Brasil ganha prêmio especial no Festival de Berlim

Berlinale divulga vencedores de sua 73ª edição

Por MYRNA SILVEIRA BRANDÃO

Ana Luiza Ferreira em 'Infantaria'

O Brasil ganhou o Prêmio do Júri Internacional – patrocinado pela Agência Federal de Educação Cívica – de melhor curta-metragem da Mostra Geração 14plus, no Festival de Berlim. O troféu  foi para “Infantaria”, de Laís Santos Araújo. Em declaração por e-mail para o JORNAL DO BRASIL, a cineasta expressou o significado de ter conquistado o prêmio: “Ganhar um prêmio de melhor filme na Berlinale é algo muito especial pra gente. “Infantaria” é um filme de Alagoas, feito com recursos da Lei Aldir Blanc. Toda a equipe trabalhou muito para o resultado que a gente teve. É lindo demais compartilhar o filme em outro país e ter uma resposta como essa. Esperamos que o prêmio propulsione ações de políticas públicas em Alagoas”, destacou a diretora.

O Festival de Berlim, um dos três maiores eventos cinematográficos do mundo, ao lado de Cannes e Veneza, divulgou nesse sábado (25) os premiados com os Ursos de Ouro Prata e Cristal de sua edição 2023.

A diretora do festival, Mariëtte Rissenbeek, e o diretor artístico, Carlo Chatrian, deram início à cerimônia de gala celebrando o aspecto político do festival, de grande importância para os realizadores.

Rissenbeek agradeceu a Vladimir Zelensky por seu depoimento em vídeo apresentado na cerimônia de abertura do evento. E lamentou pelas vítimas da tragédia humanitária ocorrida após o terremoto na Turquia e na Síria, ocorrido apenas alguns dias antes da realização da Berlinale.

A seguir, Kristen Stewart, presidente do Júri Oficial, deu início à divulgação dos prêmios afirmando que os membros do júri são pessoas bastante especiais. “Quero aprender com as experiências deles. Sinto que vivemos vários meses em duas semanas, então foi bastante intenso”, declarou.

“Sur l’Adamant”, de Nicolas Philibert (França), foi o grande vencedor do Urso de Ouro.

 

 

O filme, realizado com uma narrativa documental, se passa em um centro psiquiátrico com uma estrutura flutuante única localizada no meio do rio Sena, no centro de Paris.

Philibert começou exclamando: “Vocês são loucos ou o quê”? A seguir disse que como seu inglês não era bom e não seria capaz de improvisar, iria então ler algumas palavras. “É curto, prometo”. Antes, agradeceu aos parceiros, dedicou o filme à sua filha, e leu o texto que ao final expressa um desejo seu: “Gostaria de algo sobre uma humanidade comum, o sentimento de compartilhar um mesmo mundo”, destacou bastante emocionado.

“Afire”, de Christian Petzold (Alemanha), ganhou o Urso de Prata de Grande Prêmio do Júri. O consagrado cineasta disse que estava muito feliz e honrado. “Quero agradecer ao júri e aos atores fantásticos com os quais passei o verão, e também a todas as pessoas por trás das câmeras”.

O Prêmio do Júri foi para “Mal viver”, de João Canijo (Portugal).

O filme conta a história de uma família de cinco mulheres que herdaram um hotel e que o tentam salvar da ruína.

Após agradecer ao júri e à Berlinale, disse: “Devo agradecer à minha equipe, composta quase que completamente por mulheres”.

O Urso de prata de Roteiro foi para Angela Schanelec por “Music”, de Angela Schanelec (Alemanha / França / Sérvia).

O Urso de Prata de melhor direção foi conquistado por Philippe Garrel, com “Le grand chariot” (The Plough).

Garrel iniciou sua fala exclamando: “Vida longa à Revolução Iraniana”. E continuou: “Se me permitem, gostaria de dedicar este Urso à mulher que amo, que está aqui, e aos meus filhos, que fizeram este filme por mim. Queria dedicá-lo ainda a Jean-Luc-Godard, que foi um grande mestre para mim e para muitos de nós, e que infelizmente já não está mais entre nós”.

O Prêmio de Interpretação Principal foi para Sofia Otero em “20.000 especies de abejas”, de Estibaliz Urresola Solaguren (Espanha). Sofia disse que ainda não conseguia acreditar: “Isso é muito especial para mim. Agradeço à equipe técnica do filme e aos figurinistas e maquiadores, ao diretor e aos produtores. Obrigada”, repetiu, sem disfarçar a emoção.

O de Interpretação coadjuvante foi para Thea Ehre em “Till the end of the night” (Alemanha) de Christoph Hochhäusler.

O Urso de Ouro da mostra de curtas-metragens foi para “Les chenilles”, de Michelle Keserwany e Noel Keserwany (França).

E o Urso de Prata foi para “Marungka Tjalatjunu” de Matthew Torne e Derik Lynch (Austrália).

O Urso de Cristal da Geração KPlus, mostra destinada ao público infantil, foi para o longa “Sweet as”, de Jub Clerc (Austrália). O de curta-metragem foi para “Cloosing Dynasty), de Lloyd Lee Choi (EUA).

O Urso de Cristal da Geração 14Plus, mostra destinada ao público adolescente, para melhor longa-metragem, foi para “Adolfo”, de Sofía Auza (EUA/México). E para melhor curta-metragem foi para “And me, I’m dancing too”, de Mohammad Valizadegan (Irã / Alemanha / República Tcheca).

O Prêmio de Audiência da mostra Panorama foi conquistado pelo longa-metragem de drama “Sira”, de Apolline Traoré (Burkina Faso/França/Alemanha/Senegal), e pelo longa-metragem documentário “Kokomo City”, de D. Smith (EUA)

Prêmio da Paz
Seven winters in Teheran, de Steffi Niederzoll, Alemanha/França

Prêmio da Anistia Internacional
Al Murhaqoon (The Burdened), de Amr Gamal
Iêmen / Sudão / Árabia Saudita

 

O mundo de hoje nas telas da Berlinale

O Festival procurou manter o viés de ser a mais politizada das mostras cinematográficas, apresentando uma programação de qualidade com muitos filmes provocando reflexões importantes.

Um ponto alto foi a estreia mundial de “Superpower”, de Sean Penn e Aaron Kaufman, documentário que traz um perfil do presidente ucraniano Volodymyr Zelensky. No lançamento, Penn subiu ao palco e agradeceu aos organizadores da Berlinale “por dedicar tanto respeito à luta que os ucranianos estão travando”. O presidente ucraniano, por um link de vídeo, convocou os cineastas a tomar partido no que ele chamou de batalha entre liberdade e tirania, traçando um paralelo da invasão russa da Ucrânia com o Muro de Berlim.

 

Brasileiros

O Brasil teve significativa participação em mostras paralelas, a principal delas, já detalhada acima com o premiado “Infantaria”, de Laís Santos Araújo, na mostra Geração 14-Plus.

A participação de “Propriedade”, de Daniel Bandeira, exibido na Panorama, mostra na qual concorria ao prêmio de audiência, é também um destaque importante. O filme não ganhou o troféu, mas a trama impressionou o público que lotou as sessões da paralela.

Vale também mencionar o filme “As Miçangas”, de Rafaela Camelo e Emanuel Lavor, que foi um dos concorrentes na Berlinale Shorts (mostra de curtas-metragens do festival).

O Brasil integrou também a Fórum – com “O Estranho”, de Flora Dias e Juruna Mallon; e a Fórum Expanded, com “A Árvore”, de Ana Vaz e Bruce Baillie.

Marcou presença ainda em uma sessão especial de “A Rainha Diaba” (1974) de Antonio Carlos Fontoura.