Crítica - ‘O peso do talento’: o divertido metafilme de Nicolas Cage entrega o que promete

Cotação: três estrelas

Foto: divulgação
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Por muitos anos, tentaram convencer Nicolas Cage de fazer um filme no qual ele interpretasse a si mesmo. Ele sempre recusou. Até que recebeu uma carta do diretor Tom Gormican (com apenas um filme no currículo, a comédia romântica ‘Namoro ou liberdade’), com o roteiro de ‘The unbearable weight of massive talent’, que, em português, foi reduzido apenas para ‘O peso do talento’. E finalmente topou. Até porque, este é o centésimo (!) filme com Cage num papel principal. Simbólico.

Felizmente, tudo deu certo. Em ‘O peso do talento’, Cage (ele mesmo) passa por uma fase que todo ator, grande ou pequeno, passa em algum momento: está sofrendo por não conseguir mais papéis de destaque como antes; não ter mais a fama do passado, estando insatisfeito com a vida pessoal e prestes a pedir falência. Então, chega no fundo do poço e acaba se metendo em uma aventura que lembra a de seus filmes. Após correr atrás de Quentin Tarantino - implorando um papel em seu novo filme, e não obtendo sucesso com o diretor (que, infelizmente, por conta da pandemia, não aparece em cena) -, Cage acaba aceitando US$ 1 milhão para fazer uma aparição em festa de magnata europeu. O dinheiro vem do simpático Javi Gutierrez (Pedro Pascal, excelente em cena), um superfã e fanático pelo ator. Mas nem tudo é o que parece ser.

As coisas tomam um rumo inesperado quando Cage é recrutado por agentes da CIA, que o fazem alongar sua estadia na magnifica propriedade do ricaço, nas Canárias (Espanha), para checar se ele supostamente mantém refém uma moça que foi sequestrada por um cartel de traficantes de armas. Assim, Cage é forçado a agir de acordo com a sua própria lenda, canalizando seus personagens mais marcantes da tela para salvar a si mesmo. E bota em jogo a amizade com Javi.

Apesar de, em dado momento, nós mesmos nos confundirmos com o que é ‘real’ e o que é ficção, ‘O peso do talento’ entrega o que promete: é uma comédia de ação com Cage caprichando nas caras e bocas que o tornaram famoso, e dizendo e fazendo o que a gente espera dele (será que ele é mesmo assim?). Mas, para que tudo funcione, foi importante a escolha de Pedro Pascal como o coadjuvante principal. A química entre os dois é perfeita (rola um verdadeiro ‘bromance’ entre eles), e sem isso tudo poderia ter desandado e não tido a menor graça.

Vale lembrar que, apesar de Cage interpretar Cage, o ator é chamado o tempo todo em cena de Nicky Cage, e nos créditos usa o seu nome real: Nicolas Kim Coppola (pra quem não sabe, ele é sobrinho de Francis Ford Coppola). Assim, de certa forma, apesar de estar fazendo a si mesmo, na verdade, está dentro de um outro personagem. Nicolas Kim é um (o de verdade), Nicolas Cage é outro (o que conhecemos), é o Nicky Cage do filme, é o da ficção, da paródia, da metalinguagem. Funciona.

Assim, ele ficou livre para brincar com todos os estereótipos, e usa de cenas, falas e momentos de seus filmes mais marcantes (como ‘A outra face’, de John Woo, o mais lembrado) em alguns momentos. Pena que, por conta da pandemia, a lista que incluiria vários nomes em participações especiais, como eles mesmos, foi reduzida (além de Tarantino, teríamos Charlie Sheen, Naomi Watts e Jim Carrey, entre outros); e no fim Demi Moore acaba fazendo uma aparição superespecial, que nos faz lembrar a do final de ‘O jogador’, de Robert Altman.

No fim das contas (nunca ‘no fim do dia’, por favor!), se você é fã de Cage (um ator do tipo ame/odeie) e curte seus filmes, vai se divertir a valer com as piadinhas, referências e citações. E se perguntando se o que acabou e ver foi para valer ou apenas uma grande brincadeira do ator conosco. Foi ambos.

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COTAÇÕES: ***** excelente / **** muito bom / *** bom / ** regular / * ruim / bola preta: péssimo.

 

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