'Mar de Dentro', de Dainara Toffoli, estreia nesta quinta nos cinemas

Filme faz uma abordagem diferente do tema maternidade

Foto: Califórnia Filmes
Credit...Foto: Califórnia Filmes

No estilo inovador que caracteriza seu trabalho, a diretora gaúcha Dainara Toffoli está lançando seu primeiro longa-metragem, “Mar de Dentro”, com o tema da maternidade e, de certa forma, inspirado numa experiência pessoal.

O filme foge da glamourização que cerca a maternidade para debater questões como a exaustiva sobrecarga que traz para as mulheres com as funções de mãe, dona de casa e, muitas vezes, uma pesada jornada de trabalho. Nesta última, não é raro precisar optar pelo seu papel de mãe e abrir mão de uma bem sucedida carreira profissional.

“Mar de Dentro” aborda o tema através de Manuela (Monica Iozzi), uma profissional de sucesso que, ao se descobrir grávida de um colega de trabalho, tem que lidar com a transformação de seu corpo e sua vida. Em meio a tantos desafios, ela se defronta com uma fatalidade que afetará ainda mais seu destino. Quando o bebê nasce, ela tem de aprender a ser mãe mesmo sem gostar, a priori, da maternidade.

 

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Atriz Monica Iozzi, protagonista do filme (Foto: Califórnia Filmes)

 

O elenco de peso inclui, além de Monica Iozzi – em um excelente desempenho – Rafael Losso, Gilda Nomacce, Fabiana Gugli e a participação especial de Zé Carlos Machado e Magali Biff.

Os primeiros passos de Dainara no cinema já prenunciavam uma vitoriosa trajetória. A diretora, nascida em Porto Alegre, começou sua carreira na Casa de Cinema de Porto Alegre, trabalhando com o cineasta Jorge Furtado no antológico e premiado “Ilha das Flores” (1989), que mantém o título de curta-metragem mais celebrado do cinema brasileiro.

Daí em diante, começou a dirigir seus próprios filmes, entre os quais se destacam: “Um Homem Sério”, com a codireção de Diego de Godoy, que foi selecionado para Gramado, Clermont Ferrand, Roterdã, Vila do Conde e outros; “Divagações num Quarto de Hotel”, produzido para a TV francesa; e “Dona Helena”, sobre a violeira Helena Meirelles, selecionado para festivais na Holanda, Espanha, EUA, Bélgica e Finlândia.

Para falar sobre “Mar de Dentro”, ninguém melhor do que a própria diretora, que conversou com o JORNAL DO BRASIL revelando detalhes, dificuldades surgidas durante a realização e os resultados que espera com o filme.

 

JORNAL DO BRASIL: “Mar de Dentro” é sobre a maternidade, tema já tratado pelo cinema em inúmeros filmes, mas sua abordagem é diferente. O que a motivou tratá-lo dessa forma?

DAINARA TOFFOLI: Quando comecei a pensar neste projeto percebi que a maternidade real era um tabu. Mas eu precisava falar sobre isso e tinha uma intuição forte de que as mulheres iam se identificar. Além disso, queria fazer um filme onde eu pudesse falar de algo que tivesse experimentado na minha própria vida para poder trazer uma visão mais pessoal.
A experiência da gestação e do puerpério é muito sensorial. Nosso corpo se transforma muito rapidamente. E não são apenas os contornos físicos que se perdem, tudo aquilo que define quem nós somos na vida profissional, social e familiar acaba sendo afetado. Por isso eu quis fazer um filme mais sensorial. Porque a mulher, quando está neste processo, não consegue racionalizar sobre o que está acontecendo. É tudo muito intenso, físico e exaustivo. Queria que o público mergulhasse na jornada de Manuela e sentisse com ela todas essas coisas.
Quando fiquei grávida, mesmo vindo de uma família bastante matriarcal, notei que sabia muito pouco sobre tudo que envolve ter uma criança. Conversando com outras mulheres, entendi que isso era geral e deduzi que esta ignorância era, na verdade, um silêncio imposto através do pudor, da religião e de outras formas de controle social a processos que são particulares do corpo da mulher, como a gravidez, mas também a menstruação e a menopausa.
Não é à toa que a Eliane Ferreira, da Muiraquitã Filmes, minha coprodutora, é mulher e mãe. Desde o início, sentíamos a mesma urgência.
Mas o filme não chegaria neste resultado sem a presença da Mônica Iozzi. Ela está sensacional.

 

Sei que, desde o surgimento da ideia de realizar o filme, até sua finalização, houve um longo tempo, em torno de 10 anos, se não me engano. Como tenho acompanhado, o fato se deveu a vários fatores, entre outros, a dificuldade de levantar recursos e outros desafios exigidos dos que se aventuram a fazer cinema por aqui. Do início para a realização do filme, houve mudanças não só de concepção, mas também envolvendo o roteiro, elenco e outras próprias das transformações que acontecem com as pessoas ao longo de sua vida?

Sim, comecei o projeto quando meu filho tinha dois anos e ele já tem 15. Eu brinco que é preciso ser teimosa para fazer cinema. Nos primeiros editais em que participei, poucas diretoras mulheres eram contempladas. Muita coisa mudou desde então, felizmente. Um dos problemas do tempo que se leva para captação de recursos é que o assunto pode envelhecer, ou se transformar muito, ou a gente não se identificar mais e desistir dele. Felizmente eu sigo apaixonada por este tema. E espero que “Mar de Dentro” possa contribuir para este debate ao trazer um retrato mais humano e honesto da maternidade.
Além disso, acho que a evolução do audiovisual brasileiro nos últimos anos me inspirou a fazer um filme mais intuitivo e corajoso.

 

A questão da maternidade, por ser algo diretamente mais relacionado às mulheres, se insere também no quesito da diversidade em seus vários pilares (gênero, racial e outros). Em sua opinião, o filme pode contribuir para melhorar esse quesito que a pandemia colocou mais em evidência?

Não há nada de frágil na maternidade, há potência. A mãe é uma mulher forte, corajosa, intuitiva, capaz e que pode gostar ou não da maternidade. Espero que a sociedade veja as mães de uma forma mais generosa, com menos julgamentos e idealizações. Mas, principalmente, espero que o filme ajude a estimular um debate sobre a complexidade que é ser mãe no mundo contemporâneo. Onde, segundo pesquisa da FGV, publicada em 2016, 47% das mulheres são demitidas em até 24 meses depois que voltam da licença maternidade. É um dado alarmante e muito pouco debatido. Precisamos falar urgentemente sobre isso.

 

É conhecida a jornada de obstáculos que o cinema brasileiro precisa enfrentar para manter sua presença, principalmente na mente das novas gerações. Em face desse desafio e crescentes dificuldades do momento atual, qual sua expectativa para um horizonte melhor?

Quem sabe depois das eleições. No momento, com este governo, não tenho nenhuma esperança de um horizonte melhor. Há pouquíssimos filmes sendo feitos e devemos sentir um hiato de produções nos próximos anos. O que é muito ruim, pois o cinema brasileiro vinha conquistando um espaço importante nos festivais e no mercado internacional de filmes independentes.
Recentemente alguns streamings passaram a investir na produção de longas. Isso é bom, pois estimula o mercado e abre espaço para filmes mais comerciais. Mas precisamos que voltem os fomentos e os editais.
Outra coisa muito importante é a formação de plateia tanto através dos festivais e cineclubes, como também, através do ensino do audiovisual nas escolas e centros culturais. Precisamos de mais salas de cinema e de mais iniciativas como o Vídeo nas Aldeias, É Nóis na Fita, Instituto Criar, entre outros, que difundem as ferramentas do fazer cinematográfico e ajudam a ampliar a diversidade de olhares sobre o nosso país.

 

Seu trabalho tem tido uma grande identificação com o público e nesse, em face do tema e a forma como foi abordado, essa identificação se torna mais importante, inclusive para motivar, não apenas a plateia brasileira, mas também o público mundo afora onde certamente o filme será mostrado. Como está sua expectativa para alcançar e vencer esse desafio?

Em todos os trabalhos que faço fico bastante atenta a não reproduzir preconceitos e padrões que considero ultrapassados e violentos. Creio que temos uma responsabilidade muito grande nesse sentido e busco colocar na tela o mundo que eu aspiro e quero viver. Recentemente dirigi algumas séries de TV, "Manhãs de Setembro", com Luis Pinheiro, estrelada pela cantora e compositora Liniker, para a Amazon Prime Vídeo; e "De Volta aos 15", com Vivi Jundi, estrelada por Maísa e Camila Queiroz, para a Netflix. Ambas têm alcance mundial. E nelas, tive a oportunidade de falar sobre amizade, formação de família não patriarcal, maternidade trans, enfim, muita coisa legal. O mundo está mudando e eu quero ajudar a empurrar.



Dainara Toffoli, diretora de 'Mar de Dentro'
Atriz Monica Iozzi, protagonista do filme


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