Filme brasileiro que antecipa semelhanças com a pandemia estreia no Sundance

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Foto: divulgação
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“A Nuvem Rosa”, dirigido e roteirizado pela gaúcha Iuli Gerbase, estreou nessa sexta (29) no Sundance em plataforma online, formato que está sendo adotado pelo festival nesta edição.

O filme é sobre uma nuvem rosa tóxica que atinge o mundo, obrigando todos a ficarem confinados. A história segue Giovana presa em um apartamento com Yago, que havia acabado de conhecer em uma festa. Enquanto eles aguardam a nuvem ir embora, precisam viver como um casal. Ao longo dos anos, Yago vive a própria utopia, enquanto Giovana sente-se cada vez mais aprisionada.

Os protagonistas são interpretados com brilho por Renata de Lélis e Eduardo Mendonça, e a ótima fotografia de Bruno Polidoro – premiado em vários festivais nacionais e internacionais – é perfeitamente adequada à trama e à angústia vivida pelos personagens.

O filme foi produzido antes da pandemia e, de alguma forma, antecipa o momento atual imposto pelo novo coronavírus. Embora não possa ignorar a semelhança, Iuli está apostando que a identificação do público seja com a relação do casal.

“Como não havia a intenção de que a nuvem representasse um vírus, acreditamos que o filme poderá ir além desse fenômeno e trazer reflexões sobre a repressão e o desejo de liberdade”, destacou a diretora na entrevista após a projeção.

Sobre a inspiração para o filme e o que influenciou o seu processo criativo, ela contou que queria escrever sobre um casal que é forçado a ter uma relação por causa de um fato absurdo. “Uma grande inspiração foi “O Anjo Exterminador”, de Luis Buñuel que segue um casal nessa situação. No meu filme, eu não queria que fosse por causa de uma guerra ou algo do tipo, então surgiu a ideia dessa coisa até meio bizarra da nuvem rosa”, complementou Iuli, lembrando que escreveu o roteiro há dois anos e que a chegada da pandemia não alterou em nada o cerne da trama.

“Eu já tinha feito três cortes do filme, já sabia de cor cada fala dos atores, enfim já estava tudo na minha cabeça. A única mudança que fizemos foi adicionar cenas da nuvem rosa em outros lugares do mundo porque a princípio ela só aparecia no Brasil”.

Esse é o primeiro longa-metragem da cineasta, que já tinha realizado seis curtas selecionados para diversos festivais internacionais como o de Toronto e o de Havana.

“A Nuvem Rosa” – que concorre em Sundance ao prêmio de melhor filme estrangeiro na mostra Cinema Mundial – tem previsão de estrear no Brasil ainda este ano.

Um tesouro redescoberto
Outro destaque ontem entre os filmes em competição, foi “Summer of Soul”, do músico Ahmir “Questlove” Thompson, que abriu a mostra americana de documentários, a segunda mais importante do festival depois da competitiva americana de dramas.

O filme é sobre um evento ocorrido em 1969 durante o mesmo verão no qual aconteceu Woodstock e a 160 quilômetros de distância. Na ocasião, mais de 300.000 pessoas compareceram à série de concertos que ficou conhecida como Festival Cultural do Harlem.

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Banda "Sly &the Family Stone" em Summer of Soul (Foto: Mass Distraction Media/Sundance Institute)

Tudo foi filmado, mas depois daquele verão, as imagens ficaram em um porão por 50 anos e nunca foram vistas. Pelo menos até agora com a estreia do filme de Questlove, que desenterra um verdadeiro tesouro destinado a se tornar um pilar da música e da história afro-americana.

Em sua estreia marcante como cineasta, o lendário músico traz neste documentário – parte filme concerto, parte registro histórico – o evento épico que irradiou a reavaliação da cultura, moda e música negras.
O rico resgate incorpora habilmente uma revista musical inesquecível que inclui muitas joias raras, como um solo de bateria de Stevie Wonder e um dueto entre Mahalia Jackson e Mavis Staples.

Na Q&A após a projeção, Questlove falou sobre a motivação para ter feito “Summer of Soul”.
“Tudo começou quando David e Robert (David Dinerstein e Robert Fyvolent, produtores do filme) me contaram sobre esse festival. Fiquei impressionado e não conseguia acreditar como um evento com nomes tão grandiosos e que rivalizou com Woodstock ficou no ostracismo tanto tempo. A minha descrença nesse esquecimento foi o início da motivação para realizá-lo”, afirmou Questlove que, com seu filme, é um forte candidato ao prêmio de melhor documentário americano.

'Imagine que você está lá'
Esse é o cerne da mensagem que os organizadores do Sundance tentam passar este ano, numa forma de aproximar ao máximo a edição virtual da presencial.

Para isso, criaram o Sundance Dailies, que todas as manhãs fará uma transmissão ao vivo diretamente de locais onde o evento acontece desde 1985.

O primeiro, que foi ao ar ontem, teve como anfitriões Tabitha Jackson, recém-empossada diretora do Sundance, e John Cooper, diretor honorário.

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John Cooper, diretor honorário do Festival de Sundance (Foto: Mark Leibowitz/Sundance Institute)

Após o bom dia de Tabitha, imagens mostraram Cooper na nevada Park City, na porta do Egyptian, o cinema mais emblemático da cidade. “É aqui que tudo começou, vários clássicos cultuados estrearam aqui, várias estrelas começaram suas carreiras vitoriosas aqui. Sundance está vivo em nossa memória e eu mal posso esperar o ano que vem, para estar presencialmente neste local com vocês”, desejou Cooper que deixou a direção em 2020 com o reconhecimento explícito de Robert Redford, na festa de premiação do ano passado.

“Não há elogios e admiração suficientes que possamos dar a Cooper. Em algum momento, o festival se tornou dele”, elogiou o criador do Sundance na ocasião.



Cena de A Nuvem Rosa
Banda "Sly & the Family Stone" em Summer of Soul
John Cooper, diretor honorário do Festival de Sundance