Silvio Tendler e a engajada relação com o cinema

Além de suas atividades atrás das câmeras – que inclui vídeos culturais e projetos de marketing político – Tendler tem outras atuações na área cinematográfica como a condução de festivais, tendo sido pelo segundo ano consecutivo curador do Festival de Brasília. A edição 2021, encerrada no último dia 14, certamente ficará nos anais do evento como uma das mais relevantes de sua história

Foto: Gabriela Nehring/divulgação
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Além de produtor, roteirista e fotógrafo, Silvio Tendler continua em plena atividade em sua carreira como diretor, que completou quatro décadas e já soma 41 filmes. O primeiro, em 1981, “Os Anos JK – uma Trajetória Política”, cobre a história do Brasil no período 1945 / 1970, com foco no presidente Juscelino Kubitschek. O documentário ganhou em Gramado o Prêmio Especial do Júri e o de Montagem para Francisco Sérgio Moreira e Gilberto Santeiro.

Seguiram-se vários outros sobre personalidades famosas como João Goulart, Glauber Rocha, Castro Alves, Oswaldo Cruz, Josué de Castro e muitos abordando temas sociais e políticos.

Mas além de suas atividades atrás das câmeras – que inclui vídeos culturais e projetos de marketing político – Tendler tem outras atuações na área cinematográfica como a condução de festivais, tendo sido pelo segundo ano consecutivo curador do Festival de Brasília. A edição 2021, encerrada no último dia 14, certamente ficará nos anais do evento como uma das mais relevantes de sua história.

Embora as circunstâncias da pandemia e a turbulência atual que cerca o cinema brasileiro, Tendler não parou de filmar. Em 2020 realizou “Em Busca de Carlos Zéfiro ou Por Tanto Leite Derramado”, “Nas Asas da Pan Am”, “Chico Mário – A Melodia da Liberdade”, e acabou de concluir “A Bolsa Ou a Vida”, que teve estreia mundial em setembro na 10ª Mostra Ecofalante.

O filme ainda não tem data para entrar no circuito, assim como a versão completa do seu esperado “Em Busca de Carlos Zéfiro...”, sobre Alcides Caminha (1921-1992), famoso cartunista dos catecismos eróticos, que escreveu sob esse pseudônimo. Ele foi também compositor, tendo sido parceiro de Nelson Cavaquinho em três sambas, um deles, o tocante “A Rosa e o Espinho”.

Como diz Tendler nesta entrevista exclusiva ao Jornal do Brasil, Caminha tentou romper com os limites do erotismo. “Zéfiro conseguiu trazer à tona as entranhas de uma sociedade moralista apenas nas aparências, já que é permissiva por debaixo dos panos”, afirma o cineasta, revelando o que o motivou a realizar o filme.

“Em primeiro lugar, a memória. Zéfiro me traz a lembrança da infância, o rompimento com as proibições e a descoberta do prazer”, atesta o diretor, comparando o cartunista com destacados nomes da história contemporânea.

“Considero Zéfiro tão importante quanto grandes líderes políticos ou mesmo revolucionários. Uma vez, falei isso com uma curadora artística e ela se ofendeu com minhas palavras. Por que Marcuse seria mais importante do que Zéfiro quando foi o desenhista que fez uma geração descobrir o prazer?”, questiona Tendler.

Como em tantas obras suas, o filme traz uma contribuição ímpar para a memória fílmica e histórica através de depoimentos de peso: entre outros, do professor da USP José Carlos Sebe Bom Meihy, do filósofo francês Dany-Robert Dufour e do antropólogo Roberto DaMatta.

A versão completa de “Em Busca de Carlos Zéfiro ou Por Tanto Leite Derramado” teve até agora uma única exibição no Festival de Recine. Segundo informações da Caliban, produtora do filme, ainda não há data para seu lançamento no circuito, o que é confirmado pelo cultuado cineasta, totalmente envolvido no momento com o recente “A Bolsa ou a Vida”.

Além de mostrar a incompatibilidade do neoliberalismo com um projeto humanista, “A Bolsa ou a Vida” é um filme que traz muitos questionamentos na pós-pandemia. Entre outros, deixa no ar a pergunta sobre qual alternativa receberá mais atenção: o acúmulo de riqueza por uma elite ou a qualidade de vida para todos com menos desigualdade?

Os dois filmes têm a assinatura do cinema de Tendler. Um cinema que tem um forte viés histórico, social e político, mas também fala de poesia, música, religião, economia, sexualidade, ecologia e memória.

Como ressaltou ao final da entrevista, sua luta será sempre a busca por uma sociedade que não vai deixar a história morrer.

“Vamos continuar fazendo filmes, lutando pela transformação social e democrática e por um mundo melhor”, resumiu Tendler sobre sua importante e necessária obra. São registros que sem dúvida representam, além do viés idealista, uma grande contribuição para a memória histórica e cultural do País.

 

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