Farhadi estreia em Cannes 2021 com melodrama ético

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Amir Hossein Shojaei
Credit...Amir Hossein Shojaei

“A Hero”, de Asghar Farhadi, é um dos destaques da mostra competitiva oficial de Cannes, cuja 74ª edição está sendo realizada de forma presencial e cercada dos cuidados necessários em face da pandemia da covid-19.

Farhadi retorna ao festival onde esteve em 2016 com “O Apartamento”, que ganhou dois prêmios: de melhor roteiro e melhor ator para Shahab Hosseini; e em 2018, com “Todos já Sabem”, um thriller com Penélope Cruz, Ricardo Darín e Javier Barden, indicado à Palma de Ouro.

Seu novo filme segue Rahim (Amir Jadidi), que está na prisão por causa de uma dívida que não conseguiu pagar. Durante uma licença de dois dias, ele tenta convencer seu credor a retirar a reclamação se ele fizer o pagamento de parte da quantia, com um dinheiro casualmente encontrado em uma bolsa que alguém perdeu. Mas a ação coloca o protagonista em conflito moral. A história prossegue e o filme caminha para o final com a assinatura usual do diretor: comovente, discreto e cuja interpretação pode variar conforme a percepção de cada espectador (a).

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Asghar Farhadi – diretor de 'A Hero' (Foto: Duchili)

Além de Jadidi, o bom elenco de atores iranianos inclui Fereshteh Sadre Orafaiy e Sarina Farhadi, filha do diretor na vida real.

A realização de “A Hero” também marca a volta de Farhadi ao Irã, sua terra natal, onde ele tinha filmado anteriormente “A Separação”, vencedor do Urso de Ouro em Berlim, e o citado “O Apartamento”. Ambos ganharam o Oscar de melhor filme em língua estrangeira.

Na conferência de imprensa promovida pelo festival nessa quarta feira (14), Farhadi falou sobre o filme, o objetivo que busca no seu trabalho, a inclusão das mídias sociais no enredo, e como vê as críticas que têm sido feitas por não ter aprofundado em “A Hero” questões sobre a vida atual no Irã.

“Acho que quando descrevemos somente um grupo, não distinguimos o restante da sociedade. Quando, por exemplo, falamos apenas sobre uma família, nem sempre mostramos a sociedade na qual ela vive. Portanto, as pessoas que criticam meu trabalho nesse aspecto talvez considerem meus filmes muito simples ou esperassem neste um aprofundamento no assunto”, explicou Farhadi, acrescentando que a abordagem cinematográfica é muito sútil.

“Os filmes que realizo têm o mesmo ponto de partida que é o meu desejo de não entediar os espectadores e levá-los a concluir que desperdiçaram duas horas de sua vida o assistindo. Para expormos um tema mais profundamente, é preciso partir de uma análise também profunda da sociedade para, aí sim, poder criticá-la. E mesmo fazendo isso, pode parecer para algumas pessoas que não estamos criticando o sistema. No entanto, todas essas questões estão conectadas e, talvez esse olhar exista se houver também, por parte dos espectadores, um olhar mais profundo para ele”, ressaltou.

Respondendo a uma pergunta sobre se as referências no filme às mídias sociais objetivaram uma reflexão sobre como as pessoas estão se comunicando com sua própria realidade, Farhadi disse que a primeira coisa que gostaria de esclarecer é que esse não é o tema principal de “A Hero”.

“As mídias sociais são apenas um aspecto da história. Eu não tinha nenhum objetivo específico quando abordei esse assunto; não queria destilar críticas ou elogiar, mas apenas reconhecer que esse fenômeno é onipresente, pelo menos para as novas gerações em meu País”, ressalvou o cineasta acrescentando que a imagem refletida pelas mídias sociais na existência de alguém pode contaminar toda a sua vida.

“Uma pessoa, por exemplo, que em algum momento realiza um belo gesto, é sinalizada pelas mídias sociais, acarretando a partir daí uma admiração da comunidade na qual ela participa e criando expectativas em relação a todos os outros aspectos de sua vida. Ou seja, as pessoas que a acompanham nas redes sociais criam uma narrativa própria para ela. Era isso que eu queria denunciar ou pelo menos abordar”, esclareceu Farhadi, que com “A Hero”, mais uma vez, fez um filme com sua recorrente assinatura: no caso, como explica, com a descrição do que seja um herói.

“O filme é narrado através da minha entonação espontânea e pessoal de contar histórias, independentemente do tema tratado. Essa é minha forma, à qual não oponho resistência. Ao contrário, procuro desenvolver sempre diferentes aspectos para explorar e adicionar nuances ao meu trabalho”, concluiu Farhadi, que, com “A Hero”, é um forte concorrente aos troféus do festival. Os vencedores serão anunciados na cerimônia de premiação no próximo sábado, dia 17.



Amir Jadidi (à direita) – protagonista de 'A Hero'
Asghar Farhadi – diretor de 'A Hero'