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Atividades de cultura têm forte retomada em 2023, aponta pesquisa Datafolha/Fundação Itaú

Música, filmes e séries no streaming puxam consumo e marcam liderança do on-line. Podcast experimenta crescimento, alavancado por jovens. Apresentações artísticas, cinema, museus, centros culturais e outras modalidades de eventos também avançam

Por CADERNO B
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Publicado em 14/12/2023 às 12:15

[Vanessa da Mata] Ouvir música e assistir filmes e séries em plataformas de streaming são as atividades culturais mais realizadas pelos brasileiros Marcos Hermes/Divulgação

Os brasileiros passaram a fazer mais atividades culturais em 2023 no comparativo com 2022. O crescimento foi puxado por consumo on-line, mas atividades presenciais como apresentações artísticas, exposições e visitas a museus e centros culturais também registraram forte crescimento, segundo aponta a quarta edição da pesquisa Datafolha/Fundação Itaú sobre Hábitos Culturais no país.

De acordo com o levantamento, 96% dos entrevistados declararam ter realizado atividades culturais em 2023, entre on-line e presenciais. Quando questionados se realizaram as atividades antes de 2023, o índice verificado é de 89%. A pesquisa ouviu 2.405 pessoas de 16 a 65 anos em todas as regiões do país, por meio de entrevistas presenciais e telefônicas, entre os dias 1º e 28 de setembro. A margem de erro é de 2 pontos percentuais para mais ou para menos. O índice de confiança da pesquisa é de 95%. Cada ponto percentual representa 1,4 milhão de indivíduos.

“Estamos vivendo um ano importante para a retomada da economia da cultura, com a consolidação da volta do público e a reativação plena dos equipamentos”, diz Jader Rosa, superintendente do Itaú Cultural. “A pesquisa traz luz a este novo momento e reafirma o nosso compromisso de oferecer dados e evidências sobre este segmento tão importante para a economia e o bem-estar dos brasileiros”, completa Eduardo Saron, presidente da Fundação Itaú.

De acordo com a pesquisa, ouvir música e assistir filmes e séries em plataformas de streaming são as atividades culturais mais realizadas pelos brasileiros. 82% dos entrevistados declararam ter ouvido música em plataformas digitais em 2023. O número permaneceu estável, em patamar elevado, frente a 2022, quando o índice era de 80%. Já o consumo de filmes e séries on-line avançou de 70%, no ano passado, para 74% dos indivíduos entrevistados este ano.

O consumo de música on-line é de 92% nas classes A/B e de 70% nas D/E. A distância aumenta, entretanto, no caso de streaming de filmes, com 89% da amostra nas classes A/B e 45% nas D/E.
O consumo de podcasts foi outro destaque do levantamento. O produto caiu no gosto dos brasileiros e 48% dos entrevistados dizem ter realizado este tipo de atividade em 2023. Em 2022, o índice era de 42%. Nas regiões metropolitanas em geral, mapeadas pela pesquisa, o índice é de 50% e, no interior do país, os podcasts alcançaram 46% dos indivíduos.

O consumo de música on-line é de 92% nas classes A/B e de 70% nas D/E Foto: Pixabay

A maior parte dos ouvintes deste tipo de plataforma se concentra na faixa de 16 a 24 anos, estrato em que 64% dizem ter acessado programas do gênero. A audiência também é concentrada nas classes A/B, segmento em que 72% afirmam ouvir podcasts. Os que menos escutam podcasts são os indivíduos de 45 a 65 anos, estrato em que apenas 33% dizem consumir estes conteúdos, e indivíduos das classes D/E, segmento onde o alcance é de apenas 26%.

A leitura de livros on-line e e-books também experimentou crescimento, segundo o levantamento Datafolha/Fundação Itaú. A leitura desses produtos em telas saltou de 30% dos indivíduos, em 2022, para 42% da amostra na pesquisa de 2023.

O hábito foi puxado pelo Sudeste, onde 48% declararam ter realizado a atividade, e pelas regiões metropolitanas (46%). Na região metropolitana de São Paulo, o índice chega a 51%. No interior do país, o hábito tem menor alcance, apenas 38%.

Os livros on-line e e-books são mais acessados por mulheres (44%) do que pelos homens (39%). Aqui também os jovens puxam o consumo: 63% dos indivíduos de 16 a 24 anos declaram que tiveram contato com este tipo de produto, contra 28% entre o público de 45 a 65 anos. Mais uma vez, o recorte por classes apresenta diferença significativa. A atividade foi mais intensa nas classes A/B (62%) do que nas D/E (22%).

Os livros on-line e e-books são mais acessados por mulheres (44%) do que pelos homens (39%) Foto: Pixabay

Atividades presenciais
Embora o on-line tenha se consolidado na liderança, as atividades de cultura também avançaram em outras frentes em 2023. O principal salto se deu na vivência de apresentações artísticas (música, dança e teatro) que passaram a ser realizadas por 45% dos entrevistados, índice 27 pontos percentuais maior que os 18% verificados em 2022.

Também houve crescimento do público de cinema (33% viram algum filme na telona, contra 26% em 2022), de exposições e museus (26% este ano, contra 8% em 2022), centros culturais (19% agora contra 11%), teatro infantil (24% frente a 18%), bibliotecas (14% contra 11%) e de seminários (17% este ano contra 13% em 2022).

Oficinas de criação para crianças também viram o público aumentar em 2023 (de 7%, em 2022, para 10%), mesmo fenômeno verificado no caso de saraus de poesia, literários ou musicais, nos quais o público expandiu de 6% para 12%, entre 2022 e 2023.

Também houve crescimento do público de cinema (33% viram algum filme na telona, contra 26% em 2022) Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Declínio e estabilidade
Enquanto a maioria das atividades culturais registrou maior aderência de público, o acesso a cursos on-line, que fez grande sucesso durante a pandemia, desabou. Em 2021, 41% afirmaram fazer cursos de cultura nas plataformas on-line. Em 2022, o índice declinou para 28% e, em 2023, a atividade foi mencionada por apenas 14% dos entrevistados.

A estabilidade ficou com os jogos on-line. 40% da amostra ouvida pelo Datafolha diz que praticou jogos on-line em 2023. O índice era de 39% em 2022. A audiência dos webinares também estacionou na casa de 24%, mesmo patamar, dentro da margem de erro, de 25%, verificada em 2022.

100% das classes A/B fizeram atividades culturais em 2023. Nas classes D/E, índice cai para 88%

Sudeste é a região com maior aderência à retomada. Sul tem o menor índice. 82% fizeram atividades presenciais. Fatores econômicos afastam 19% dos indivíduos das atividades

O levantamento realizado pelo Datafolha, em conjunto com a Fundação Itaú, mostrou que 100% dos indivíduos das classes A/B entrevistados declararam ter realizado alguma atividade cultural nos últimos 12 meses, patamar semelhante ao da classe C (98%). Nas classes D/E, o índice cai para 88%.

A realização de atividades culturais foi maior entre os indivíduos conforme mais escolaridade. O índice entre os que têm ensino superior foi de 100%. Entre os que contam apenas com o ensino fundamental, a taxa cai para 89%. Entre os que cursaram o ensino médio o indicador foi de 99%.

O Sudeste é a região com maior índice de pessoas que declararam ter realizado alguma atividade cultural em 2023 (99%), seguida por Nordeste (96%), Norte (95%), Centro-Oeste (94%) e Sul (91%). Na região metropolitana de São Paulo, o índice foi 99%, no Rio, 98%. No interior do país o índice ficou na marca de 96%, similar à média para as regiões metropolitanas em geral, mapeadas pela pesquisa.

Atividades presenciais

De acordo com os dados, 3% dizem que tiveram acesso a uma atividade cultural somente a cada dois ou três meses Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Segundo a pesquisa, 82% dos indivíduos declararam que fizeram alguma atividade presencial de cultura em 2023. Nas classes A/B, o índice foi de 93%, contra 84% na classe C e 70% nas D/E. O índice de aderência foi semelhante entre brancos (85%) e negros (83%). Não se observou também variação relevante por gênero, com 84% das mulheres e 80% dos homens tendo realizado atividades presenciais de cultura no período.

Entre os que responderam ter realizado atividades culturais presenciais em 2023, quando perguntados sobre a frequência, 29% dos entrevistados declararam ter realizado alguma atividade ao menos uma vez por semana, 12% fizeram uma vez a cada 15 dias e 24% uma vez por mês. Somando os três blocos, 64% dos entrevistados realizam ao menos uma atividade de cultura por mês.

De acordo com os dados, 3% dizem que tiveram acesso a uma atividade cultural somente a cada dois ou três meses, 11% a cada seis meses, 8% uma vez por ano e 8% declararam que realizaram alguma atividade cultural menos de 1 vez por ano.

Fatores de motivação
Convivência e interação com outras pessoas são apontados como os principais motivadores para realizar atividades culturais presenciais, de acordo com 28% da amostra. Espairecer, distração, diversão e lazer são apontados por 23% dos respondentes. Adquirir conhecimento (20%), conhecer novos lugares (12%), estar com a família e os filhos (12%) e novas experiências (11%) também figuram como fatores de estímulo.

Entre os fatores que inibem a realização de atividades culturais presenciais estão a insegurança e a violência (20% na amostra geral; 32% na região metropolitana do RJ) e a distância de eventos e equipamentos culturais (15%). Cansaço também figura como fator de desestímulo para 9% da amostra, mesmo índice verificado para superlotação.

Questões financeiras foram apontadas como empecilho por 19% dos respondentes: valor dos ingressos (12%), gastos com deslocamentos (7%) e falta de dinheiro (4%).

As praças são os locais onde as pessoas mais realizam atividades culturais no Brasil Roberto Herrrera

Locais
As praças são os locais onde as pessoas mais realizam atividades culturais no Brasil, de acordo com 71% dos entrevistados. Na sequência surgem parques (63%), shoppings (55%), cinemas (42%), escola (41%), clubes (34%), teatros (24%), bibliotecas (20%) e museus (19%). Em São Paulo, 33 % dos entrevistados apontaram os CEUs como locais de realização de atividades culturais. Igrejas e casas religiosas foram apontadas por 4% dos entrevistados.

Gasto médio com atividades de cultura presencial é de R$143 por mês. No on-line, valor dispendido cai para R$108

Centro Oeste e Norte são as regiões que mais gastam com atividades culturais presenciais. Entre as atividades on-line, Sudeste tem a maior média

A pesquisa também investigou o perfil de gastos dos brasileiros com atividades culturais. De acordo com o levantamento, 20% dos entrevistados dizem só fazer atividades gratuitas (o índice sobre para 36% nas classes D/E). Já 39% dos entrevistados dizem fazer mais atividades gratuitas que pagas, 33% declaram fazer mais atividades pagas que gratuitas (48% nas classes A/B e 19% nas classes D/E) e somente 8% declaram fazer somente atividades culturais pagas.

Em 2023 o gasto médio dos indivíduos com atividades culturais presenciais foi de R$ 143 por mês. No Centro-Oeste, onde se verifica o maior patamar, o valor sobe para R$ 161. No Nordeste, com menor valor dispendido, o gasto médio mês é de R$ 128. Os municípios de grande porte também se destacam, com média de R$153. Nas cidades de porte médio, o valor foi de R$ 133 e nos municípios de pequeno porte a média verificada ficou em R$ 138.

O gasto médio com as atividades on-line foi R$ 108. No Sudeste, o valor sobe para R$ 115. No Nordeste, com o valor mais baixo, o gasto médio verificado foi de R$ 94. A pesquisa mostra que a região metropolitana do Rio é a que mais gasta com cultura on-line: R$ 116 por mês. No interior do país, o gasto médio é de R$ 106 com este tipo de atividade.

No recorte por classe social, a pesquisa mostra que a classes A e B comprometem em média R$ 170 reais com atividades culturais presenciais e R$ 143 no on-line. Na D e E, o gasto médio com cultura presencial é de R$ 114 e de R$ 79 no on-line. 

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