Então somos comunistas caviar?

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Alerta de textão! Hoje vou fazer um desabafo. O tema da coluna seria outro, mas no último final de semana aconteceu um fato e preciso falar sobre isso, preciso botar pra fora e compartilhar com vocês. Fui atacado e ridicularizado no perfil de um “jornalista” conservador bolsonarista, como ele mesmo se define. O motivo? Por estar à frente do restaurante La Fiorentina, um reduto de artistas e intelectuais, o que para eles, é tudo va-ga-bun-do. O cidadão publicou, sem autorização, uma foto minha tomando vacina (?), onde estou segurando uma placa com #VacinaSim, #VivaoSus e #ForaBolsonaro. O que a minha foto tomando vacina tem a ver com meu trabalho? E ainda postar sem autorização? A descrição da foto diz que o proprietário é um petista caviar, e eu assumi o restaurante que acaba de reabrir “depois de quebrar”. Quanta maldade diante de uma pandemia que gerou prejuízos para todos, ainda mais com um governo negacionista e irresponsável. Aí ele alega que eu fiz uma petição online pedindo o tombamento do local, e depois ganhei parte da sociedade. Quem disse? Só porque estou à frente da Fiorentina? Isso é algum crime? Ele termina o post com um “Pode isso, Arnaldo?”. Sim, amigão. Pode.

Vamos aos fatos. Eu frequento o restaurante há mais de 15 anos, que sempre foi parceiro da cultura, e sempre fiz o possível para contribuir e movimentar o local. Com a pandemia, o estabelecimento fechou, assim como todos os outros no mundo inteiro. Tentou reabrir mas não rolou, e fechou novamente. Com dívidas e a perversidade de um banco, ficou ameaçado de fechar de vez. Eu dei uma ideia: pedir aos órgãos responsáveis o tombamento do La Fiorentina, afinal de contas, é um patrimônio histórico e cultural do Rio de Janeiro, um museu, um templo de histórias e memórias. Fiz um abaixo assinado, que contou com assinaturas diversas da classe artística, e criei uma petição online. O Prefeito Eduardo Paes incluiu a Fiorentina, pelo Instituto Rio Patrimônio da Humanidade, na relação de bens imateriais da cidade, e no Cadastro dos Negócios Tradicionais e Notáveis. Desde então, qualquer modificação no negócio precisa passar pelo aval do patrimônio. Esse foi o primeiro ato de reconhecimento público do local. A segunda medida foi o Projeto de Lei 343/2021, de autoria da Vereadora Monica Benicio, solicitando o tombamento do restaurante por interesse histórico e cultural. Aí eu pergunto: o que há de errado nisso pra quem quer manter a cidade respirando e funcionando?

Macaque in the trees
Charge de Amarildo (Foto: @amarildocharges)

Gostaria de informar ao colega “jornalista conservador” que o que eu fiz é legal, tá ok? Eu iniciei uma campanha para mostrar que existe o interesse do grande público e da classe artística em manter o local aberto, e a partir daí, o processo de reconhecimento foi sendo feito, e a movimentação rolou de forma espontânea. Ele questiona eu ter feito isso tudo e ter entrado de sócio - na verdade, ter entrado como sócio de trabalho, parceiro no projeto. Nos comentários que me bombardearam por dias, sendo muitos robôs como de costume dessa gente, até sugestão para investigação rolou. Que curioso isso tudo. Voltemos aos fatos: eu já vinha conversando com o proprietário para assumir essa parte cultural, que inclui marketing, mídia, comunicação, relações públicas etc. A ideia desse movimento para reabrir o restaurante partiu de mim, sem nenhum acordo ou troca com ninguém. Partiu da minha vontade em manter um lugar tão importante vivo, um lugar acolhedor que sempre esteve junto da arte, e tão icônico para o turismo e desenvolvimento local. E pude ver e compartilhar dessa vontade com tanta gente que comprou o barulho, que se movimentou também, e se colocou à disposição em ajudar no que fosse preciso.

Uma coisa que me chamou atenção é o vocabulário tão miserável, ignorante e repetitivo que usam. Dentre as manifestações da publicação - mesmo com tantos robôs, repito - fui chamado de comunista caviar, esquerdopata, artista petista, corrupto, cara de sujo, bichona, maconheiro e vagabundo. Calma que tem mais pérolas. Perguntaram porque eu tomei a vacina que o governo comprou, questionaram se iremos fornecer comida gratuita ou se render ao capitalismo, pediram para eu fazer minha própria vacina, sugeriram que na foto eu estou de cabelo solto para me esconder, me chamaram de “boy geração teta desmamada”, e ainda me propuseram fazer jejum pelo Brasil e pela liberdade. Sem contar um comentário que disse que “patriota que é patriota não entra nessa”. Na hora que li tudo isso, confesso que fiquei bem irritado. Mas agora, escrevo este texto rindo, rindo muito por sinal, porque a burrice é tanta que não dá nem vontade de discutir. Há muito tempo cheguei a conclusão que o que move essa gente não é a ideologia e nem o pensamento progressista, mas o culto à ignorância, ao ódio, ao negacionismo, contra tudo e contra todos. Haja vista um presidente descartado das redes sociais que transformou o país numa chacota universal; um ministro do Meio Ambiente que nega mudanças climáticas e é a favor do desmatamento; um ministro das Relações Exteriores que afirma que o nazismo é de esquerda; um ministro da Educação que é contra os livros, a pesquisa acadêmica e critica pessoas com deficiências; um líder da Fundação Palmares que fala que a escravidão no Brasil foi benéfica, e racismo não existe; um presidente da Funarte que defende que o rock é coisa do demônio; sem contar os terraplanistas, os criadores de fake news e os difusores de um novo tipo de mamadeira que pelo visto, só eles conhecem e já degustaram.

Queria destacar um termo que me chamou atenção: comunista caviar. Vamos à aula de hoje: comunismo é uma doutrina social cujo objetivo é restabelecer o que se chama "estado natural", em que todas as pessoas teriam o mesmo direito a tudo, mediante a abolição da propriedade privada e o fim da luta de classes. Nos séculos XIX e XX o termo foi usado para qualificar um movimento político. Esta palavra tem origem no latim communis, que significa comum. Ser comunista significa compactuar com as ideias de Karl Marx e Friedrich Engels e defender as mudanças políticas, econômicas e sociais necessárias à superação da sociedade capitalista por uma sociedade sem classes. Parem de chamar os outros de comunista sem propósito, tá feio. Já o termo “caviar”, no sentido supracitado, é usado de forma pejorativa para descrever alguém que se diz socialista mas leva uma vida de luxo. Pobre de mim. Vemos, constantemente, um discurso de uma ameaça comunista no Brasil, e quem não é adepto às ideias do atual presidente e seus comparsas, é comunista. Logo ele, o alecrim dourado que em 1987 ameaçou colocar bombas de pequeno alcance para pressionar o comando do Exército. O colega Camilo Vannuchi, colunista do UOL, definiu muito bem que “o presidente vive na Guerra Fria, divide o mundo em comunistas e capitalistas, traidores e patriotas, pessoas de bem e terroristas. É uma espécie de obsessão, uma ideia fixa. A ele, não basta a hegemonia nas urnas, a vitória no processo democrático. Ele quer "fuzilar a petralhada", mandar a esquerda para a "ponta da praia", convencido de que "o erro da ditadura foi torturar e não matar". E quem é de esquerda que tome tubaína.”

E esse ódio aos artistas, de onde vem? A empresária Paula Lavigne disse que a classe artística está intimidada, e fomos os primeiros alvos. Sabemos que a política bolsonarista escolheu a cultura e a educação como inimigas, e vem promovendo ataques via setor público, promovendo censura, linchamentos de artistas e corte de verbas. Curioso, ou nem tanto, que na ascensão no nazismo na Alemanha, nos anos 1930, os primeiros ataques foram contra a educação e os artistas. Essa guerra cultural que vivemos se beneficia de uma técnica discursiva - a retórica do ódio - que leva o país ao caos social, ao analfabetismo ideológico, à negação da realidade e ao desprezo pela ciência. Sem essa guerra, acho que eles não conseguem manter as massas digitais mobilizadas. Paradoxalmente, com essa guerra, com a política do ódio e a negação de dados objetivos aliada à necessidade de inventar inimigos e histórias caluniosas, fazendo da internet uma terra de ninguém, eles não conseguem se articular para um programa de governo. Não existe um programa de governo! Por isso estamos indo de mal a pior. Mas não vão nos calar. Não vão me calar. Seguirei lutando pelo que acredito, sempre em prol da arte, da cultura, da educação, da democracia e da liberdade. Não nos impedirão de criar, de fazer e de agir, afinal, nem vão nos notar. Eles não têm e não terão, jamais, sensibilidade para nos notar. Agradeço por compartilharem comigo este desabafo, e termino citando uma frase do Tonico Pereira, mestre, amigo e ator comunista caviar: “Me tapem a boca. Me tapem os olhos. Me tapem os ouvidos. Me esmaguem. Isso me incentivará a criar ainda mais.”

 

 

 

 



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Charge de Amarildo