Crítica - ‘Cine Marrocos’: pronto para o close final

Cotação: 3 estrelas

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O documentário “Cine Marrocos”, de Ricardo Calil (“Uma Noite em 67”), mostra brasileiros sem-teto, imigrantes latino-americanos e refugiados africanos – moradores do histórico cinema de São Paulo – que recriam cenas de filmes clássicos, apresentados mais de 60 anos antes no local. Em quase toda grande cidade brasileira há uma grande sala assim, abandonada ou invadida, que já brilhou no passado. Como não pensar no cine Metro, na Cinelândia/RJ, fechado há 30 anos, com sua tela de 150 graus e projeção em 70mm?

O passado do Cinema Marrocos, no centro de São Paulo, foi glorioso: em 1954, foi considerado o melhor e mais luxuoso cinema da América do Sul, responsável por sediar o primeiro festival internacional de cinema do Brasil. Na abertura do documentário, vemos nomes como o do diretor Erich Von Stronheim, que veio para a exibição de “Crepúsculo dos Deuses” (“Sunset Boulevard”, 1950), de Billy Wilder, onde fez o mordomo da decadente estrela do cinema mudo, Norma Desmond (Gloria Swanson). Também vieram astros de Hollywood, como Errol Flynn e Walter Pidgeon, além do diretor francês Abel Gance. Clássicos como “A Grande Ilusão”, de Jean Renoir, “Júlio César”, de Joseph L. Mankiewicz, “Noites de Circo”, de Ingmar Bergman, e “Pão, Amor e Fantasia”, de Luigi Comencini, foram exibidos no festival. Em 2021, completam-se 70 anos desde a criação do cinema, inaugurado em janeiro de 1951.

Quando a equipe do “Cine Marrocos” pisou pela primeira vez na sala, em 2015, o local estava ocupado por dois mil sem-tetos de 17 países, depois de passar 20 anos de portas fechadas. Eles dormiam em quartos provisórios nos corredores do cinema e no prédio acima. E viviam sob a ameaça de perder suas casas do dia para a noite, devido ao pedido de reintegração de posse feito pela prefeitura. Com a ajuda dos moradores (que são o foco do doc), a equipe do filme reabriu o Cine Marrocos, exibiu os filmes do festival de 1954 e convidou os moradores para uma oficina de teatro.

O trabalho final da oficina foi recriar algumas cenas de filmes. Como o icônico “Sunset Boulevard”, sobretudo a final, na qual a louca Desmond acha que está gravando uma cena para um filme dirigido por Cecil B. DeMille, e desce a escada pedindo o close, e fazendo o célebre gesto com as mãos, que encerra o filme de forma dramática. A brasileira Volusia Gama, ex-bailarina, recriou a famosa cena. Mas, 30 dos moradores reencenaram outras cenas de cinema. O cantor camaronês Yamaia Mohamed transformou o monólogo de Marco Antônio em “Júlio César” (originalmente feito por Marlon Brando) em um rap. O jornalista congolês Junior Panda, que foi perseguido pela ditadura de seu país, recriou em Lingala (língua do Congo) o papel de Jean Gabin em “A Grande Ilusão”.

No fim, temos esse misto de decadência dos grandes cinemas com o fato da falta de teto no centro de uma cidade tão grande como São Paulo, que tem centenas de edifícios fechados e sem uso, que bem poderiam estar abrigando estas pessoas que não têm onde morar.

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