A volta do jiló

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JB
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Existe aquela máxima de que o cliente sempre tem razão. Essa ideia surgiu com o empresário Harry Gordon Selfridge, em 1909, em Londres. Ele usava a frase para destacar que, em seus empreendimentos, a felicidade dos consumidores estava em primeiro lugar, e vossos desejos seriam respeitados. Deu certo, tanto que a frase circulou mundo afora e se tornou um dos slogans do marketing. Embora com ressalvas, pois o cliente pode não ter razão e a marca pode discordar dele, há de se convir que uma das bases do bom relacionamento é oferecer uma experiência positiva, e isso pode se dar de diversas formas: ouvindo e recebendo críticas e sugestões, mostrando conhecimento do assunto, mantendo a atenção e o respeito, buscando sempre a satisfação de quem consome, e tendo boa comunicação, principalmente na era digital com a internet sem freio. No caso de um restaurante, por exemplo, a preocupação com gostos e sabores, os pratos preferidos, a temperatura quase perfeita das bebidas, o atendimento de nível superior e os comentários atribuídos entre tulipas de chopps, fazem toda a diferença.

Macaque in the trees
Restaurante La Fiorentina, no Leme, é o reduto dos artistas e intelectuais, e foi o primeiro a batizar pratos com nomes de frequentadores influentes (Foto: Foto: Zzn Peres)

Falei tudo isso por conta de um fato que aconteceu recentemente. O grande jornalista Joaquim Ferreira dos Santos, e digo grande por ser um verdadeiro mestre das palavras e da comunicação, fez uma matéria curiosa falando sobre a retirada de um prato do restaurante La Fiorentina, no Rio de Janeiro. Como estou nesta nova gestão, fiz questão de absorver e comentar, com todo o carinho e respeito merecido. O título “O jiló sai do cardápio: de amargo já basta o Bolsonaro”, estampou o jornal O Globo com uma foto do restaurante. Como um verdadeiro lorde e super profissional, começou a boa prosa nos parabenizando pela reabertura, que após um momento tão difícil de crise e pandemia, conseguimos dar a volta por cima e ocupar novamente as mesas na praia do Leme. Muitos sabem que o local é conhecido por ser o reduto dos artistas e intelectuais da cidade, com paredes repletas de quadros e fotos históricas, colunas autografadas e pratos que dão nomes à frequentadores influentes. Chegamos ao ponto: Joaquim dava nome ao prato “Fígado com Jiló”, que saiu do menu nesta reabertura. Como bom e discreto frequentador do local, além de torcedor pelo sucesso da casa, fizemos questão de manter seu nome, só que agora no Polpetone. Mas, cometi um erro de iniciante. Antes de batizar o prato, esqueci de perguntar ao mestre se ele gostava. Ou se via seu nome ali, pelo menos.


Descobri na supracitada e curiosa matéria que não. Desta vez, ele não se reconheceu à mesa. Como ele mesmo descreveu: “Eu tive a existência argamassada pelos miúdos de frango que a mãe carioca comprava no tripeiro da rua, pelas sardinhas que o pai português vendia no balcão do armazém e pela feijoada africana que a cozinheira orquestrava na cozinha. (...) O polpetone não me vai nas entrelinhas da formação.” Achei o texto brilhante, de um verdadeiro cronista de costumes citadinos, e entendi totalmente sua frustração, que de forma poética, nos fez um pedido: a volta à mesa do fígado com jiló. Queria deixar claro que aceitamos de coração aberto a súplica de nosso frequentador. “Atravessamos tempos calamitosos”, ele pontuou, pois uma solicitação como esta poderia parecer mais uma manifestação de mau humor. Mas sabemos que não é o caso. Foi um clamor feito pelo coração e pelo paladar de alguém que tem histórias com o local e com o prato batizado por ele desde sempre. Sim, mestre, deixemos o mau humor e a degradação das boas normas para questões relacionadas ao presidente, e olha que são muitas. De amargo, realmente já basta ele e toda sua estirpe.

Mas vamos ao que interessa: o jiló está de volta. Aliás, o Fígado com Jiló Joaquim Ferreira dos Santos. Até que combina, faz todo sentido e o mais importante: deixa nosso cliente feliz. Além disso, dá a oportunidade de outros frequentadores provarem esta iguaria que se tornou patrimônio carioca. Além do retorno deste prato, outras novidades entram no cardápio essa semana: a Burrata Maria Carol Rebello, que leva o nome da atriz que frequenta a casa desde menina com sua mãe, a produtora Maria Rebello, e com seu tio, o saudoso diretor Jorge Fernando; o Farfalle Cassio Pandolfh, feito com creme ao molho de salmão, e leva o nome do ator que bate ponto semanalmente; e a Moqueca de Peixe Samara Felippo, com arroz e farofa de dendê, para reforçar a força e o brilho da atriz homenageada. Ah, o Polpetone? Agora será o Polpetone Sergio Fonta, batizado pelo ator e jurado dos principais prêmios de teatro, que também frequenta o local há gerações. O mais importante é que todos estejam felizes e satisfeitos, sejam clientes novos, frequentadores antigos, famosos ou anônimos. E que o batismo no cardápio faça jus ao gosto de cada um. Afinal de contas, como disse o mestre Joaquim, devemos estar em nosso lugar de fala. Ou de prato.



Caio Bucker
Restaurante La Fiorentina, no Leme, é o reduto dos artistas e intelectuais, e foi o primeiro a batizar pratos com nomes de frequentadores influentes


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