‘Medusa’, de Anita Rocha da Silveira, que concorre no IndieLisboa, traz o mito grego para o mundo contemporâneo

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Foto: Bruno Mello/divulgação
Credit...Foto: Bruno Mello/divulgação

O filme, segundo longa-metragem da cineasta carioca, integra a Mostra Internacional de Longa-metragem da 19ª edição do evento português, que será realizado presencialmente de 28 de abril a 8 de maio.

A história remete ao mito grego quando Medusa foi severamente punida por Atena, a deusa virgem, por não ser mais pura. Na transposição para a época atual, o filme segue a jovem Mariana que vive em um mundo onde deve se esforçar ao máximo para manter a aparência de mulher perfeita. Porém, chegará um dia em que tudo poderá tomar outro rumo.

A cineasta iniciou a carreira realizando os curtas-metragens “O Vampiro do Meio-Dia” (2008), “Handebol” (2010) e “Os Mortos-Vivos” (2012). “Mate-me por Favor” (2015), seu primeiro longa-metragem, estreou na Mostra Orizzonti do Festival de Veneza e participou de inúmeros festivais internacionais, entre os quais o IndieLisboa. Foi premiado no Festival do Rio por Direção e Melhor atriz para Valentina Herszage.

“Medusa” já tem também uma trajetória de sucessos, tendo passado, entre outros, pelos festivais de Cannes (Quinzena dos Realizadores), Toronto, San Sebastian e a Mostra Internacional de São Paulo.

Além do desenvolvimento da narrativa e da segura direção, o filme tem um ótimo elenco – principalmente as atuações de Mari Oliveira e Lara Tremouroux –, a fotografia adequada à trama de João Atala e a condução da trilha sonora por Bernardo Uzeda.

A diretora conversou com o Jornal do Brasil sobre a motivação para realizar “Medusa”, a inspiração no mito grego e o significado dessa seleção para o IndieLisboa.

 

JORNAL DO BRASIL - O que significa pra você e para o filme – depois de tanto sucesso – essa exibição no IndieLisboa, um festival que atrai público de cinema do mundo todo?

ANITA ROCHA DA SILVEIRA - Estou muito feliz da estreia portuguesa de “Medusa” ser na competição internacional do IndieLisboa, um festival pelo qual tenho um carinho enorme. “Mate-me por Favor”, meu primeiro longa, também foi exibido no Indie e as memórias são incríveis. Estou muito curiosa para saber a reação da plateia portuguesa, assim como dos brasileiros que moram por lá.

 


Como surgiu a ideia de ”Medusa”? Ele é inspirado em uma história real ou inteiramente ficcional?

Nos últimos anos, presenciamos uma parcela da sociedade brasileira defender o retorno a uma valorização de um modelo de mulher devota ao homem. E em 2015 me deparei com uma série de notícias de jornais sobre ataques violentos a garotas adolescentes, realizados por outras jovens mulheres. Elas atacavam em grupos na maior parte dos casos por considerarem a vítima “promíscua”. Às vezes, o cabelo era cortado e cortes feitos na face, pois era essencial deixar essa mulher “feia”. A violência entre mulheres – muitas vezes usada como forma de controle – é reiterada constantemente em nossa sociedade, e permanece ainda um assunto pouco debatido, pois nos desafia a pensar como a engrenagem do machismo atua também em nós.
A partir daí, e de uma enorme pesquisa do universo ultraconservador, desenvolvi a protagonista de “Medusa”, Mariana, uma jovem mulher que é cúmplice dessa violência, mas também vítima.

 


Qual foi a principal motivação para adaptar o mito de Medusa trazendo-o para o mundo contemporâneo?

Quando li as notícias sobre as jovens que se juntavam para agredir outra mulher, logo me recordei do mito de Medusa. Medusa era uma linda donzela, sacerdotisa do templo de Atena. Mas um dia ela cedeu às investidas de Poseidon (ou foi estuprada, dependendo da versão do mito), enfurecendo Atena, a deusa virgem, que transformou seu belo cabelo em serpentes, e deixou seu rosto tão horrível que uma mera visão transformaria os que a olhassem em pedra. Medusa foi punida por sua sexualidade, por desejar, por não ser “pura”.
Da junção entre mito e realidade, me ocorreu que, mesmo com o passar dos séculos, faz parte da construção da nossa civilização as mulheres quererem controlar umas às outras. E que talvez essa seja uma forma de mantermos o controle sobre nós. Afinal, crescemos com medo de ceder aos nossos impulsos, e até de sermos consideradas “histéricas”. O controle também passa pela aparência, pela beleza, pois está impregnada em muitas de nós a ideia de que este é o nosso principal atributo.

 


Seus filmes têm uma grande identificação com os espectadores e “Medusa” não tem sido diferente. Qual você considera a principal razão desse envolvimento?

Tento construir histórias com temas que são importantes para mim, mas que acredito que também serão relevantes para outras pessoas. No caso de “Mate-me por Favor”, queria falar sobre desejo e pulsão de morte na adolescência. Já em “Medusa”, do avanço conservador no Brasil. E mesmo tratando-se de filmes fantásticos com elementos de terror, tento sempre trazer humor e uma pitada de musical. Mas talvez a principal razão esteja na construção de personagens complexos e plurais, somado a elencos afinados e afiados. O que mais me enche de orgulho em ambos os filmes são as performances, em especial de Valentina Herszage em “Mate-me por Favor”; Mari Oliveira em “Mate-me por Favor” e em “Medusa”; e Lara Tremouroux em “Medusa”.

 

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