Neutro é o detergente

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Na última semana, o post da atriz global defendendo uma médica cloroquinista gerou repercussão nas redes sociais e na imprensa. Após críticas, ela resolveu se manifestar. O que já estava ruim, ficou ainda pior. A classe ficou um pouco dividida, onde os mais irrelevantes artisticamente acabaram lhe apoiando. Claro, não era de se esperar outra coisa. Depois é o povo consciente que tem delírios comunistas. Mas não estou aqui para falar dela.

A frase “neutro é o detergente” circulou com frequência por esses dias. Eu confesso que adorei, porque acredito que, quem vive de arte e trabalha com cultura, deve se posicionar. Tem quem diga que não se mistura política com entretenimento. Mas isso é falacioso em sua essência, porque tudo que é produzido no mundo tem alguma relação com a política. Gregório Grisa, num artigo para a Obvious, comenta que a neutralidade é uma evidência de fraqueza tão grande quanto a certeza "absoluta". Não tomar partido é tomar partido. Max Weber teria dito que "o neutro já optou pelo mais forte". Vamos entender uma coisa: a questão não é fazer palanque para candidato, afinal, também é um direito não demonstrar apoio ou rejeição a ninguém. É muito maior que isso. Estamos falando de ideologias e responsabilidade. A arte, em geral, é plena contestação e tira a gente da zona de conforto mesmo. O que seria dela sem a manifestação genuína e o desenvolvimento do pensamento? Seu papel não é igual sempre, e varia com a época e com a cultura do lugar. Mas uma coisa é certa: é sempre uma forma de comunicação e expressão. Logo, ela questiona, reflete, informa, opina. Faz uma espécie de testemunho de seu tempo, na medida em que demonstra pontos de vista da sociedade com percepções críticas e valores. Mostra também o que está errado e o que pode mudar. Faz parte de processos múltiplos de semiose.

Macaque in the trees
Dzi Croquettes: o grupo de teatro e dança revolucionário dos anos 70 influenciou artistas e gerações, contra o conservadorismo e em nome da liberdade (Foto: Divulgação)

O ponto aqui é sobre se posicionar. Hoje em dia, contra o fascismo, contra o genocídio, contra a política da morte e o menosprezo pela população. Estamos falando de não só rejeitar, mas protestar contra o movimento regressista que está no poder. O público cobra, sabia? Quem admira um fazedor de arte e se inspira por ele, quer uma posição sobre determinados assuntos. Afinal de contas, estamos falando de pessoas que influenciam pessoas. Tem quem opte por não explicitar na fala, mas nem é preciso. Vá pelas entrelinhas. Não precisa ser abertamente politizado e ter um lado partidário, como imaginam os desentendidos. Basta usufruir da liberdade de expressão para criar e expor ideias de forma poética e mais subjetiva. Acredite, a arte pode ser o melhor e mais proveitoso caminho para o entendimento da política. É só provocar.

Estamos falando da expressão de um povo. Então, o uso da estética para tomar partido de algo é pertinente. Uma matéria recente do colega Ruan Gabriel, destacou que, para Hannah Arendt, “o problema não é quem escolhe o mal, mas quem escolhe a indiferença”. Ela trata do conceito de responsabilidade, “onde todo indivíduo é responsável quando age e quando escolhe não agir”. Imagina o tropicalismo sem ideologia e opinião? E o grupo Dzi Croquettes, as internacionais que chocaram o regime militar, e diante da tentativa de censura, se exilaram em Paris? E os diversos estilos musicais que surgiram como forma de protesto, como a cultura hip-hop, o rock’n roll e a bossa nova? Bob Marley não seria um ícone sem protestar contra injustiças sociais e a favor dos oprimidos. Chaplin, em pleno 1940, satirizou o nazismo e o fascismo em “O Grande Ditador”, seu primeiro filme falado. Brecht e Boal propuseram um teatro que faz pensar e não apenas divertir, onde o engajamento é o X da questão. Euclides da Cunha reporta uma guerra em “Os Sertões”, e Djamila Ribeiro dá uma aula em seu grande - sim, grande - manual antirracista, leitura obrigatória. Estou citando apenas alguns casos, porque a lista é enorme.

Em 2017 e 2018, às vésperas da eleição presidencial, produzi o espetáculo “O Julgamento de Sócrates”, uma adaptação da “Apologia de Sócrates”, de Platão, realizada pelo autor Ivan Fernandes em forma de monólogo. Tonico Pereira dramatizava a defesa de Sócrates, no julgamento que o condenou à morte por envenenamento, por ter ideias diferentes do estabelecido pela sociedade. Através deste caso, a peça debatia a liberdade de expressão e do pensamento no mundo contemporâneo. Ao final das sessões, ouviam-se manifestações espontâneas da plateia, numa mistura de “LIVRE”, “FORA” e “ELE NÃO”. Sabe como Tonico respondia? “VIVA A DEMOCRACIA!” Certa vez, saindo do teatro, um senhor me parou e disse: “Este espetáculo foi escrito para o Lula. Está muito claro isso no texto”. Expliquei que a obra era do Platão, baseado num discurso dado por Sócrates em torno de 399 a.C., e não mudamos o conteúdo, apenas atualizamos situações. Ele insistiu que o texto foi escrito para o ex-presidente, que com certeza tinha dinheiro de partido, e eu era comunista. Não tive como continuar a conversa.

Walter Benjamin, filósofo, ensaísta, crítico literário e tradutor alemão, deixou uma obra que contribuiu para a teoria estética, para o pensamento político e para a filosofia. Em seu brilhante ensaio “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”, de 1936, apresenta uma teoria da arte útil para a formulação das exigências revolucionárias na política da arte. No final do texto, sugere que o fascismo faz deixar as massas alcançarem sua expressão em lugar de permitir que conquistem o que é de direito. Para ele, a politização da arte é um poder de reação e mudança. “Na época de Homero, a humanidade oferecia-se em espetáculo aos deuses olímpicos; agora, ela se transforma em espetáculo para si mesma. Sua autoalienação atingiu o ponto que lhe permite viver sua própria destruição como um prazer estético de primeira ordem. Eis a estetização da política, como a prática do fascismo. O comunismo responde com a politização da arte.”

Não dá mais para ficar calado. Não dá e não podemos, senão eles vão nos engolir. Em pleno dois mil e vinte um, no auge da tecnologia e da informação, porque não usufruir disso para compartilhar ideias e proporcionar reflexões? Mas não. Alguns preferem se ocupar apenas com imagem, jabá e futilidades, em busca de um engajamento doentio e muitas vezes comprado. Artista que é artista provoca e não fica em cima do muro. Como diz Tonico Pereira: “Eu gostaria de ser isento como um cream cracker, mas eu não consigo. Eu tenho muita opinião. Tanto quanto uma pimenta malagueta.” Assino embaixo.



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Dzi Croquettes: o grupo de teatro e dança revolucionário dos anos 70 influenciou artistas e gerações, contra o conservadorismo e em nome da liberdade