CAIO BUCKER

A morte de Arthur Poerner

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Por CAIO BUCKER

Publicado em 07/07/2022 às 10:32

Caio Bucker JB

Foi numa tarde de Julho de 2021, numa reunião sobre a reabertura do tradicional restaurante La Fiorentina. Eu acabara de entrar para o time de sócios, e junto com o proprietário, os maîtres e o chefes de cozinha, entre cardápios antigos, cafés e copos de água com gás, discutíamos possíveis mudanças no menu. Para quem não conhece, a Fiorentina foi a precursora em homenagear celebridades e frequentadores influentes dando a estes pratos com seus nomes. Dentre as mudanças, tiramos a calabresa acebolada que levava o nome do jornalista e escritor Arthur Poerner. Como ele sempre foi frequentador assíduo da casa, pensamos em colocá-lo em outro prato. Mas alguém falou: “Seu Arthur morreu.” Jura? Fiquei surpreso, não tinha conhecimento disso. “Tem uns anos que ele não aparece lá, morreu sim.”, outro alguém comentou. Entrei na internet rapidamente colocando seu nome, e zapeando o celular, apareceu uma notícia com o título “A morte de Arthur Poerner”. Com a pressa de resolver diversas questões, cometi o erro de um jornalista inexperiente e preguiçoso e não abri a matéria. Fechei o celular e comentei: “Putz, parece que ele morreu mesmo.” Em respeito aos falecidos, como de praxe na casa desde sempre, tiramos seu nome do cardápio, e seguimos a reunião.

 

Macaque in the trees
Arthur Poerner foi o brasileiro mais jovem cassado pela ditadura militar (Foto: Arquivo)

 

Um mês depois da reabertura, estava eu sozinho, sentado em uma das minhas mesas cativas, acompanhado de um chopp, quando vejo ele entrando no restaurante. Sim, era o Arthur Poerner, ou alguém muito parecido com a energia daquele velho escritor. Chamei um dos maîtres e perguntei: “Vem cá, o Arthur Poerner morreu?” E a resposta veio na hora: “Morreu sim!”. Apontei para a porta e disse: “E quem está entrando ali?” Outra resposta certeira com os olhos arregalados: “É o Seu Arthur Poerner…” Pois é, ele estava ali. Entrou, sentou com sua companheira e fez seu ritual de sempre que durou por todos os anos: um café, um cigarro, um suco de tomate, outro cigarro, uma taça de vinho, mais cigarros, e por fim a garrafa de whisky de uma marca que só ele pedia. Quando começava o movimento de encerrar a cozinha e arrumar as mesas e cadeiras, aí sim, ele fazia o pedido do prato, normalmente um peixe. O motivo? Ninguém nunca soube, mas acreditavam ser pelo fato dele gostar de fechar o restaurante. Aliás, isso era comum nas suas idas semanais e quase diárias. Uma vez, um garçom pediu gentilmente para ele fazer o pedido pois estavam encerrando. Sua resposta foi: “Vocês deveriam ficar felizes que ainda está cedo, pois antigamente eu ficava aqui até oito da manhã.”

Bem, voltemos ao dia que eu estava lá e ele apareceu. Arthur pegou o cardápio, olhou, olhou, e se deu conta que seu nome não estava mais lá. Perguntou para o maître o que tinha acontecido, que explicou que agora “isso era comigo”. Me avisaram, e prontamente fui até a sua mesa, antes de tudo como um grande admirador de seu trabalho e sua história. “Boa noite, Seu Arthur. Que honra te receber aqui. Tudo bem?” Ele disse que sim, contou uma história e outra, e depois perguntou se tinha acontecido algo, pois o prato que levava seu nome não estava mais no cardápio. Expliquei que não tínhamos mais as calabresas aceboladas, e com isso havíamos tirado. Ele retrucou rindo: “Entendi, mas podiam colocar meu nome numa batatinha qualquer.” Até que ele tinha razão. Fiz questão de explicar: “Seu Arthur, eu não vou mentir pro senhor. Quando estávamos em reunião para atualizar o cardápio, eu ia colocar o seu nome em outro prato, mas disseram que o senhor havia morrido.” Ele riu, deu um trago em seu cigarro e disse: “Eu morro, mas eu sempre volto.” Rimos os dois, acompanhei o velho escritor com uns goles de prosa, e demos uma volta pelo local pois ele gostava de caminhar. Me contou que, recentemente, tinha colaborado em um livro, e queria lançar ali, uma das tradições culturais da casa. Que honra, né? Num impulso imediato, pedi para tirarmos uma foto. Foram duas selfies, ele com aquele sorriso sincero e uma sabedoria que vai além das histórias que ele mesmo costumava contar.

Essa história toda já foi contada por mim - e até por amigos - diversas vezes. No restaurante, sempre falamos dele, que novamente andou sumido por alguns meses. O velho Arthur faz falta, virou um marco do local. Na última quinta-feira, fui lá fazer minha visita diária e voltei pra casa. Assim que abri a porta, recebi a notícia que eu não queria: Arthur Poerner acabara de falecer. Fiquei um pouco confuso, essa notícia já havia chegado pra mim, mas era mentira. Seria um equívoco novamente? Abri o instagram e a primeira imagem que apareceu foi uma foto dele, no perfil do vereador Reimont, com a legenda: “Hoje nos despedimos de Arthur Poerner, meu querido amigo e companheiro de lutas. Arthur era jornalista, escritor, compositor, professor, um homem de inúmeros talentos e que sempre defendeu a democracia e os direitos dos cidadãos e cidadãs. Foi perseguido e exilado durante a ditadura militar, mas nunca desistiu de lutar. Entre suas obras, está o livro “O poder jovem: história da participação política dos estudantes brasileiros”, que é, até hoje, um dos mais importantes trabalhos de síntese sobre a história do movimento estudantil no Brasil. Que perda para todos nós! Meus sentimentos a todos os amigos e familiares de Arthur.”

Nossa, que momento triste. Me senti estranho. Desta vez o velho Arthur se foi mesmo. Não que eu tivesse uma relação íntima com ele. Mas tinha muito respeito e admiração por ele e por sua história. Ele foi o brasileiro mais jovem cassado pela ditadura militar. Bacharel em Direito com Pós-Graduação em Comunicação, foi escritor, jornalista, professor e compositor. Fundou o PDT, presidiu o Museu da Imagem e do Som e o Sindicato dos Escritores do Estado do Rio de Janeiro, além de lecionar Jornalismo na UERJ. Permaneceu um incansável defensor da democracia no país e fez muita história por onde passava. Eu acho que estamos nesta vida para fazer história, para contar história. E além disso, para viver com as memórias. Como a própria filosofia diz, não devemos achar que a nossa memória é uma simples recordação das coisas. Ela revela uma das formas mais claras e fundamentais de nossa existência, e é onde se encontram nossos laços com o tempo. E no tempo, com aquilo que não podemos mais ver ou acessar, ausente ou distante. As memórias constituem nossa identidade, tanto individual como coletiva, na medida em que ela é também um fator extremamente importante do sentimento de continuidade e de coerência de algo. Senti pela sua morte, mas o alento são as histórias para contar. Que bom que existe a memória. Eu nunca mais achei aquela matéria antiga, “A morte de Arthur Poerner”. Provavelmente era algo inusitado como a vida dele. E agora, contrariando o que o próprio disse, ele morreu, mas infelizmente não voltará.

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