‘Despedida’ é destaque na Mostra Internacional de São Paulo

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Foto: Edu Piotroski
Credit...Foto: Edu Piotroski

A história se desenvolve durante o feriado de Carnaval, quando Ana (Anaís Grala Wegner), uma menina de 11 anos, viaja para o interior do sul do Brasil para o funeral de sua avó. À noite, ela vê o fantasma da avó entrando na floresta perto da casa da família. Quando decide segui-la em meio às árvores, descobre um mundo de fantasia e mistério. No caminho estão bruxas, vilões, criaturas estranhas e um cão selvagem guardando a passagem para esse mundo fantástico.

Escrito e dirigido pela dupla de diretores Luciana Mazeto e Vinícius Lopes, e com locações nas cidades de Pelotas e Viamão, no Rio Grande do Sul, “Despedida” foi filmado entre os meses de fevereiro e março de 2019.

Além de Anaís, o elenco conta com Patricia Soso, Ida Celina, Sandra Dani, Marielly da Cruz e Kiko Ferraz.

Os diretores e roteiristas, no seu segundo longa-metragem, voltam a utilizar o viés fabular para abordar dramas familiares, paradigmas, descobertas, desafios e recomeços como fizeram no filme de estreia “Irmã”, que teve première mundial na edição 2020 do Festival de Berlim.

Nascidos em Porto Alegre, Luciana e Vinícius exibiram seus curtas-metragens em vários festivais como Rotterdam, Leipzig, Havana, Gramado, Tiradentes, entre outros.

Em exclusiva para o Jornal do Brasil, eles falaram sobre “Despedida”, o significado da seleção para a Mostra de São Paulo e a razão da temática recorrente em seus filmes.

JORNAL DO BRASIL - Vocês tiveram uma excelente estreia com “Irmã”, na Berlinale. E agora “Despedida” está na prestigiada Mostra de SP. Qual a importância dessa seleção e expectativa de receptividade do público?

Luciana Mazeto e Vinícius Lopes - Estamos muito felizes com a seleção do “Despedida” para um festival tão importante como a Mostra de São Paulo, especialmente marcando o retorno às salas de cinema, que propicia uma experiência compartilhada e imersiva incomparável para o público. Esse filme, embora traga camadas pensadas para interessar também ao público adulto, é voltado especialmente para o público infanto-juvenil e propõe alguns desafios para esses espectadores em particular. Até agora, em pequenas sessões ‘teste’ com crianças e adolescentes, que nos ajudaram a moldar e finalizar o filme, o retorno foi bastante surpreendente e animador. Então estamos muito curiosos para a recepção na mostra.

Em “Despedida” e no anterior vocês abordam uma temática que envolve dramas familiares, costumes, desafios, recomeços e um viés de fábula. Qual a motivação maior que os leva por esses caminhos?

A fábula é uma ferramenta que nos encanta como roteiristas e diretores porque ela permite criar simbologias para tratar temas densos e próprios do processo de amadurecimento, que estão presentes nos dois filmes. Grandes obras de fantasia, nas quais buscamos inspiração, trazem sempre essa camada muito humana na sua raiz: a superação de medos, o enfrentamento de perdas, a necessidade de mudança. Ana, nossa protagonista, passa por vários processos e desafios no filme: a perda de um parente próximo, o lidar com a dor silenciosa da mãe (que ela não entende), a descoberta da avó (primeiro como uma figura mítica, pra depois desmistificar e humanizar essa figura), a descoberta de um mundo novo e também do seu papel nessa história de reencontro. São temas complexos, e a fantasia e a aventura foram essenciais para conseguir traduzir essas questões em uma linguagem acessível para o público infanto-juvenil, e tornar a história mais universal, ampliando a possibilidade de identificação com os espectadores. O ‘era uma vez’ pode ser uma ferramenta muito poderosa para nos ajudar a entender a realidade.

No filme de estreia, vocês disseram que queriam conectar os espectadores emocionalmente com a história. E neste, qual o principal objetivo?

Sendo um filme voltado para o público infanto-juvenil, nossa principal vontade era explorar a fantasia para criar uma narrativa engajadora e atrativa, mas também complexa, que não subestimasse a capacidade de compreensão e a imaginação das crianças, e propusesse uma experiência diferente, que as desafiasse. A busca de Ana pela avó e a descoberta dos mistérios da sua família e daquele lugar mágico é a linha principal da história, onde nós experimentamos bastante as possibilidades estéticas e narrativas para criação da fantasia, buscando referências em obras (para crianças e adultos) que nos marcaram – Alice no país das maravilhas, Valerie e a semana das maravilhas, Labirinto, além das animações de Hayao Miyazaki (famoso diretor japonês de filmes do gênero)

Mas essa camada fabular se desenvolve sobre uma segunda camada, que é a do drama familiar. Nos nossos dois primeiros filmes tratamos de questões muito pessoais, que partem de experiências que tivemos na infância e adolescência, e que deram origem a essas histórias. Então o aspecto emocional sempre aparece com força. Tanto em “Irmã”, quanto no “Despedida”, a gente buscou criar uma conexão emocional do público com o drama familiar que se desenrola na tela. Mas enquanto “Irmã” tinha seu foco no acerto de contas e na impossibilidade de reconciliação, “Despedida” explora a descoberta do outr” e a possibilidade de reconciliação, a chance de fazer as pazes com o passado e curar as feridas. É um filme bastante otimista nesse sentido, que aposta no poder da imaginação e no efeito transformador das ações de uma jovem menina sobre todo o universo ao redor dela.

 

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