Velho baiano na trilha dos dias

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Gilberto Gil fez mais um aniversário, com esse mesmo olhar de quem apenas contempla a passagem dos anos, dos meses, dos dias, dos aniversários que nos passam. Parabéns, Gil, pois se existe um brasileiro que merece diariamente ser parabenizado – pelo conjunto da obra, da vida e dos anos – é esse bom e hoje velho baiano, cujas canções têm tem sido trilha sonora em nossas vidas há algumas décadas.

Um dia, descendo a Ladeira da Preguiça, em Salvador, pensei em Gil. A via (que já foi crucis e hoje é ponto turístico) era triste como os escravos que a subiam carregando sacos de mercadorias nas costas, do porto para a cidade alta. Hoje, eu soube, a ladeira que a inspirou está bonita e enfeitada, graças ao trabalho de grafiteiros que encheram paredes sombrias com imagens tão alegres e coloridas quanto o povo baiano.

Lembrei-me de Gil porque, ao ver a placa de rua, comecei num impulso a cantarolar os seus versos que dizem “Preguiça que eu tive sempre de escrever para a família / E de mandar conta pra casa que esse mundo é uma maravilha”. E me dei conta de que precisava escrever para a família. E de contar que, maravilhoso ou não, o mundo também me recebera longe de casa. E ia me permitindo viver. E me dei conta, também, do quanto as canções de Gil era (foi e é) marcantes em minha vida. Nas nossas, provavelmente.

Naquele momento, meados da década de setenta do século passado, o baiano do interior aqui vivia na capital, que para mim era o mundo. O baiano Gil também estava nos braços do mundo, enfrentando o exílio londrino. Eu arrumava as malas para seguir pro Sudeste maravilha, cantarolando “O Rio de Janeiro continua lindo”. Então segui, e temos seguido, com Gil na trilha sonora dos sonhos (o seu sonho preferido por mim é aquele em que ele se encontra “Num congresso mundial, discutindo economia”, defendendo a “Ampliação do espaço cultural da poesia”...) e no corpo a corpo suado com o planeta, quando “De repente as águas ficam turvas”.

Na trilha dos dias revi emoções com Gil sorrindo ao falar de música, chorando ao lamentar a perda de um filho, indo aos céus para exaltar a poesia e descendo até “Debaixo do barro do chão da pista onde se dança”, para falar de dificuldades com a saúde. Na trilha de uma vida tocada a Gil sobrevive uma alento (mesmo nesses tempos de alentos escassos) por existir no mesmo tempo e espaço em que ele, pisar o chão onde ele pisa, respirar o ar que ele respira, ser contemporâneo de sua música e de sua poesia.
Felicidades, Gil. Saúde, trabalho, amor e alegrias.

Luís Pimentel é jornalista e escritor