'Rolê', de Vladimir Seixas, foi selecionado para o festival San Diego Latino

Filme ganhou o Grande Prêmio Visão, no Rhode Island Film Festival

Foto: Paula Monte/Couro de Rato/divulgação
Credit...Foto: Paula Monte/Couro de Rato/divulgação

“Rolê – Histórias dos Rolezinhos”, que aborda os temas do racismo, discriminação e resistência, ganhou, entre outros, o Grande Prêmio Visão, no 25th Flickers’ Rhode Island International Film Festival (EUA), e o de melhor documentário do Festival do Rio 2021. Integrou também a 54ª edição do Festival de Brasília na mostra Memória e Linguagem. Seguindo sua carreira de sucesso, acabou de ser selecionado para a 29ª edição do San Diego Latino Film Festival, que acontecerá de 10 a 20 de março nos EUA.

O documentário se desenvolve através de três importantes personagens do movimento: Jefferson Luís, organizador de um dos primeiros rolezinhos, a artista Priscila Rezende e a empreendedora Thayná Trindade, fundadora de Uzuri Acessórios. Eles trouxeram suas memórias, marcas e traumas para a tela, expondo um capítulo revelador da história da luta contra a exclusão social no Brasil nos últimos anos. O filme desvenda os sonhos, a poesia, a arte e a política de uma geração que encontrou novas formas de lidar com a violência, promovendo um intenso debate pelo país, que está ultrapassando fronteiras.

O filme estreou na grade do CineBrasilTV, plataforma dedicada à produção independente, que se propõe a provocar reflexões sobre as transformações culturais brasileiras.

Seixas – que já participou de mais de 50 festivais pelo mundo e recebeu diversas premiações – deu entrevista exclusiva ao JORNAL DO BRASIL sobre o filme e sua obra focada nas transformações políticas e culturais no Brasil a partir da luta de movimentos urbanos.

 

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Cena de 'Rolê – Histórias dos Rolezinhos' (Foto: Foto: Couro de Rato)

 

JORNAL DO BRASIL - Qual a principal motivação para ter feito “Rolê – Histórias dos Rolezinhos”?

VLADIMIR SEIXAS - O documentário “Rolê” nasce, em nossa produtora Couro de Rato, do sentimento de que os rolezinhos ainda não tinham sido registrados em um filme na dimensão política que essa movimentação política merece. Então, desenvolvemos uma pesquisa, um argumento e um teaser para captação de recursos que foi ganhando corpo a partir de 2015. Durante a elaboração do roteiro, foi ficando cada vez mais evidente a importância dessa presença coletiva em espaços privados de consumos, que se apresentava como uma resposta à violência diária que o corpo negro vive exatamente nesses espaços, até então, locais aparentemente banais. Com essa leitura, montamos uma narrativa de documentário baseada em personagens e imagens de arquivo, que recupera como essa movimentação foi capaz de mobilizar tanta discussão pelo país.

 

Imaginamos o significado de ter realizado um documentário tão oportuno, necessário e corajoso. Poderia falar um pouco mais sobre isso?

“Rolê – Histórias dos Rolezinhos” é uma espécie de desdobramento do curta-metragem “Hiato”, que dirigi em 2008, que relembra a ocupação do shopping Rio Sul, na zona sul do Rio de Janeiro por cerca de 400 sem-teto e estudantes, em 2000. O “Hiato” ganhou um novo fôlego em 2014, pois com a ebulição dos rolezinhos, o filme começou a circular nas redes sociais como um documentário que retratava o primeiro rolezinho no Brasil e essa camada foi incorporada ao filme. As bases do que está na manifestação do Rio Sul no ano 2000 retratada no curta-metragem já trazem o que ficou mais evidente nos anos de 2013 e 2014, mas a discussão racial não foi trabalhada como foi no “Rolê”. Dessa forma, é importante frisar que o avanço nessas duas décadas sobre o debate, sobretudo do genocídio em curso com o povo negro, foi adicionada de maneira radical na estrutura do longa-metragem “Rolê”.

 

O cinema tem um grande poder para mudar cenários, comportamentos e consequentemente combater preconceitos e ações discriminatórias. Qual contribuição o filme pode trazer para mudar esse quadro adverso?

A narrativa do “Rolê” quer se sintonizar com algumas disputas centrais de nossa sociedade atual. De alguma forma, esse processo documental, desde o curta “Hiato” até o longa “Rolê”, se atualiza pela intensidade das discussões e dos exemplos ao longo dessa passagem de ações de luta antirracista. Na feitura do filme, fomos mobilizados pelo avanço travado por diversas iniciativas dos movimentos negros brasileiros. Tanto que criamos uma cena de encerramento com a presença de pessoas fundamentais envolvidas há décadas nessa luta. A direção no roteiro do “Rolê” foi partir da realidade para a narrativa e não o inverso, como se estivéssemos no lugar privilegiado de consciência podendo trazer luz ou dar alguma voz; o movimento é acompanhar o grito das ruas, pois foram elas que fizeram a reação – o rolê.
O filme pode contribuir nos seus espaços de exibição apenas trazendo à tona um debate que foi consolidado pela luta dos movimentos negros e disputando a história dos rolezinhos como um capítulo importante inserido na trajetória da luta do povo negro, travada de maneira contundente nos últimos anos.

 

Seu trabalho tem tido uma grande identificação com os espectadores. É difícil conseguir o viés tão adequado para essa sintonia?

Acho que os personagens foram fundamentais e trouxeram a cara dessa possível identificação. No caso do “Rolê”, por exemplo, o Jefferson Luís foi o primeiro a ser filmado para a realização do teaser do filme em 2016. Ele foi capa da revista Época na onda de rolezinhos paulistas e depois figurou na lista das 100 pessoas mais influentes de 2014, da mesma revista. Um fato marcante é que, de 2016 até 2018, ou seja, desde a gravação do teaser até a gravação do filme propriamente dito, a vida dele mudou muito e para pior em diversos aspectos e isso acabou entrando na narrativa.  O fato mais marcante foi a demolição da favela Fiat, onde morava desde criança, local ao lado do Shopping Internacional, em que ele organizou um emblemático rolezinho com milhares de pessoas. A Thayná Trindade é uma personagem cuja história do rolezinho é diferente, pois ela organizou uma manifestação em um shopping onde sofreu um racismo direto ligado ao seu cabelo crespo. Apesar de ser uma manifestação menor em quantidade de pessoas, acreditamos que era importante ligar aquela ida em grupo ao shopping ao grande movimento dos rolezinhos para traçar os diversos pontos de contato que se ofereciam. E por fim, a Priscila Rezende entraria no filme pelo seu trabalho como performer, para fazer um rolezinho durante a produção do documentário e, por essas coincidências do destino, ela participou de uma grande manifestação em um shopping em Belo Horizonte contra um caso de racismo ocorrido por lá. Assim trabalhamos esses dois eventos, ela conversando com a Ayana Omi, que organizou essa manifestação, e ainda fizemos um rolezinho performático para o filme, justamente no shopping onde a Thayná foi agredida.

 



Vladimir Seixas, diretor de 'Rolê – Histórias dos Rolezinhos'
Cena de 'Rolê – Histórias dos Rolezinhos'


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