‘É um filme de encontros num momento de desencontros’, diz Muritiba sobre ‘Deserto Particular’

Filme estreou em Veneza. Diretor falou com exclusividade ao JB

“Deserto Particular”, novo filme do cineasta baiano Aly Muritiba, teve estreia mundial na mostra Venice Days da 78º edição do festival de Veneza.

O filme, protagonizado por Antonio Saboia (“Bacurau”), segue Daniel, um policial afastado do trabalho depois de cometer um erro. Ele mora em Curitiba, com um pai doente, de quem cuida com devoção.

Daniel é introvertido, fala pouco e sorri menos ainda. Seu único motivo de alegria é Sara, uma moça misteriosa que mora no sertão da Bahia, e com quem ele se corresponde pela Internet. O desaparecimento súbito de Sara faz com que Daniel resolva cruzar o país para procurá-la.

Muritiba é autor de uma premiada filmografia que inclui, entre outros, títulos como “Jesus Kid”, Kikito de diretor e roteiro em Gramado 2021; “Para Minha Amada Morta”, exibido em San Sebastian e melhor diretor em Brasília; “Pátio” (Semana da Crítica em Cannes); “A Fábrica” (Clermont-Ferrand, França); “Ferrugem”, que após concorrer em Sundance (EUA) ao Grande Prêmio do Júri, ganhou o Kikito de filme e roteiro no festival gaúcho; “Tarântula” (Festival de Veneza, onde concorreu ao prêmio Horizons em 2015).

Em entrevista exclusiva ao JORNAL DO BRASIL, o cineasta falou sobre “Deserto Particular”, a escolha da locação, sua experiência de documentarista e o significado de estrear o filme em Veneza.

Macaque in the trees
Aly Muritiba (Foto: Foto: reprodução)


JORNAL DO BRASIL: Como você definiria o cerne do filme?

MURITIBA: “Deserto Particular” é um filme de encontros num momento de desencontros. Um filme de amor em tempos de ódio.

Vivemos um momento difícil – pandemia, questões ambientais, politicamente.... Isso influenciou a escolha do tema?

Influenciou completamente. Fazer esse manifesto afetivo e apostar em encontros tem tudo a ver com o que estamos vivendo no Brasil. Precisamos de leveza, precisamos sorrir de algum modo.

Sua experiência e sucesso como documentarista ajudam na realização de uma obra ficcional como “Deserto Particular”?

O fazer documental treina a escuta atenta e o olhar, predicados essenciais para contar histórias, mesmo as ficcionais. Então, sim, meu ofício como documentarista sempre me ajuda quando estou fazendo filmes de ficção.

Por que a escolha de Sobradinho como locação?

Sobradinho é um lugar muito simbólico. Uma cidade erguida em função de uma represa. Uma cidade erguida sob o signo do controle humano sobre a natureza (o represamento de um rio). Essa tentativa de represamento é um dos temas do filme. Sobradinho é também uma cidade vizinha de onde vivem meus pais e irmãos, então filmar lá foi também uma forma de estar em casa.

Qual o significado de estar na Venice Days de um dos festivais mais importantes do mundo?

Estar em Veneza e ter meu filme exibido no fatídico 7 de Setembro simboliza resistência. Nossa resistência (a dos fazedores de cultura) contra um governo genocida e fascista.