Carpinejar, a crônica em pessoa

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Era o quarto período de Comunicação Social. Eu estudava de dia e fazia estágio à tarde na TV da faculdade, como cinegrafista. Um dia, a professora chefe me mandou cobrir a palestra de um escritor que aconteceria no auditório principal, sem dar muitos detalhes. Eu fui, carregando o tripé e a câmera filmadora com uma única fita. Chegando lá, montei tudo, e enquanto conversava com os colegas jornalistas, tentava descobrir do que se tratava o evento. Mas parece que ninguém sabia muito. Só falavam que era um escritor conhecido que ia falar sobre sua carreira e suas obras publicadas. De repente, um silêncio ensurdecedor toma conta daquele salão gigantesco com suas poltronas lotadas. Entra ele, vestindo um look colorido super moderno, óculos escuros, anéis nos dedos com as unhas pintadas e alguma palavra escrita no corte de cabelo, na parte de trás da cabeça. Eu parei. Não acreditava que era ele. Sentou, observou cada um que estava ali e começou a falar. A partir daquele momento todo o resto deixou de existir para mim, pois só conseguia prestar atenção em sua prosa elástica e aconchegante. Resumo da história: horas depois, quando a palestra acabou, me dei conta que tinha esquecido de ligar a câmera para gravar. Meu trabalho estava perdido. Ou não. Confesso que nem liguei muito pra isso, pois queria mesmo era falar com ele pessoalmente, dar um abraço e dizer que era fã. Mas nem deu tempo, pois precisava resolver o problema que eu mesmo tinha causado. A sorte foi que, um colega cinegrafista que também estava cobrindo, me ofereceu uma cópia de sua fita para que eu pudesse ter alguma coisa para levar à redação. Pronto, problema resolvido e uma tarde de orgasmos literários.

 

Macaque in the trees
Legenda da foto: Fabrício Carpinejar, escritor, poeta, cronista e jornalista (Foto: divulgação)

 

Esse cara que me tirou o prumo é o Fabrício Carpinejar, escritor, poeta, cronista e jornalista gaúcho. Naquela época já tinha lido uns 4 livros dele: “Filhote de Cruz Credo”, “Canalha!”, “www.twitter.com/carpinejar” e “Mulher Perdigueira”. Aliás, me identifiquei muito com “Filhote de Cruz Credo”, onde ele conta um pouco da sua infância cercada de bullying numa época em que essa palavra nem fazia parte do dicionário tradicional. Mas o sentimento do ridículo sempre existiu. Pra mim também. Anos se passaram, continuei acompanhando seu trabalho e suas postagens um tanto quanto curiosas, com sua estética direta, cotidiana e de conselhos amorosos. Em 2018, eu estava em Belo Horizonte com uma produção musical, e o produtor da cidade me chama e diz: “Tem um escritor querendo cumprimentar vocês, pode deixar ele entrar?” Eu não sabia quem era, mas disse que sim, e continuei nas funções. Enquanto levava garrafas de água de um camarim para outro, vejo ele descendo a escada. Chamei o produtor local e soltei um: “Porra! É o Carpinejar, e você nem fala nada?” Ele não entendeu muito bem. Fui lá dar os cumprimentos, me apresentei, e convidei-o para uma água, contando a história da palestra na faculdade, que terminou num abraço fraterno que dura até hoje.

Numa entrevista, perguntaram a ele o que ele faria se avistasse algum ídolo vindo em sua direção. Ele disse que atravessaria a rua, pois seria melhor ter a imagem da pessoa apenas em seu imaginário. Eu guardei isso pra mim. Já despistei de Caetano Veloso, de Conceição Evaristo e de Fernanda Montenegro. Mas dele não. Não tinha como. Afinal, para um cronista profissional como ele, e para um cronista de alma como eu, não faria o menor sentido não ter histórias para contar. Acho que foi a crônica que me ligou tanto a ele. Claro que eu curto o estilo despojado e colorido que ele usa nas entrevistas e aulas universitárias. Haja personalidade. Mas o dia a dia contado em prosa e poesia é algo mágico. Descobri esse viés antes da faculdade, quando nas aulas de redação burlava o sistema Enem para escrever da forma que me fazia sentir. Até que deu certo, acredito eu. Estudei jornalismo, mas sempre fui escritor da vida pública, do dia a dia, das conversas de botequim e filosofias de banheiro. A crônica é isso, né? Textos diretos com linguagem simples que retratam aspectos da vida cotidiana, com humor e ironia. A inspiração vem de acontecimentos e situações banais, convidando o leitor a olhar o mundo como quem escreve. Este estilo literário começou a se desenvolver no Brasil em meados do século XIX, com o nascimento da imprensa no país, e os primeiros cronistas foram Machado de Assis e José de Alencar. Que responsa.

Acho que os cronistas se dispõem a levar a literatura para todos sem fronteiras. Em dias pesados, se torna uma leveza. Em fatos extraordinários, uma abreviação. E na vida, se torna uma necessidade. Estimula o exercício de um olhar afinado com o presente. Até mesmo com o passado e com o futuro, depende do ponto de vista. Falando esses dias com o Carpinejar, ele muito bem definiu o gênero que nos uniu: “Crônica é o segundo olhar de nossa vida. Um olhar de volta, um olhar analítico e sensível que repõe o valor das nossas insignificâncias.” Verdade verdadeira. É a forma que temos de nos expor fora dos limites e de certas circunstâncias. É destacar fatos que passam batidos mas que merecem destaque, pelo menos para alguns. É saber observar atentamente e construir um jogo. Diria que o jogo da vida em palavras. Diria também que uma precisão de tempo eternizada, pois a vida passa e o papel fica. Num mundo de tanta baboseira inútil e sensacionalismo, ler uma boa crônica é como um carinho no coração e na mente. Mas a crônica é coisa séria. Não é fofoca não. Até porque, como ele mesmo diz: “A fofoca cresce e a notícia diminui.”



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Legenda da foto: Fabrício Carpinejar, escritor, poeta, cronista e jornalista


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