‘Belchior – Apenas um Coração Selvagem’ terá estreia mundial no Festival É Tudo Verdade

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Foto: Mario Luiz Thompson/divulgação
Credit...Foto: Mario Luiz Thompson/divulgação

O filme, de Camilo Cavalcanti e Natália Dias, é um autorretrato do famoso cantor e compositor Antonio Carlos Belchior (1946-2017) produzido pela Clariô Filmes, e começou a ser realizado em 2016 com Belchior ainda vivo, embora já sumido e isolado há anos entre o Sul do Brasil e o Uruguai.

O “É Tudo Verdade” acontece de forma híbrida entre a próxima quinta (31) e 10 de abril em quatro salas de São Paulo; e de 1º a 10 de abril em duas salas do Rio de Janeiro. A versão online será de 31 de março a 10 de abril nas plataformas É Tudo Verdade Play, Itaú Cultural e Sesc Digital. A sessão inaugural de “Belchior – Apenas um Coração Selvagem” será dia 7 de abril, simultaneamente nas duas cidades.

Belchior nasceu em outubro de 1946, na cidade de Sobral (CE). Em 1971, saiu de Fortaleza para o Rio de Janeiro, onde inicialmente viveu em bancos de praça e em casa de amigos; posteriormente foi para São Paulo.

Por meio de entrevistas realizadas com Belchior, e também através das letras e poemas de sua autoria, declamados no filme pelo ator Silvero Pereira, o filme mergulha no coração selvagem do poeta.

O documentário remonta de Sobral até o autoexílio, bem como retrata Belchior fora dos palcos, expondo suas aflições, turbulências e como a arte chegou à sua vida e se entrelaçou nessa jornada. O roteiro traz imagens de arquivo em momentos diferentes dos 40 anos de carreira de sua trajetória artística.

Camilo Cavalcanti, mineiro de Belo Horizonte, é produtor criativo, executivo e documentarista. É um dos produtores do sucesso “A Vida Invisível”, de Karim Aïnouz, premiado na mostra Un Certain Regard, em Cannes.

Natália Dias, nascida em Belfort Roxo no Rio de Janeiro, iniciou sua carreira como produtora no mercado independente, atuando ao longo de seis anos em diferentes canais do Grupo Globo. Ambos estão estreando na direção de documentários.

Falando em seu nome e no de Natália, Cavalcanti conversou com o JORNAL DO BRASIL sobre o filme, os desafios da pesquisa para obtenção das preciosas imagens que traz e os resultados que esperam ao retratarem um marco da música popular brasileira.

 

JORNAL DO BRASIL - O que levou você e Natália ao desejo de realizar um filme sobre a vida do Belchior, ainda envolta em tantos mistérios?

CAVALCANTI - Sem dúvida nenhuma, a potência e atemporalidade da obra e a força da palavra contida nas letras dele. Foi isso o que nos moveu desde o início, já que o projeto começa com Belchior ainda vivo. Compartilhamos um fascínio pela poesia cortante que ele propõe e tínhamos um desejo de que a realização do filme pudesse tocá-lo de alguma maneira, deixando claro que, do lado de cá, havia pessoas que seguiam sendo atravessadas pela sua obra.

 

O trabalho de pesquisa é quase um personagem na construção narrativa do documentário. Fale um pouco sobre isso.

A pesquisa é tudo na origem de um filme como o nosso. Em 2019, por exemplo, viajamos ao Ceará. Precisávamos sentir a terra, respirar aquele ar. Fomos de Fortaleza a Guaramiranga, e ficamos hospedados no convento onde Belchior passou alguns anos. De lá seguimos para a fazenda onde nasceu o pai do cantor e onde ainda vivem alguns parentes. Seguimos para Sobral e lá mergulhamos mais ainda nesse personagem complexo que é Belchior.
Além disso, claro, em paralelo havia uma extensa pesquisa de arquivo sendo conduzida pela pesquisadora Isabela Mota, uma figura crucial no documentário, que nasce de um desejo e se concretiza através da pesquisa, sem dúvida. Foi através da riqueza de arquivos que entendemos que o filme deveria ser contado em primeira pessoa.

 

O filme tem imagens preciosas e algumas inéditas da vida do artista. Foi difícil o acesso aos acervos, inclusive o familiar?

Tivemos dificuldades em relação a vários acervos. É preocupante a situação da preservação da memória no nosso país. Vale mencionar que a pesquisa foi dificultada pela situação precária e falta de apoio aos acervos, pela pandemia, pela falta de apreço pela nossa memória, como no caso da Cinemateca que estava fechada durante todo o período de feitura do filme e ainda sofreu recentemente com um incêndio anunciado. E mesmo diante de todos esses desafios, a Isabela nos trouxe coisas lindas, depoimentos inéditos, fotografias, vídeos.

Em relação ao acervo familiar, tivemos um contato próximo com os dois filhos mais velhos de Belchior, Camila e Mikael, durante boa parte do processo do nosso filme. Foi uma troca sempre muito interessante. Mexer na memória das pessoas é uma responsabilidade enorme. Era um ponto de atenção permanente pra nós. Ao mesmo tempo, eles foram sempre muito abertos, assim como a filha mais nova, Vannick, com quem estivemos em Fortaleza, e todos os irmãos e primos com quem conversamos. Era bastante claro como todos se referiam a Bel com muito afeto.

 

Após a estreia no É Tudo verdade, como será a trajetória do filme? Está prevista a participação em outros festivais?

O Canal Curta foi quem primeiro apostou no filme e no desejo de dois diretores estreantes. É um grande parceiro, sem dúvida. Um parceiro dos produtores independentes e do cinema brasileiro.
O filme terá o ano de 2022 dedicado ao circuito de festivais. Acreditamos que Belchior é um personagem poderoso e que o filme pode, portanto, viajar bastante pelo país e pelo mundo.
Em 2023 ele estreia no Canal Curta. Ainda estamos definindo essa data.

 

A obra de Belchior é atemporal e um marco na história da música popular brasileira. Quais resultados esperam com esse documentário tão oportuno e importante?

Um filme tem vida própria e a sua trajetória é afetada por muitas coisas. O que a gente espera é que o filme toque as pessoas, que Belchior e sua poesia possam entrar nos cinemas, nas casas e nos corações das pessoas. E que possa, como provocado pelo próprio artista no filme, fomentar o debate sobre a Música Popular Brasileira. Como ele mesmo diz, "os artistas estão abertos à polêmica". Inclusive nós!

 

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