Coproduzido com o Brasil, filme chileno traz Caio Blat no elenco

História do violento grupo nacionalista de extrema direita Pátria y Libertad, financiado pela elite econômica do Chile. Blat é o protagonista

Foto: Pandora Filmes
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“Aranha”, do chileno Andrés Wood, que estreou nos cinemas brasileiros no final de setembro, traz à tona o passado do violento grupo nacionalista de extrema direita Pátria y Libertad, financiado pela elite econômica do Chile, resgatando um período conturbado na história do País. Do lado brasileiro, além de Blat, que vive o líder do movimento, integram o projeto a produtora Paula Cosenza e profissionais do departamento de som.

A história segue Inés, Justo e Gerardo, integrantes do grupo que defendia a tomada à força do governo de Salvador Allende e o golpe militar de Augusto Pinochet, o ditador mais violento da América do Sul.

Como o filme se desenvolve em dois tempos – no começo dos anos 1970 e na atualidade –, Inés é interpretada por duas atrizes, a argentina Mercedes Morán e a espanhola Maria Valverde.

O título do filme buscou inspiração na versão suástica da organização terrorista, que tem uma estrutura não linear, o que é muito pertinente para mostrar o quanto o passado e o presente se confundem e como os elementos nocivos vão atravessando gerações, sempre prontos a renascer cheios de novos seguidores.

“Aranha” estreou na Europa e no Chile em 2019, quando o país andino era palco de intensas manifestações populares: estudantes, trabalhadores, cada categoria com sua pauta. O Chile, que foi laboratório das experiências econômicas neoliberais, era palco de uma situação com alto nível de desemprego, grupos de sem-teto e pessoas brigando por comida nas ruas.

Indicado ao Goya e escolhido para representar o Chile no Oscar, o filme incorpora jornais e imagens da época. O diretor esclarece que o contexto é real, mas os personagens são fictícios. “O filme é sobre pessoas que querem negar o passado, porque lhes convém. As mudanças operadas na Constituição visam impedir a repetição dos fatos, mas eu acho que ainda há muita coisa a ser explorada sobre os anos Pinochet. As coisas continuam ressoando”, destacou na coletiva após a projeção em Toronto.

Nascido em 1965 em Santiago, Andrés tinha 8 anos quando houve o golpe militar, em 11 de setembro de 1973. Sua trajetória é das mais bem-sucedidas não apenas no cinema chileno, mas também internacionalmente. “La Fiebre del Loco” participou de Veneza e Toronto; “Machuca” estreou na Quinzena dos Realizadores, em Cannes; “La Buena Vida” venceu o Goya, o Oscar espanhol; e “Violeta Foi para o Céu”, ganhou o Prêmio do Cinema Mundial, em Sundance.

Blat, por sua vez, é paulista, 41 anos, com significativa participação em novelas na televisão e em diversos filmes na maioria das vezes como protagonista. O ator tem trabalhado com diretores consagrados como Domingos de Oliveira, Cao Hamburger, Luiz Fernando Carvalho e Hector Babenco, este em “Carandiru”, já um clássico do cinema brasileiro.

É também detentor de vários prêmios: Kikito em Gramado de melhor ator em “Uma Longa Viagem”, de Lúcia Murat; melhor ator coadjuvante no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro de 2011 por sua atuação em “As Melhores Coisas do Mundo”, de Laís Bodanzky; e um grande sucesso no Festival de Berlim, com Bróder, de Jeferson De, que lhe rendeu também o Kikito de melhor ator em Gramado.

Na entrevista exclusiva com o Jornal do Brasil Caio falou sobre “Aranha”, sobre seu trabalho com Andrés Wood, o desafio de interpretar Antonio e o momento atual que estamos vivendo no cinema e no mundo.

JORNAL DO BRASIL - Os personagens que você tem interpretado têm pouco em comum e nos levam a concluir que são cuidadosamente escolhidos. O que mais o motiva para aceitar um papel, o instintivo fala mais que o racional?

CAIO BLAT - Os personagens que me motivam têm tido sempre uma ligação com algum
fato ou trabalho anterior. Eu fiz a peça Grande Sertão: Veredas com a Bia Lessa – que foi uma coisa muito marcante – e logo depois veio o convite do Guel Arraes para fazer o filme com o mesmo tema. No caso do “Aranha”, eu tinha o sonho de iniciar uma carreira latino
americana. Paralelamente, o Andrés (Wood) é um dos caras que eu admirava desde que ele realizou “Machuca”. Sou fascinado pelo trabalho dele, então foi quase um milagre ter trabalhado com ele depois de tê-lo admirado por tantos anos. Foi uma experiência realmente única raríssima, e muito preciosa.

E em “Aranha” – que você vive o líder do grupo – o que mais lhe atraiu para interpretar Antonio?

O personagem Antonio, do grupo Pátria y Libertad, eu achei fascinante e muito parecido com a história brasileira de Família e Propriedade – essa coisa de classe média, conservadora de direita apoiando as ditaduras latino-americanas, apavoradas com a ameaça comunista. Então eu achei que era um personagem fascinante não só da história do Chile, mas da América Latina. Tinha também muito a ver com a situação atual que nós estamos vivendo – governantes com fuzis, secretário de cultura posando com fuzis – de certa maneira está tendo muita coisa de volta. Não fazem nada pela cultura, além de boicotar a cultura, o jornalismo, o seu trabalho de jornalista está sempre ameaçado. Um flashback, um reacionarismo que estava adormecido desde a ditadura está mais presente do que nunca.
Os discursos fascistas estão na rua, manifestações pedindo fechamento do Supremo, do Congresso, então a gente está vivendo um pesadelo tardio, fora da hora.

Fale um pouco do filme – como se preparou para o papel, seu trabalho com Andrés, as filmagens...

Comecei a ensaiar muito, treinar o espanhol com uma preparadora lá do Chile pra pegar um pouco do sotaque chileno, enfim vencer esse desafio. E comecei a trabalhar com os atores chilenos que são fantásticos, os atores que fazem essa fase do filme do passado com quem eu contracenei são maravilhosos. O Andrés Wood sempre muito preciso, muito objetivo, consciente do que queria, muito inteligente. Foi sempre um prazer muito grande. Eu sou fascinado pelo Chile. Foi ótimo conhecer um pouco mais da história local do Chile, foi um grande aprendizado. E também trabalhar com um grande, com um grande produtor e diretor chileno.

Como sabemos, a pandemia está trazendo sérias consequências para a arte e muito fortemente para o cinema. Como isso está afetando seu trabalho?

A pandemia me fez ficar em casa durante um ano e meio, cuidando do meu filho, fazendo comida, cuidando da casa, uma coisa simples, mas uma prioridade que também é muito importante... apesar do pesadelo lá fora, da rua. A gente viveu um pesadelo: o negacionismo, remédios que não têm efeito, demora para chegar a vacina, os meus amigos índios do Xingu sendo contaminados antes de chegar a vacina. A gente viveu um pesadelo que fez parte de todo esse contexto: a negação da verdade, a negação da cultura, a negação da ciência. A pandemia foi apavorante, um grande aprendizado pra nós como humanidade, mas ao mesmo tempo, acho que colocou as cartas na mesa, a gente viu quem é quem e todo esse absurdo. Eu espero que a gente consiga sair dessa pandemia com muita força. É o que estamos fazendo – com Grande Sertão – depois de um ano e meio voltando a ensaiar, voltando a filmar, com esperança que a vacina cubra toda a população. Voltando ao espaço público das salas com muita segurança. E voltando a reativar a cultura; e que ela volte com força total.

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