A poesia faz cirurgia!

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Vivo num constante estado de poesia. Me remete ao amor, à liberdade, à paixão, ao sentimento de autoconhecimento e de reflexão. Posso ser romântico demais, mas a emoção coloca o pé no chão, e a poesia me permite experimentar as sensações. O gênio Chico César já disse que “é belo vês o amor sem anestesia, dói de bom, arde de doce, queima, acalma, mata e cria.” A vida é isso. É poesia. Ela pode estar em tudo, até mesmo nos menores gestos, nas situações mais cotidianas e nas mais despretensiosas atitudes. Reside nas manifestações, é ligada à arte e em tudo que se deposita a vontade de ser e estar diante do sensorial. Percebê-la e deixá-la se fazer presente é uma questão íntima e individual, mas quando é plenamente compreendida, ela existe. Zéu Britto diz que a poesia faz cirurgia: “A poesia é uma danada, ela cura, estanca sangue, retira nódulos. A poesia é médica formada em academia. Quando no diagnóstico, é precisa na pele de clínica, usa palavra e magia. Quando alternativa, passa homeopatia através de receitas, faz versos. A poesia faz cirurgia! Eu fui curado por ela, digo feliz! Inúmeras intervenções magistrais, atrás das linhas faciais fui costurado em rimas e é por isso que eu falo assim. A poesia me examina, e abriu consultório em mim.”

Macaque in the trees
Adélia Prado, uma das maiores poetisas do país (Foto: Foto: Nana Moraes)

Surgiu como forma de arte, e é anterior à escrita. Os primeiros poemas, datados de antes de Cristo, foram compostos deste jeito para facilitar a memorização e sua preservação, visto que a transmissão oral nem sempre mantém ao pé da letra o que foi dito. Está entre os primeiros registros das culturas letradas, e isso mostra que desde sempre os seres humanos têm interesse pela linguagem estética. É na poesia que a palavra se desvincula de seus significados habituais e possibilita diversos entendimentos, acepções, reflexões e um jogo entre significante e significado. A definição da palavra vem como um gênero literário que tem como principal característica a composição estruturada de maneira harmônica e em versos. Num sentido figurado, pode se considerar como poesia a manifestação de beleza e estética expressada por palavras. Distingue-se em gêneros, como o épico e o lírico, e ainda diferenciam poema de poesia, onde o primeiro é a forma em que está escrito, e poesia é o que dá emoção ao texto. É a expressão de um sentimento. É a vida.

Não estou aqui para falar sobre como fazer um poema nem sobre suas definições estéticas, até porque eu não sou poeta, nunca escrevi um poema, nem acho que levo jeito. Minha poesia eu coloco nas coisas da vida. Eu vivo este sentimento. Eu aprendo com os sentidos e apreendo com as sensações. Tive encontros com poetas especiais. Quando garoto, durante as aulas de teatro, ia de curioso na sala ao lado, onde rolavam oficinas de “poesia hidráulica” com Mano Melo, Guilherme Zarvos, Tavinho Paes e Geraldinho Carneiro. Era fantástico ver a vida em versos, me identificar com tanta coisa que nem sabia que pensava. E ali, surgiram para mim e para sempre, nomes como Drummond, Leminski, Clarice, Vinícius, Carpinejar, Mário Quintana, Adélia Prado, Fernando Pessoa, Ferreira Gullar, Hilda Hilst, Florbela Espanca, João Cabral de Melo Neto e a mais próxima e parceira de trabalho, Elisa Lucinda, que muito bem escreveu: “Na solidão da existência, nado firma na batida das águas, corpo revolto à mercê da decisão das ondas, vou destilando coragem no desespero das braçadas. É noite. Ainda bem que os versos são claros, me ancoram, me falam, me salvam, me beijam na boca o beijo longo da salvação, me devolvem o ar, a vida, a trilha. O poema é para mim terra firme, como é, para o náufrago, a ilha.”

A poesia nos liberta. Entrar neste estado nos permite. Nos possibilita sonhar. Adélia Prado parece concordar: “O sonho encheu a noite, extravasou pro meu dia, encheu minha vida, e é dele que eu vou viver, porque sonho não morre.” Libertar a poesia é se libertar para a vida e para o amor. Chorar, sorrir, se salvar. Ela te vivifica, te dá asas. Na poesia não existe correntes, nem prisão. Ela dá cor ao banal, acolhe naturalmente e penetra no ser. Como bom observador da vida, atento ao caminho e ávido pelas experiências que se tornarão histórias um dia, me permito poetizar algumas coisas, e quando ela aparece pra mim, dou acolhimento. Elas se apresentam constantemente, de forma sutil, mas tão sutil que às vezes nem percebemos. Este ano tive um encontro especial com Leminski, e estava atento: “Nascemos em poemas diversos, destino quis que a gente se achasse, na mesma estrofe e na mesma classe, no mesmo verso e na mesma frase, rima à primeira vista nos vimos, trocamos nossos sinônimos, olhares não mais anônimos, nesta altura da leitura, nas mesmas pistas, mistas a minha a tua a nossa linha.” Segurei essas palavras como se fossem minhas. E são.

Existem os poetas do dia a dia, e os chamados poetas de botequim. Ou seriam filósofos de boteco? Enfim, eles fazem parte de uma mesma tribo, e também fazem jus ao que se propõem, afinal, se expressar com sinceridade e colocar para fora os sentimentos de forma lúdica, é também fazer poesia. No mundo em que vivemos, onde quase tudo está ao contrário e as coisas parecem não fazer tanto sentido, os versos são como uma vida divagando pelo mundo, por caminhos desencontrados como os ponteiros de um velho relógio. Gosto da pequena frase com grande pensamento. Gosto da poesia que vem com o tempo, como uma abstração mais sólida que se concretiza assumindo diversas formas em cada ser humano, até encontrar-se, e com fim no seu próprio tempo. Afinal, este tempo é individual. Gosto da poesia que a vida nos oferece, e que nem sempre vem em texto. Viver é poetizar o tempo todo. Viver é um eterno estado de poesia. É amar, é ser amado, é cantar e dançar. Como bem colocou o mestre Chacal: “Vai ter uma festa que eu vou dançar até o sapato pedir pra parar. Aí eu paro, tiro o sapato e danço o resto da vida.”



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Adélia Prado, uma das maiores poetisas do país