Belmondo, o francês que foi ‘O homem do Rio’

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Quem seria (ou foi), no Brasil, um ator com a mesma carreira longeva - e querido do povo -, como o francês Jean-Paul Belmondo, que nos deixou aos 88 anos? Talvez o recém ido Paulo José (que foi do cinema novo às telenovelas)? Porque, assim como o nosso PJ, JPB começou modesto, até ser alçado ao estrelato através de um marco da nouvelle vague, o “Acossado” (1960), de Godard. Está perfeito neste. Tanto que Godard o usou, de novo, em “Pierrot, Le Fou” (1965).

Mas foi em comédias ou filmes de ação que Belmondo se tornou um dos atores mais populares e queridos do cinema francês, como nenhum outro até hoje. Um de seus mais notáveis papéis sérios foi no filme de gangster “Borsalino” (1970), que fez tanto sucesso que teve continuação. Outros notáveis foram “Tira ou Ladrão?” (1979) e “Stavisky” (1974). Para quebrar a série de papéis semelhantes, estrelou o drama romântico “A Sereia do Mississipi”, de Truffaut, ao lado da diva do cinema francês Catherine Deneuve.

Contudo, foi fazendo filmes de ação com toques de humor que Belmondo ganhou, de vez, nossos corações. O que dizer dele no absurdo e divertido “O Homem do Rio” (1964), no qual ele vem ao Brasil atrás da namorada (Françoise Dorleác, irmã de Catherine Deneuve, prematuramente falecida), e vive uma aventura com toques de James Bond furreca e trama e ambientações dignas dos quadrinhos de Tintim? (vai do Rio à selva amazônica, passando por uma Brasília ainda em construção, por conta de um misterioso artefato mágico roubado de um museu). O sucesso deste foi tamanho, que, com o mesmo diretor Philippe de Broca, ele fez “O Magnífico” (1973), seu maior sucesso, como autor de livros de espionagem que imagina ser o próprio personagem que criou (contracenando com Jacqueline Bisset); e “Animal”, onde, mais uma vez, realiza performances incríveis, quase sem o uso de dublês, como em muitos de seus filmes. Desta vez, com a beldade Raquel Welch.

Os anos 1970 foram o auge de sua carreira, com uma série de filmes de sucesso mundial e com elencos internacionais; que, mesmo assim, não o levaram aos Estados Unidos, como tantos de sua geração. Mesmo fazendo filmes falados (ou dublados) em inglês, Belmondo sempre foi francês/europeu. Nunca quis ser um Johnny qualquer sob o falso brilho de Hollywood. E quando a velhice chegou, se aposentou, estando fora das telas desde finais da década passada. Fazendo mais teatro nesta reta final da vida.

É assim que ele será sempre lembrado: como aquele francês simples, malandro, de sorriso maroto, gente boa, e que, mesmo fazendo bandidos, ganhava a nossa simpatia. R.I.P. Jean-Paul Belmondo.