme inevitável para mim. Já recusei três filmes comerciais por causa disso, o primeiro longa tem algo de desvirginar-se, queria que fosse especial. Mas eu nunca tinha tempo para escrever, estava sempre trabalhando muito para pagar as contas. Então ali por 2017, aos 36 anos, eu decidi que tinha chegado a hora de tomar uma decisão: que primeiro longa seria esse? Então me conectei com as coisas mais importantes para mim, busquei o que seria tão profundo que só eu poderia fazer, e me encontrei com a pessoa mais importante e transformadora da minha vida, minha mãe, Malu Rocha. Digo com nome e sobrenome porque ela foi além de uma mãe, ela era mãe e ao mesmo tempo tinha uma persona, "a atriz Malu Rocha", que ela levava para dentro de casa o tempo todo. E aquela personagem dentro da minha casa não era simples, porque ao mesmo tempo era difícil a distância - imagina que a sua mãe está sempre atuando - e também era fascinante, porque era uma personagem maravilhosa, inteligentíssima, humana, corajosa, culta. Enfim, decidi que tinha que contar a história dela, e entendi que a parte de sua história que mais me marcou foi o momento em que ela ficou mais isolada do mundo, dos amigos, morando com a mãe numa casa semiconstruída numa favela do Rio de Janeiro, sempre dizendo que queria voltar para São Paulo - que era para ela como a Moscou das Três Irmãs, uma promessa de um passado promissor. Era muito angustiante para mim, pois a casa não tinha telhado e muitas goteiras, eu ficava péssimo toda vez que caía um temporal porque sabia que minha mãe estava lá arrastando o sofá e provavelmente sem luz. Então essa emoção se transformou num roteiro, que eu fui desenvolvendo ao longo de 5 anos, até finalmente filmarmos no final de 2022. Importante esclarecer que eu só consegui terminar esse roteiro porque consegui um contrato com a Rede Globo e passei muitos meses ganhando sem ter que trabalhar - foi como uma bolsa para escrever meu roteiro. Sem isso eu continuaria no esquema sem tempo para escrever porque preciso pagar as contas, e acho que isso é uma das coisas mais difíceis para um cineasta que não venha de família rica.

Sobre o elenco, passei 5 anos escrevendo o roteiro para uma atriz específica fazer a Malu, mas ela ficou doente e só dois meses antes de começarmos a filmar ficou claro que ela não poderia fazer o filme. Por sorte eu já vinha há mais de um ano me interessando cada vez mais pela Yara de Novaes, que não é muito conhecida no audiovisual mas é simplesmente uma das maiores e mais premiadas atrizes do teatro de São Paulo (de onde veio Malu). Ela topou na hora, e entrou de cabeça, e hoje em dia eu não conseguiria imaginar uma Malu mais encaixada no filme. Juliana Carneiro da Cunha é um grande amor na minha vida, uma amiga, parceira, figura materna, minha referência de atriz e de elegância. Trabalhamos juntos em um curta que eu dirigi, "O Teu Sorriso", que me deu a alegria de entrar na competição de Veneza e deu à Juliana o prêmio de melhor atriz em Gramado. A Lili, mãe de Malu (inspirada na minha avó) sempre foi dela, escrita para ela. Carol Duarte e Átila Bee foram atores que eu fui conhecer buscando elenco para o filme, recomendados por amigos, vi coisas que eles fizeram, tomei café com eles e chamei, sem teste. Como produtor de elenco já fiz mais de 1000 testes na vida, não acredito muito em teste. O resto do elenco são amigos que conheci ao longo da carreira. Não teve produtor nem preparador de elenco, essa parte fiz toda sozinho.

Sobre as dificuldades, elas foram enormes, porque não conseguimos muito dinheiro para fazer o filme, então tivemos que apertar as filmagens de um roteiro de 100 páginas em apenas 3 semanas, o que é uma insanidade. Considero que a nossa equipe foi profissional em um nível raro, se não fosse seria uma empreitada impossível. E também acredito que minha experiência dirigindo TV me ajudou a ter a rapidez necessária. Também tive o luxo de ter 3 semanas de ensaios, as atrizes estavam preparadíssimas no set, então quase todo o filme é take único, no máximo 2 ou 3 takes.

 

A plateia do Sundance é muito participativa e interessada, mas ao mesmo tempo, quando não gosta do filme, abandona a sala sem a menor cerimônia. Qual sua expectativa para essa estreia, que imagino deverá ser no Egyptian, o mais emblemático cinema da cidade, ou no Ecles, o maior deles?

Ainda não sei qual vai ser o cinema, e não sabia que a plateia pode abandonar em peso o cinema, agora fiquei tenso! (risos). Confesso que não sei muito o que esperar dessa estreia, eu nesse momento estou tão tomado pela finalização do filme - estamos tendo que correr muito para terminar tudo para mandar pro festival a tempo, então minha vida tem sido uma montanha russa entre correção de cor, computação, créditos, cartaz, trailer, músicas, mixagem, passagem de avião, tudo ao mesmo tempo agora. Não estou tendo muito tempo para pensar em como vai ser lá. A única coisa que tenho feito diariamente é treinar o inglês, ouço rádio e podcast em inglês todo dia, várias horas por dia, pra chegar lá pensando em inglês, o que facilita muito a comunicação. Mas sim, tenho pensado de vez em quando em como vai ser a apresentação, no que eu deveria falar, todos os nomes que eu devo citar, ainda tenho que ensaiar isso. Porque quando você chega na hora de apresentar, com o nervosismo e as pessoas olhando pra você, aqueles três minutos de fala são tensos. Depois é mais fácil, é só dar play no filme, que tá pronto. A tensão são esses três minutos.

 

Certamente você irá a Park City – essa encantadora e pequena estação de esqui. Mas descreva um pouco mais essa emoção, tão importante para um diretor com seu primeiro filme de longa-metragem.

Olha, sinceramente, eu estou preocupado é com o frio. Menos 10 graus!!! Não paro de pensar nisso, como vai ser isso, gente? Não estou acostumado.

Mas ao mesmo tempo eu penso nessa ida a Sundance como uma oportunidade para o futuro. Não quero chegar lá e ficar passeando, estou preparando uma carteira com 3 projetos de longas-metragens que quero apresentar para coprodutores que atendam ao evento, e já estamos marcando reuniões para isso. Então, é uma emoção, mas é também um trabalho enorme.

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