CADERNOB
Cidade invadida pelo mar é retratada em filme
Por MYRNA SILVEIRA BRANDÃO
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Publicado em 06/01/2022 às 19:22
Alterado em 06/01/2022 às 19:22
Legenda: Ruínas do Pontal de Atafona Foto: Maria Antônia Silveira Gonçalves
Desde 1966, o balneário de Atafona, em São João da Barra, município do Norte Fluminense, já teve dezenas de seus quarteirões tragados pelo mar, causando a destruição de mais de 500 casas e deixando centenas de famílias desabrigadas.
Isso se deve ao assoreamento do rio Paraíba do Sul, que tem seu delta – tipo de foz em que o rio desemboca no mar – em Atafona. Com menor volume, o rio não consegue fazer frente ao mar e transportar sedimentos em quantidade suficiente para barrar o avanço das águas. Também contribuem para o processo condições naturais, como os fortes ventos na localidade e a dinâmica das correntes marítimas.
Como outras regiões no mundo, Atafona é mais uma que sofre com a erosão costeira, fato que pode piorar num futuro próximo, diante das mudanças climáticas e o aumento no nível dos oceanos.
Em Atafona, o fenômeno destoa do cenário tranquilo do pequeno distrito com cerca de 7 mil habitantes, onde o barulho é pouco e não há edifícios. Desses existem apenas ruínas do único que havia na região, o Hotel do Julinho, derrubado pelas ondas em 2008.
Esse é o tema do documentário que está sendo realizado por Tiago Ribeiro Lima Pessanha, estreante na direção.
A equipe, também realizando seu primeiro trabalho no cinema, é orientada pelo professor Felippe Mussel e conta com a roteirista Antonia Quintiliano, a técnica de som Luiza Furtado, o compositor da trilha sonora Bauer França, o coprodutor Lucas Munt e a fotógrafa Maria Antônia Silveira Gonçalves.
A fotografia, por sinal, será um fator importante no documentário, já que tudo começou numa época em que ela não era tão acessível como é hoje. As fotos disponíveis são poucas, o que torna as perdas emocionais mais marcantes que as financeiras. Muitos moradores já deixaram Atafona, mas a grande maioria ainda resiste e permanece, na esperança, quem sabe, que algo aconteça e as coisas possam tomar outro rumo. O que certamente ficou mais difícil em face da pandemia, que também obrigou alterações no cronograma de filmagem.
“Nossa meta é que o filme possa ser concluído e lançado ainda este ano”, diz Pessanha – nascido em Campos de Goytacazes, que fica a cerca de 40 km de Atafona – revelando que a ideia de realizar o documentário surgiu de sua própria história com o local.
“Eu frequento Atafona desde pequeno, principalmente nos verões em que a praia enche e o movimento aumenta. Ao longo de minha vida fui vendo a paisagem mudar drasticamente, uma casa da minha família foi destruída pela força do mar, e essa mudança constante me faz querer registrar esse momento único em que se encontra o Pontal, visto que com a passagem do tempo ele nunca mais será o mesmo. O propósito do filme é registrar o agora de um lugar que está em profunda modificação, chamando atenção para o papel do ser humano no agravamento do problema e buscando suscitar uma responsabilidade ecológica em relação a nossos bens naturais”, ressalta o diretor.
O filme de Pessanha adquire, de fato, uma importância adicional, ou seja, não só sob o ponto de vista do cinema, mas também sob o aspecto documental e que certamente trará mais uma contribuição para os estudos que estão sendo realizados mundialmente em locais onde a erosão costeira ocorre.