Crítica: ‘Arthur Rambo’: quando o passado bate à porta, e o cancelamento acontece

Cotação: três estrelas

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‘O print é eterno’, diz uma das máximas da internet. Se você, no passado, mesmo que de brincadeira, disse certas coisas, elas podem vir bater em você, tempos depois. Sobretudo se você ficar famoso. Este é o mote de ‘@Arthur.Rambo-ódio na internet’, o novo filme do francês Laurent Cantet, que costuma abordar questões sociais atuais em seus trabalhos. Foi assim com o ensino fundamental e inclusão em “Entre os muros da escola”, ganhador da Palma de Ouro em 2008, e em “A Agenda”, que aborda o desemprego na França em tom de thriller.

Seu novo longa, ‘Arthur Rambo’ (no original), mais uma vez, foca em temas contemporâneos e pertinentes. O roteiro parte da história real do jovem Mehdi Meklat, que se tornou uma estrela do net jornalismo, mas viu sua carreira ruir quando antigos tweets, que ele postava como o personagem Arthur Rambo, vieram à tona. No filme, o protagonista se chama Karim D. (Rabah Nait Oufella, de “Entre os muros da escola”), que se torna jornalista e escritor de sucesso (graças a seus mais de 200 mil seguidores), chegando a assinar um contrato com uma editora para publicar um livro. Ele é saudado como a voz dos filhos de imigrantes vindos das colônias afro-francesas, dos moradores dos banlieus/guetos parisienses. Assim, logo também se torna um queridinho dos intelectuais de esquerda.

Contudo, quando a fama de Karim está no topo (querem até transformar o seu livro em filme), antigos tweets dele, com conteúdo homofóbicos, racistas, misóginos e antissemitas, reaparecem. Eles foram escritos sob um pseudônimo – Arthur Rambo, cuja sonoridade do nome cria a ideia dupla, remetendo ao personagem do cinema Rambo (pronunciado em francês como ‘rambô’) e ao poeta francês Arthur Rimbaud. Era para ser apenas uma provocação. Era mesmo? O filme acompanha 48 horas na vida de Karim, depois que ele é ‘cancelado’ na internet.
O diretor Cantet conta que costumava acompanhar Mehdi Meklat em seus comentários políticos numa rádio francesa, e o achava muito inteligente. Mas, depois, teve de mudar de opinião, por motivos óbvios. O trabalho do ator Rabah Nait Oufella, no papel de Karim D., traduz um personagem complexo, ambíguo, e que nos deixa com dúvidas. Cabe agora às plateias julgar o caso. Se o que foi dito sob forma de crítica ou ironia foi para valer. Ou se o jovem talento literário merece uma nova chance. Estamos sendo racistas, também, ao condenar um não europeu ‘legítimo’? Estamos sendo radicais? Tudo isso está lá nas entrelinhas.

Uma questão dos tempos atuais.

 

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