Marcos Magalhães e Juliana Vicente ganham mostras na Itaú Cultural Play

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A partir de 3 de dezembro (sexta-feira), a plataforma de streaming Itaú Cultural Play acrescenta ao seu catálogo 11 filmes de cineastas com sólida produção no circuito alternativo. 

O antropólogo, indigenista e documentarista franco-brasileiro, criador do projeto Vídeo nas Aldeias, Vincent Carelli ganha mostra com três de seus principais filmes: Martírio, Corumbiara e Antônio e Piti. Em outro recorte, a plataforma destaca o autor de diversos curtas-metragens em animação, Marcos Magalhães, agregando em seu catálogo Meow, Animado, Estrela do oito pontas, Tem boi no trilho e Mão-mãe. A diretora, roteirista, produtora e fundadora da Preta Portê Filmes, Juliana Vicente ganha mostra, com dois títulos: As minas do rap e Cores e botas. Para concluir as novidades da semana, o filme Ganga Zumba incrementa a mostra Zózimo Bulbul.

Mostra Vincent Carelli

Indigenista e documentarista, Carelli é um nome essencial do cinema documental no Brasil. Criador do Vídeo nas Aldeias, projeto de formação de cineastas indígenas, hoje com mais de 70 obras realizadas, recebeu em 1999 o Prêmio Unesco, pelo respeito à diversidade cultural.

Com Corumbiara, de 2019, ele conquistou dois troféus no Festival de Gramado. No filme, a gleba homônima leiloada durante o governo militar, em Rondônia (RO), é cenário de um massacre de indígenas, em 1985. O caso é denunciado por Marcelo Santos, indigenista, e registrado por Vincent Carelli, mas é abafado pelas autoridades. Décadas depois, sobreviventes são encontrados e o fio dessas memórias, puxado a partir da versão das próprias vítimas.

Martírio, realizado em 2016, tem também como narrativa o genocídio de povos tradicionais. Em 1980, Carelli registrou em vídeo o nascimento da grande marcha de retomada das terras Guarani Kaiowá, no Mato Grosso do Sul. Passados 20 anos, ele revisita o movimento e escancara as origens e o contínuo aniquilamento desta população, enquanto governos se sucedem no poder sem abrir os olhos para a situação. Mundialmente premiado, ele é um dos mais relevantes e impactantes documentários sobre o genocídio indígena. Conta com entrevistas e potentes imagens de arquivo –como a do então jovem Ailton Krenak pintando com tinta de jenipapo seu rosto, em discurso na Assembleia Constituinte, de 1988. Apresenta a cultura Guarani Kaiowá e provoca reflexões sobre o papel das instituições governamentais e do agronegócio.

Antônio e Piti, de 2019, conta a história de Dona Piti, filha de um soldado da borracha, e Antônio, indígena do povo Ashaninka, originário do Peru, em uma revolucionária história de amor, de luta pela terra e pela sobrevivência da aldeia Apiwtxa, na Amazónia brasileira. Na obra, o relacionamento afetivo é apenas um pretexto para refazer a trajetória de comunidades originárias da fronteira entre o Peru e o Brasil, trazendo à tona a violência contra os indígenas e reforçando a sobrevivência das culturas tradicionais. Todo este universo é apresentado a partir do olhar dos próprios protagonistas, já que o filme é co-dirigido por Wewito Piyãko, artista visual e realizador formado no projeto Vídeo nas Aldeias.



Mostra Marcos Magalhães

Magalhães é um dos pioneiros do cinema de animação no Brasil, é um dos diretores do Festival Internacional de Animação do Brasil – Anima Mundi, doutor em design e professor.

Em Meow, ganhador do Prêmio Especial do Júri no Festival de Cannes, em 1982, uma paisagem bucólica vai desaparecendo até dar espaço aos arranha-céus de uma metrópole. Enquanto isso, personagens fogem de uma sirene da polícia. Um gato em cima de um muro pede leite para o seu dono. O bichano toma um, dois, quatro pires e mia pedindo mais. Até que o Tio Sam lhe serve um refrigerante. Embalado por uma trilha de rock, o curta é uma divertida crítica sobre a sociedade de consumo.

Em Animando, filmado no National Film Board of Canada, em 1983, e premiado como Melhor Filme Didático no Festival de Espinho, em Portugal, um animador tenta encontrar a técnica ideal para dar vida ao seu personagem. Neste passeio pelas diferentes formas de animar, criador e personagem terminam por se confundir durante o processo de criação, desde a primeira ideia surgir até chegar aos contornos e movimentos. Abusando do humor e embalado por diferentes gêneros musicais, o curta tem um toque chapliniano que lembra as antigas sessões de cinema.

O artista Fernando Diniz (1918-1999) permaneceu internado por mais de 50 anos no Centro Psiquiátrico Pedro II, no Rio de Janeiro. Em Estrela do oito pontas, produzido por Marcos Magalhães, é visto o seu processo criativo com desenhos, modelagens e animações. A sua produção, estimada em mais de 30 mil obras, atualmente integra o acervo do Museu de Imagens do Inconsciente, fundado em 1952, pela psiquiatra Nise da Silveira, homenageada na série Ocupação, do IC, em 2017. Magalhães acompanhou por cinco anos o processo de criação de Diniz. O filme representa a importância da defesa dos direitos humanos, da liberdade, do direito de viver em sociedade e de um tratamento humanizado para pessoas com transtornos mentais. O curta, realizado com mais de 40 mil desenhos de Diniz, recebeu prêmios de melhor direção, montagem e música no Festival de Gramado, em 1996.

Mão-mãe é um dos primeiros filmes da carreira do animador. Foi produzido com recursos simples, com destaque para as formas e silhuetas e menos para cores e cenários elaborados. Conta a história de um bebê, que nasce e cresce sob o domínio de uma mão gigante, que o alimenta e rege seus passos até a adolescência, quando ele se rebela, passa a fugir dela e até a agredi-la. Já adulto, ele encontra um pé gigante e teme ser novamente coagido, até que resolve acabar de vez com a opressão. Provocativo, crítico, divertido e com um tema sempre atual, o curta apresenta características comuns aos projetos futuros do diretor, como Meow.

Tem boi no trilho, conta a história de um bezerro que se desgarra da boiada, atraído por um trem. Ao notar seu sumiço, o vaqueiro inicia uma caçada que passa pelos trilhos enquanto uma locomotiva em movimento, segue levando outros bois. O que parecia terminar em um trágico desastre, porém, cede lugar a um final inesperado. O curta agrada adultos e diverte as crianças nesta narrativa sem diálogos, que brinca com climas de tensão e comédia. Conta com a colaboração dos animadores Aída Queiroz e Cesar Coelho, companheiros de fundação do Anima Mundi, hoje um dos principais eventos de animação no mundo.



Mostra Juliana Vicente

Em As minas do rap, a diretora mostra que artistas como Negra Li, MC Gra, Karol Conká, MC Soffia e outras mulheres conquistaram destaque na música brasileira, mas nem sempre foi assim. Historicamente, as mulheres demoraram a entrar no cenário do hip hop nacional. O documentário faz um panorama retrospectivo sobre grupos, artistas e o próprio movimento. Entrevistas, shows, materiais de arquivo e imagens de bastidores são tecidos neste mosaico de histórias. O hip hop é apenas a linha guia deste encontro de corpos, faixas etárias, locais origens para que a diretora apresente questões sobre machismo, racismo, preconceito e protagonismo feminino.

O curta metragem Cores e botas, dirigido por ela, mas voltado para as crianças, tem como protagonista Joana, uma menina negra, fã da Xuxa que tem um sonho comum a muitas garotas dos anos 80: ser paquita. Porém, nunca se viu uma paquita negra no programa. De forma lúdica e sensível, a obra trata de temas estruturais da sociedade brasileira, como racismo, preconceito, diferenças de classe, consumo e meritocracia, fazendo o público imediatamente se relacionar com as personagens e situações. Apesar de retratar os anos 80, o curta segue atual, com exibições em mais de 50 festivais no Brasil e no mundo, colecionando premiações.



Mostra Zózimo Bulbul

É agregado à mostra dedicada a este ator, diretor e roteirista, disponível desde o início do mês, o filme Ganga Zumba, de 1964, com Antônio Pitanga, Cartola, Eliezer Gomes, Luiza Maranhão e Jorge Coutinho no elenco. Ele narra a saga do mítico herói negro que dá nome ao filme, líder da luta contra a escravidão e a exploração colonial portuguesa no século XVII. Ao lado de seus companheiros, também mão-de-obra escravizada em um latifúndio de cana, Ganga Zumba arquiteta o plano que os levará à liderança do Quilombo dos Palmares.

Baseado no romance homônimo de João Felício dos Santos, o filme é considerado um marco do Cinema Novo. Na contramão do registro documental comum a tantas obras do período, o primeiro longa de Carlos Diegues investe em uma narrativa puramente ficcional, com tons expressionistas.



A Itaú Cultural Play

Lançada em 19 de junho, dia da celebração do cinema brasileiro, a Itaú Cultural Play começou com um catálogo formado por 135 títulos dos 26 estados brasileiros e o Distrito Federal. Constantemente ampliado desde então, já ultrapassou a marca de 200 filmes disponíveis, entre ficção, documentários, séries documentais e de ficção, animações para crianças e para adultos, produções experimentais, entrevistas, palestras, curtas e longas-metragens.

Com acesso gratuito, a plataforma de streaming de cinema brasileiro é acessível para dispositivos móveis IOS e Android, e pode ser acessada pelo site itauculturalplay.com.br.

 

SERVIÇO: Itaú Cultural Play - novos lançamentos /3 de dezembro de 2021 (sexta-feira) / LINK  

Mostra Vincent Carelli

Corumbiara (2009) / Duração: 117 min / Classificação indicativa: livre

Martírio (2016) / Duração: 160 min / Classificação indicativa: 12 anos (drogas ilícitas e violência)

Antônio e Piti (2019) / Duração: 78 min / Classificação indicativa: livre

 

Mostra Marcos Magalhães

Meow (1981) / Duração: 8 min / Classificação indicativa: livre

Animando (1983) / Duração: 13 min / Classificação indicativa: livre

Estrela de oito pontas (1986) / Duração: 12 min / Classificação indicativa: livre

Tem boi no trilho (1988) / Duração: 6 min / Classificação indicativa: livre

Mão-mãe (1979) / Duração: 6 min / Classificação indicativa: livre

 

Mostra Juliana Vicente

As minas do rap (2015) / Duração: 14 min / Classificação indicativa: livre

Cores e botas (2010) / Duração: 16 min / Classificação indicativa: livre

 

Mostra Zózimo Bulbul

Ganga Zumba (1964) / Duração: 120 min / Classificação indicativa: 10 anos (violência)

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