O cinza

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JB
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O cinza é o meio termo dos opostos. Não é o branco nem o preto. É o “entre” das coisas, está no meio, prestes a atingir um fim. Ou melhor: um recomeço. O pintor, poeta e professor suíço Paul Klee (1879-1940) nos apresentou um ponto intermediário que se encontra no eixo central de uma balança. Reforça que não se trata exatamente do equilíbrio, mas sim, de encontrar o que ele chama de ponto cinza, o ponto que reside no meio. É este ponto que, numa posição central, nos possibilita o começo. Ou um novo começo, que seja. O início de um vislumbre, o começo da cor, o renascer das cinzas. Ele relaciona o cinza com uma posição semelhante ao zero, que reside entre números negativos e positivos, não pertence a nada, mas concede valor. O zero é um jogo incessante entre a presença e a ausência, e pode designar o tudo ou o nada. É nesse sentido que Paul Klee conceitua o ponto cinza: “é cinza porque não é branco nem preto, ou porque é tão branco quanto preto. É cinza porque não está nem acima nem abaixo, ou porque está tão acima quanto abaixo. Cinza porque não é quente nem frio. Cinza porque é um ponto não dimensional, ponto entre as dimensões e em sua intersecção ou nos cruzamentos dos caminhos.”

 

Macaque in the trees
O cantor e compositor baiano Mateus Aleluia (Foto: Foto: Paola-Alfamor)

 

Que ideia a minha começar um texto refletindo sobre uma cor, ou um número. Mas surgiu de um misto de acontecimentos nos últimos dias que eu já vou contar. Antes, uma nota: meu velho amigo Deleuze, inspirado neste pensamento de Paul Klee, iniciou suas teorias estéticas comentando sobre o caos, princípio pelo qual a arte vai se constituir. E não se trata do caos propriamente dito, mas o fato de mergulhar no caos e sair dele. Para isso, parte-se de um ponto, e a questão é tornar visível aquilo que não podemos ver. E esse ponto de partida é justamente o cinza. O início da cor, da visão, da visão da cor, da visão da paisagem que parte do meio. Tudo começa com a experiência do sensível. É fazer existir a partir do caos, como num processo de germinação, permitindo que a gente tangencie as capacidades do corpo, positive a vida, afirmando a própria vida em sua força como num estado de frisson. E diante de tanto caos que vivemos, mais uma vez mergulhei e saí dele. O ano que começaria com o maior carnaval da história e finalmente com beijos, abraços e carinhos, começou explodindo de casos de uma nova variante que fez a vida recuar mais uma vez. Mas na última semana, vencemos novamente e o cheiro da existência se fez presente.

Estou falando isso tudo porque depois de tanta luta, de tanta expectativa e toda a esperança possível, os projetos culturais voltaram a acontecer. Alguns adiados, outros insistentes resistindo, mas todos com receio e muita coragem. Pude participar do (re)nascimento de dois deles. Dois projetos que tenho tanta admiração que nem sei. Duas obras que me inspiram na mesma intensidade que eu desejei tê-las, e hoje produzo com afinco. Uma delas é o “Ícaro and The Black Stars”, um musical intergalático sobre a black music, que depois de 2 anos em turnê e temporadas de sucesso, retornou aos palcos com casa lotada. É uma das ideias megalomaníacas criadas com meu irmão Ícaro Silva, nosso showman. O outro é o espetáculo “Mulheres que Nascem com os Filhos”, um presente que ganhei da Samara Felippo, que começou produzindo sozinha e me trouxe para um casamento que deu muito certo. Desde meados de 2020 tentando estrear, mas o momento não permitia. Agora foi da forma mais brilhante e poética possível. Em cena, ela e Carolinie Figueiredo emocionam, cutucam e fazem uma das coisas mais lindas que produzi na vida. Falam da maternidade, dos processos de uma mulher e os questionamentos necessários desde sempre. Os dois, que ganharam vida no meio do caos, driblaram a crise e seguem em cartaz até o final de Fevereiro. Depois de uma semana intensa com essas estreias, vi que todos nós partimos de um ponto cinza.

Esse pensamento todo a respeito do cinza veio com uma canção que está no repeat alguns dias por aqui: “Amor Cinza”, do gênio Mateus Aleluia, cantor e compositor baiano remanescente da formação original do grupo Os Tincoãs. A música quando vem…vem! Logo no início, ele nos diz: “Não aceito quando dizem que o fim é cinza, se eu vejo cinza como um início em cor. Quando tudo finda, dizem, virou cinza. Equívoco, pois cinza cura, poesia eu sou. O traje cinza lembra fidalguia. Quarta-feira cinza é dia de louvor.” Essa música é uma oração, um cântico sagrado. Um convite à celebração e ao amor. Me bate como um “acredita que tudo vai dar certo, tudo vai melhorar e acontecer.” É um renascimento, é um grito do começo. O próprio Mateus nos prova: a gota de orvalho prateada é cinza; a massa encefálica é cinza; a purificação também se faz com cinza; e Fênix renasceu das cinzas com honor. É louco que aprendemos a não gostar de dias cinzentos, trazendo a melancolia para o presente. E essa metáfora serve para nossa vida. Seria muito clichê eu dizer que depois da tempestade vem a bonança, mas não consegui pensar em outra frase senão essa.

Eu me senti assim nesses últimos dias. Momentos de caos que se transformaram em criação. Momentos tristes que pulsaram alegria. Dias tensos e emocionantes que se transformaram em noites de celebração. Um encontro inesperado que desde o princípio demonstrou sustentação. A poesia e a melodia vibrando coisas boas. Afetos e olhares por cima de máscaras que dizem muito mais que palavras em vão. E o mestre Mateus Aleluia confirmando que estamos no caminho certo, numa busca pela nossa ancestralidade. O cinza merece ser exorcizado, visto de outra forma, não mais como algo sempre ruim, mas como um recomeço, um tanto quanto um renascimento. Afinal, a vida é feita de esperança, e esta carrega várias verdades. E justamente por isso que merecemos intensificar o positivismo. Já vi um artista plástico comentar que os cinzas são entendidos como as cores e detritos da terra, sendo eles a chave para a coerência tonal de uma composição. Seria como o dedilhar da viola para sonhar colorido. O cinza é só uma cor, que pode ser também um ponto de partida a ser celebrado. O amor também há de renascer das cinzas, não é Mateus? Então, vamos festejar o cinza com amor.



Caio Bucker
O cantor e compositor baiano Mateus Aleluia


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