‘Marte Um’, de Gabriel Martins, vai competir no Festival de Sundance

Diretor falou ao Jornal do Brasil

Foto: Isabela Martins/divulgação
Credit...Foto: Isabela Martins/divulgação

O Festival de Sundance, o maior evento do cinema independente mundial, realizará sua edição 2022 de 20 a 30 de janeiro, em formato somente on-line, diante do agravamento da pandemia. O Brasil marca presença na mostra competitiva Cinema Mundial, destinada aos títulos estrangeiros, com “Marte Um”, dirigido por Gabriel Martins.

O filme – com locações em Contagem (MG), cidade natal de Martins –, segue uma família negra de classe média baixa tentando manter o ânimo e os sonhos após a eleição de um presidente de direita que representa tudo que eles não são. Tércia é a mãe da família e Wellington o pai, que coloca todas as suas esperanças na carreira de futebol de Deivinho, seu filho que relutantemente segue as ambições dele, apesar de secretamente aspirar estudar astrofísica e colonizar Marte. O bom elenco inclui, entre outros, Cícero Lucas, Rejane Faria, Carlos Francisco e Camilla Souza.

“Marte Um” foi selecionado com o status de “day one”, o primeiro título a ser exibido, o que já representa um destaque para o filme.

Em entrevista exclusiva ao Jornal do Brasil, Martins falou sobre o significado dessa seleção, a motivação para realizar “Marte Um”, a escolha do elenco e da locação, a receptividade que espera dos espectadores e a contribuição do Sundance para o Cinema Independente.

 

 

JORNAL DO BRASIL - Como você está vendo essa seleção do “Marte Um” para um festival tão exigente como é o Sundance, na prestigiada Cinema Mundial, e ainda mais com o status de ‘day one’?

GABRIEL MARTINS - É uma honra imensa e uma felicidade gigante ter atenção de um festival importante como o Sundance. Espero que possa abrir caminhos para o filme e despertar conversas profundas sobre o tema. Após muito trabalho, sinto-me feliz e com a esperança de que todo o elenco e equipe envolvidos no filme possam se beneficiar também deste espaço e abertura.

 

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Cena de 'Marte Um' (Foto: Leonardo Feliciano/divulgação)

 


Fale um pouco mais de “Marte Um”: a motivação para realizá-lo, a escolha do elenco, o ineditismo da trama... Enfim, a clara intenção de tentar mudar a cabeça das pessoas para entender o mundo de outra forma, sem preconceitos raciais ou qualquer outro, e também sobre a escolha de Contagem como locação.

“Marte Um” vem como um entendimento do que é a vida neste mundo complexo. Eu me pego constantemente pensando na imagem de Deivinho, um garoto preto da periferia, olhando para as estrelas com prazer e interesse. Eu acho essa imagem muito potente e traduz uma dimensão simbólica do que é a resistência do nosso povo e a resiliência humana. Para mim, é importante ter uma família negra como protagonista porque essa é também a minha família, o lugar onde fui criado e as pessoas que amo. Filmar em Contagem, perto de onde cresci, é apenas dar continuidade a um projeto da Filmes de Plástico (produtora do diretor) de ter a periferia como parte da história do cinema brasileiro. Eu acho que “Marte Um” traz ideias e combinações diferentes dentro da cinematografia nacional e, ao mesmo tempo, dialoga fortemente com as tradições do passado como o Cinema Novo. Eu sinto que agora temos dimensões de negritude que estão concentradas em um longa-metragem, e isso não é algo que temos tão distribuído na nossa história com assinaturas de pessoas negras como eu. Acho que isso tem muita importância, pois abre possibilidades e caminhos para estarmos constantemente reescrevendo o cinema.

 


A mostra Cinema Mundial é uma vitrine muito especial do Sundance, com espectadores engajados, atentos e bastante interessados. Qual receptividade espera dessa plateia?

Espero que vejam o filme com olhos livres, com atenção e se sintam conectados. Espero que possam se interessar pelas discussões ali colocadas e principalmente pelos personagens.

 


Qual avaliação faz do Sundance como forte apoiador do cinema independente e os resultados que tem trazido para essa forma tão especial, criativa e inovadora de fazer cinema?

Sundance tem uma história de alimentar a importância da cena independente como um campo de experimento e afeto. Os filmes serem caracterizados por orçamentos menores traz a criatividade pra frente da discussão e nisso há uma enorme inspiração. Sinto um calor e um afeto imenso da equipe toda que nos comunicamos até agora e vejo que existe um real prazer e vontade de falar sobre cinema. Este cuidado é algo que me deixa muito feliz.



Cena de 'Marte Um'
Gabriel Martins, diretor de 'Marte Um'


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