Crítica - ‘Christiane F.’ volta ao cartaz e continua forte e chocante, 40 anos depois

Cotação: quatro estrelas

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No começo dos anos 80, um filme causava escândalo por onde era exibido (inclusive, no Brasil, onde chegou com dois anos de atraso), por causa de sua temática. Era ‘Eu, Christiane F., drogada e prostituída’ (‘Christiane F.’, 1981), de Uli Edel. Baseado em livro best-seller autobiográfico da própria protagonista, Christiane F., ele mostra como era a cena de drogas, na Berlim Ocidental, do final dos anos 70 (portanto, ainda dividida), sobretudo num lugar específico: a estação de metrô/trem do Zoo de Berlim (Zoo Bahnhof), onde os viciados se encontravam para injetar heroína nos fétidos banheiros.

A protagonista, Christiane, é uma garota de 14 anos que vive em Berlim, Alemanha Ocidental, em meados dos anos 1970 (o relato se passa entre 1975-77). Levada por Kessi, amiga de escola pouco mais velha do que ela, começa a frequentar uma discoteca chamada Sound. Lá, faz novos amigos, a maioria dos quais é viciada em drogas, e se apaixona por um garoto chamado Detlev, que também é viciado e se prostitui. A princípio, para não ficar de fora da turma, Christiane começa tomando pílulas. Mas, logo depois, passa a injetar heroína. A partir daí, sua vida vai desmoronar, pois ela se torna uma viciada pesada. O mesmo acontecendo com os amigos.

O modo como tudo isso é mostrado no filme, bem cru e sujo (até os figurantes que aparecem na Zoo Bahnhof são realmente viciados em drogas locais) nos faz parecer estar vendo um documentário. O filme foi todo rodado realmente nos lugares que, então, ainda eram sórdidos e mal frequentados. E a maioria dos jovens atores era de amadores, jamais haviam atuado antes. A própria Natja Brunckhorst, que faz Christiane, tinha apenas 14 anos na época, e depois seguiu carreira atuando até hoje. Tudo isso faz dele um retrato vívido.

Curiosamente, o filme também é lembrado por sua trilha sonora, toda à base de músicas de David Bowie. Desde o instante em que Christiane vai pela primeira vez à Sound (quando ela entra está tocando ‘Look back in anger’), até um dos momentos mais memoráveis do filme, quando ela vai a um aguardado show de Bowie, em Berlim. Aliás, ‘Heroes’ (que também toca em alemão, ‘Helden’), clássico de Bowie, pontua várias cenas do filme. Ter Bowie na trilha e no filme ajudou a dar notoriedade à produção e também influenciou bastante nas bilheterias. Mesmo no Brasil, muita gente foi aos cinemas para ver o artista, que, na época, jamais havia se apresentado por aqui. Na primeira aparição de David Bowie no filme, ele canta ‘Station to station’ inteira, em quase dez minutos de tela!

Contudo, tirando as cenas com Bowie e na discoteca, o meio para o final do filme é bastante deprimente, a medida em que Christiane e os amigos vão se afundando mais e mais nas drogas. As cenas de aplicação de heroína são bastante explicitas (por isso o filme demorou a chegar aqui, para ser exibido sem cortes, e passou editado em diversos países, pelo mesmo motivo). Só não havia ainda o vírus da aids, para piorar a situação. Já que os rapazes se prostituem com homens mais velhos, em troca de dinheiro para comprar drogas.

A verdadeira Christiane F (nascida Vera Christiane Felscherinow), até hoje, dá palestras antidrogas, falando sobre a sua experiência, já que foi uma das poucas sobreviventes de sua turma (e disse que chegou a ter recaídas depois de velha). Pelo menos, para isso, o filme serve, no fim das contas - alertar. É um triste - e fiel - retrato de uma geração...

 

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