O imensurável legado de Adhemar Gonzaga para a memória cultural do Brasil

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Foto de Jack Freulich
Credit...Foto de Jack Freulich

Adhemar Gonzaga, pioneiro do cinema brasileiro, faria 120 anos no dia 26 de agosto.
Nascido no Rio de Janeiro, fundou a Cinédia em 1930, um dos mais importantes estúdios. Inicialmente localizada no bairro de São Cristóvão, a Cinédia foi transferida em 1954 para Jacarepaguá, e hoje continua em plena atividade no bairro de Santa Teresa, sob a direção de Alice Gonzaga, filha de Adhemar.

Responsável por boa parte da produção do cinema brasileiro, a Cinédia realizou, entre muitos outros, os clássicos “Lábios Sem Beijos” (primeiro filme ali produzido, com direção de Humberto Mauro), “A Voz do Carnaval”, “Bonequinha de Seda”, “Ganga Bruta”, “Berlim na Batucada”, “Anjo do Lodo”, “O Ébrio”, de Gilda Abreu (maior êxito comercial de toda história do estúdio) e “Alô Alô Carnaval”.

Este último, em estado já bastante comprometido, teve uma exibição em 2000, homenagem do Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro (CPCB) e do Festival do Rio aos 70 anos da Cinédia, que emocionou a todos os presentes. "As Cantoras do Rádio", com Aurora e Carmem Miranda; "Amei", com Francisco Alves; "Colombina", com Heloisa Helena; "Não Bebas Tanto Assim", com as Irmãs Pagãs (Elvira e Rosina); e "Cadê Mimi", com Mario Reis, são apenas alguns exemplos dos inúmeros sucessos da época que estão no filme. Felizmente, graças aos esforços de Alice, “Alô Alô Carnaval” foi restaurado e salvo de uma perda irreparável.

Importante também lembrar o mítico “Barro Humano”, dirigido por Gonzaga que, infelizmente, está desaparecido. Após sua estreia em junho de 1929 no Cinema Império, no RJ, ganhou o prêmio de melhor filme do ano em concurso promovido pelo JORNAL DO BRASIL e foi exibido em toda a América do Sul, Portugal e também em Hollywood, sempre com sucesso de crítica e público. Esse é um daqueles clássicos que tem se mantido vivo apenas no imaginário dos estudiosos e amantes do cinema brasileiro e, quem sabe, um dia aparecerá, fato que já ocorreu outras vezes. Como foi o caso do americano “Richard III”, de James Keane (1912), considerado perdido e que foi surpreendentemente encontrado com um colecionador que o doou para o American Film Institute. Após ter sido restaurado, foi relançado em Veneza e teve a segunda sessão no Rio de Janeiro em 1998, no Encontro do CPCB, durante o 14º Rio Cine Festival, com trilha sonora conduzida por Carlos Eduardo Pereira (Cadu), do MAM e a presença de Ken Wlaschin, vice-presidente do AFI.

Embora improvável, o fato não deixa de trazer certa esperança para que um dia o filme possa ser incorporado também fisicamente às inúmeras realizações de Gonzaga, que além de produtor e diretor, foi roteirista, historiador e crítico. Escreveu nas revistas "Palcos" e "Telas" e no "Jornal do Rio". Em 1926, com o apoio de Mário Behring, e tendo Gilberto Souto como correspondente em Hollywood, lançou a "Revista Cinearte".

Criou, ainda, um clube de cinema com Pedro Lima, Álvaro Rocha, Gilberto Souto e Paulo Vanderley, o Clube do Paredão. O nome se deve ao fato de ter sido um muro de pedra junto à antiga praia do Flamengo, onde o grupo se reunia para discutir os filmes após assisti-los.

Além de todas as ações pioneiras realizadas por Gonzaga, ele também teve uma participação importante na recuperação de “Limite”, de Mario Peixoto, preservando nove latas de negativo do filme na Cinédia. Em agosto /1942, Peixoto pediu a retirada dos negativos com muitos agradecimentos por essa guarda.

Em 1970, Gonzaga dirigiu “Salário Mínimo”, seu último filme. Morreu em 1978 com 77 anos. Foi casado com a atriz Didi Vianna, com quem teve a filha Alice que, com determinação e brilhantismo, vem dando continuidade ao inestimável legado deixado por ele para nossa história e memória cultural.