Cristian Mungiu lança 'R.M.N.' em Cannes

Detentor de uma Palma de Ouro em 2007 com '4 meses, 3 semanas e 2 dias', o cineasta volta a concorrer ao principal prêmio do festival

Foto: divulgação/Festival de Cannes
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O novo filme do diretor romeno faz uma reflexão sobre a história da Romênia, através do encontro de várias comunidades com foco no tema da imigração.

A história segue Matthias (Marin Grigore), que havia imigrado e, na época do Natal, retorna à sua aldeia nas montanhas da Transilvânia, um local multietnico e tranquilo. Ele está preocupado com a educação que seu filho vem recebendo da mãe, Ana (Macrina Barladeanu), e quer reforçar a relação com ele o ajudando a superar medos irracionais. Quer também reencontrar sua ex-amante Csilla (Judith State) e cuidar do seu pai doente.

São várias vertentes, com conexões às vezes difíceis de discernir, mas que acabam se acomodando para revelar um projeto unificador.

O diretor retorna ao festival onde em 2007 “4 meses, 3 semanas e 2 dias” ganhou a Palma de Ouro de melhor filme; em 2013, com “Além das montanhas”, ganhou melhor roteiro e melhor atriz para as duas protagonistas Cristina Flutur e Cosmina Stratan; e em 2016, “Graduation” lhe deu o prêmio de melhor direção.

O filme é mais uma demonstração da qualidade do cinema romeno com filmes – além dos citados do próprio Mungiu – como “Police, adjective”, de Corneliu Porumboiu, “A Morte do senhor Lazarescu”, de Cristi Puium e “Califórnia dreamin”, de Cristian Nemescu, que morreu prematuramente aos 27 anos de idade. Com “R.M.N.”, o diretor lembra que a humanidade é apenas um elemento do meio ambiente no mundo.

Em declarações divulgadas no site do festival, Mungiu diz que a vida é sempre a principal fonte de inspiração para suas histórias: “Em R.M.N., começo com incidentes reais e tento entender o que essa história diz sobre nós como pessoas e sobre o estado do mundo hoje. Para o filme, documentei um incidente real ocorrido na Romênia no início de 2020 tentando dar voz a todas as partes envolvidas. Identifiquei alguns elementos que falavam sobre o quão fina realmente é essa crosta de empatia e humanidade e quão pouco precisamos mostrar nosso eu mais sombrio e profundo”, diz o diretor detalhando o cerne do filme.

“Ele traduz a forma como as pessoas se relacionam com outras pessoas provenientes de uma tribo diferente da sua. Através de uma história passada em uma pequena comunidade composta por muitas etnias (romenos, húngaros, alemães), eu tento espelhar um olhar atento no mundo de hoje. Outra coisa que me interessou quando decidi abordar essa questão foi verificar quais são os limites de nossa liberdade criativa hoje em um mundo sufocado pelo politicamente correto.”

Sobre a construção visual do filme, o cineasta diz que nosso cérebro contém uma quantidade de mistério e ele tenta expressar isso em seus filmes de várias formas. “Procuro fazer com que os espectadores sintam e se relacionem o que está na mente e na alma do personagem sem colocar em palavras e sim por meio de paisagens, cenários, iluminação, enquadramento e movimento de câmera. Dito isso, minha principal preocupação em termos de direção é sempre a veracidade, quão crível é o momento”, explica o cineasta, que mesmo antes da estreia mundial de “R.M.N.” em Cannes, teve seu filme adquirido pela poderosa IFC Films (com sede em Nova York/EUA), que pretende lançar o filme nos cinemas ainda em 2022.

A presidente da IFC Films, Arianna Bocco, lembra que este festival marca o 15º aniversário que a empresa começou a trabalhar com Mungiu pela primeira vez, logo após ele ter vencido a Palma de Ouro: “Ele é um dos melhores diretores do cinema hoje e esse seu incrível trabalho deixa uma impressão duradoura no cenário global. Estamos muito honrados por ele ter feito da IFC Films sua casa mais uma vez. Ficamos absolutamente impressionados com “R.M.N.” e estamos muito satisfeitos em trabalhar com Cristian para levar o filme ao público norte-americano”, complementa Bocco.

Mungiu, por sua vez, expressando sua satisfação com a aquisição, lembra também a data comemorativa de quando tudo começou: “Além disso, significa que posso continuar trabalhando com as pessoas que estiveram ao meu lado todos esses anos, na minha tentativa de fazer meus filmes chegarem ao maior número de pessoas possível, no maior número de salas possível. Espero que eles me ajudem a comunicar que, mais uma vez, através de uma história ambientada em um lugar minúsculo, tento falar sobre nós no mundo de hoje”, conclui o talentoso cineasta, com grandes chances de voltar a conquistar nesta 75ª edição de Cannes a Palma de Ouro com “R.M.N.”

 

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