O paradoxo ser humano: um pessimismo otimista

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Paradoxo vem do grego para e doxa, opinião. Significa uma contradição, um pensamento que vai contra o próprio pensamento. Um dos paradoxos mais conhecidos da história da filosofia é o de Aquiles e a tartaruga, por Zenão de Eleia. Conta-se que Aquiles, herói grego muito veloz, resolve disputar uma corrida com uma tartaruga, e de forma generosa, resolve dar a ela uma pequena vantagem na partida. De acordo com Zenão, por mais rápido que Aquiles se movesse, ele jamais conseguiria ultrapassar a tartaruga. Que? Pois é, o paradoxo propõe que cada vez que Aquiles percorre determinada distância num espaço de tempo, a tartaruga já percorreu outra distância. Se o herói se movimentar mais para alcançar o bicho, vai ver que ela já terá percorrido mais um pouco, fato que se repetirá diversas vezes. Mesmo contrariando o senso comum - pois é óbvio que Aquiles vence a corrida - observa-se a intenção em demonstrar que o movimento dos objetos é um fenômeno contraditório, sempre numa ilusão dos sentidos. Sim, é complexo. Sabe o que é um tanto quanto paradoxal também? O ser humano.

 

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Aquiles e a tartaruga, o mais conhecido paradoxo de Zenão (Foto: charge de Zoucas)

 

Dia desses, jantando na Fiorentina, conversava com amigos sobre este momento que vivemos, um grande paradoxo entre o medo e a esperança, entre a vontade de fazer e não fazer. A pandemia começa a dar sinais de melhora, graças à vacinação, e com isso, pensamos nos eventos cotidianos que nos cercam, os trabalhos com público presencial, as saídas pela noite boêmia, o Réveillon e o Carnaval. Ah, ano que vem é ano de eleição, e acredito que embora tenhamos medo de continuar do jeito que está, a esperança ganha força. Até porque é o que nos resta para mudar o discurso de ódio, a política genocida e o negacionismo contra fatos comprovados pela ciência e pelo mundo, como a vacinação, a mesma responsável por este respiro pandêmico que começamos a ver. Falávamos da saudade de subir ao palco para se apresentar ao público, mas o medo e a dúvida do “será que já é a hora?”. Falávamos da saudade de sair a noite para confraternizar e fechar bares e restaurantes, mas e as aglomerações? Falávamos da saudade dos abraços e apertos de mão, que hoje chegam acompanhados da pergunta “posso te abraçar?”. Tudo isso já está acontecendo, em passos lentos, mas existe o peso da culpa e do medo pendurados nas argolas de nossos brincos.

É tudo paradoxal e ambivalente, conhecido e estranho, parece próximo e distante. Vemos com transparência e opacidade. O ser humano é um paradoxo só, e vive com lucidez e nebulosidade. E com a pandemia mais ainda. O desejo de sair às ruas e se recolher na intimidade brigam entre si, nos fazendo escolher entre se expandir festivamente e se recolher amargamente. Ou nem tanto. A comunicação mudou, e a incomunicabilidade apareceu mais ainda até nos mais falastrões. Para alguns, as criações ganharam força; para outros, o niilismo incinerou o mundo. Aliás, o niilismo tomou espaço nesses tempos, perante a ideia de não haver nenhuma certeza para servir de base para o conhecimento. É o nada. Pensam que a vida não possui nenhum sentido ou finalidade, e ao mesmo tempo, acreditam num objetivo para algum final feliz. O niilismo é pautado na subjetividade do ser, onde não existe nenhuma fundamentação metafísica para a existência humana, ou seja, não há verdades absolutas que alicercem a moral, os hábitos e as tradições. Mas aí, o professor e filósofo Juvenal Arduini considera que “para compreender o ser humano, é preciso vê-lo como processo, como fenômeno em andamento. A visão fixista estratifica o ser humano e mumifica-lhe o real significado, pois ele pulsa e está em mutação.”

Em tempos de isolamento, o “viver ou retroceder” se torna uma questão. Pode-se dizer que estamos num momento de pessimismo otimista. Parafraseando mais uma vez o mestre Arduini, vale mais o significado do que o termo. Há otimismo que disfarça a realidade negativa. Mas ao reconhecer a realidade, o pessimismo revela o espírito otimista, pois lamenta e repulsa a iniquidade. Ao recriminar a crueldade, o pessimista está plantando a semente do otimismo responsável. Nem todo pessimismo é tristeza e frustração. É válido um pessimismo que não acredita na falsa politicagem barata, que não se deixe embair, que se rebela contra o banditismo. E de certa forma, essa situação toda que vivemos veio para chacoalhar nosso conformismo. Veio exigir que mudemos a visão acomodada sobre o conhecimento, sobre a vida, sobre a política e sobre nós mesmos. Veio para sermos mais otimistas num momento de pessimismo. É o momento de defender a vida, mesmo em meio à morte; a democracia, em meio ao autoritarismo; a ciência, em meio ao dogmatismo supersticioso e ignorante, que atrasa a emancipação humana. Integrar otimismo e pessimismo pode parecer uma loucura. E é. Mas a loucura também é paradoxal, assim como o ser humano. Então está tudo certo.



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Aquiles e a tartaruga, o mais conhecido paradoxo de Zenão


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