A primeira pessoa

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12 de Novembro de 2009. João Carlos Rabello, presidente da FITA (Festa Internacional de Teatro de Angra dos Reis) anunciava: “Com vocês, os Garotos!”. Gritos e mais gritos. Aplausos fora de ritmo com uma força impressionante. Mil e quinhentas pessoas na plateia, numa tenda montada na praia. Sim, mil e quinhentas pessoas. Foi assim a primeira apresentação do espetáculo “Garotos”, que fazia sua estreia nacional da forma mais emocionante possível. Em cena, cinco jovens sonhadores que compartilhavam histórias e sensações. Rafael Almeida, Ícaro Silva, Ivan Mendes, Dudu Pelizzari e eu. Já tive a experiência nos palcos como ator, mas depois de alguns anos, a produção e o empreendedorismo falaram mais alto. A cada cena, mais gritos e aplausos, de uma forma nunca vista antes, pelo menos por mim. Pelos companheiros de cena e bastidores também. Depois da apresentação, a gente mal conseguia respirar, energizados. Foi realmente...único. Ao sair da tenda em direção a van, fotos, abraços e o calor do carinho humano com um sentimento de gratidão. A matéria no dia seguinte nos anunciava como “Beatles da moçada”. Bonitinho, né?

 

Macaque in the trees
Gabriel Chadan, José Loreto, Ícaro Silva, Caio Bucker e Ivan Mendes em cena do espetáculo 'Garotos' (Foto: Foto: divulgação)

 

O espetáculo surgiu de uma forma inusitada. Eu trabalhava numa produtora e cuidava da produção de uma atriz que fazia muito sucesso na época. Havia fechado uma pauta para ela no festival (o mesmo FITA falado anteriormente), mas a peça acabou não acontecendo. Como eu já tinha vontade de montar algo voltado para o público jovem, pensei em produzir outro espetáculo e sugerir no lugar. Tinha lido alguns textos, mas não batiam. E o tempo corria. Até que Leandro Goulart, autor e diretor, me mandou um texto chamado “A Primeira Pessoa”, que era uma espécie de diário com suas histórias. Eu li diversas vezes e me identifiquei tanto que propus em fazer a montagem. Liguei para a produção do festival e falei que tinha outro espetáculo para estrear. Acharam inusitado, mas curtiram a ideia, me pedindo material com urgência. Chamei os atores para uma leitura, e naquele momento já fizemos fotos de divulgação, de forma improvisada, embora num tom profissional. Mandamos o material, corremos contra o tempo e começamos os ensaios, que aconteceram a toque de caixa. Depois da estreia inesquecível, uma apresentação quase sem público, mas isso faz parte do jogo. Seguimos em turnê e depois estreamos nossa primeira temporada no Rio de Janeiro, para carimbar o que estava por vir. Nascia ali o espetáculo “Garotos”.

As turnês pareciam viagem de férias entre amigos. A diferença era que tínhamos horários marcados para compromissos profissionais, entre agenda de divulgação em escolas, entrevistas e apresentações. Nascia uma família, um grupo cheio de diferenças e questões, mas que se completava em diversos aspectos. O Rafael e o Dudu saíram, e entrou José Loreto no time. Logo com sua chegada, uma experiência também inesquecível: a turnê pela Bahia durante um mês. Era o verão de Janeiro de 2011, e íamos de uma cidade à outra numa van, já com lugar marcado. Às vezes, mais de 12 horas na estrada, regada de ideias, papos divertidos e mau humor. De vez em quando surgia uma faísca, mas normal, nada que trocar de quarto não resolvesse. Outro momento marcante foi uma temporada no Shopping da Gávea, tão sonhada por todos nós. Passamos quase um ano inteiro em cartaz. O espetáculo tratava de temas vividos por todo jovem, como amizade, relacionamentos, questões familiares, a primeira experiência amorosa, a segunda decepção, a morte de alguém próximo e conflitos que achávamos que eram passageiros, mas na verdade, iriam nos seguir por toda a vida. Era um espetáculo com muito do nosso dedo, da nossa energia e da nossa personalidade, e cada personagem tinha um pouco de quem interpretava. Eu, por exemplo, era o mais ingênuo, romântico e apaixonado pela vida. Talvez continue sendo assim.

Isso é um fato interessante para os dias de hoje, se tratando de um momento pandêmico, de isolamento social e desse hiato desesperador das atividades presenciais. O próprio Ivan me perguntou isso. Será que as pessoas lembram da sensação que é estar em um teatro? E os artistas, da sensação tão gostosa de chegar num camarim, se preparar, ver a casa cheia - ou nem tanto - subir no palco e se jogar? É uma catarse sem fim. Tônus no último grau. O cheiro do teatro é único, com suas cortinas empoeiradas que fazem a rinite valer a pena. Tem troca, olho no olho, a experiência viva e o risco de algo dar certo ou errado demais. “O teatro é minha igreja, é meu confessionário”, dizia parte do texto. Essa retomada começa a dar sinais, com mais peças entrando em cartaz de forma presencial, mesmo que com adaptações em cena, distanciamento, plateia reduzida e uso de máscaras, seguindo os protocolos. Tudo bem, vale a adaptação só pelo fato de sentir o gostinho de entrar na fila para assistir a uma peça. O teatro não é uma coisa só. Existem diversas formas de se organizar, com pesquisas de linguagem para algo mais experimental e uma nova relação entre palco e plateia.

Quase doze anos depois, estamos aqui. Cada um na sua vida, na sua caminhada, mas de uma forma ou de outra, sempre conectados. Esse espetáculo tinha muito dessa conexão entre nós, que segue por todo esse tempo. Sempre que nos encontramos, lembramos de alguma história. Até porque são muitas. E acho que estamos nesta vida para contar histórias mesmo. Falamos de uma época com um saudosismo gostoso e a alegria de termos vivido uma das melhores experiências da vida. De tanto aprendizado, de tanta troca, de tanto amadurecimento. E agora, como será o futuro do teatro e dos encontros pós pandemia? Ninguém sabe. Mas que o teatro seguirá firme e forte, com certeza. Ele existe para isso: proporcionar encontros, respiros coletivos, o sentimento de comunidade com as emoções em consonância, além da conscientização social e uma possível transformação da sociedade. Tudo que precisamos. Seria incrível se todos pudessem ter um espetáculo “Garotos” em suas vidas. Aquele momento segue vivo em todos nós, quem estava dentro ou fora, mas perto de alguma forma. É como dizia no final do texto: “a gente vai sentir saudades, mas vai ter valido a pena porque a gente soube viver”.



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Gabriel Chadan, José Loreto, Ícaro Silva, Caio Bucker e Ivan Mendes em cena do espetáculo 'Garotos'


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