Aïnouz fala do seu filme selecionado para Cannes/2021

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Foto: divulgação
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O 74º Festival de Cannes acontecerá de 6 a 17 de julho e, como já anunciado, cercado de toda segurança, com medidas sanitárias, para ser realizado de forma presencial.

Entre os títulos da ótima e abrangente programação está “O Marinheiro das Montanhas”, do cearense Karim Aïnouz, que terá première mundial na prestigiada “Seções Especiais”. O diretor retorna ao evento onde, em 2019, ganhou o prêmio da paralela Un Certain Regard, com “A Vida Invisível”.

Por sinal, o premiado roteirista e cineasta tem uma considerável carreira internacional nos EUA, Canadá, América Latina e Europa, onde já exibiu seus filmes nos dois festivais mais importantes do mundo:

Em Cannes: com “Madame Satã”, sua estreia em longas, na mostra Un Certain Regard, em 2002; com “Abismo Prateado” na Quinzena dos Realizadores, em 2011; além de “A Vida Invisível, que conquistou mais de 50 prêmios ao redor do mundo, recebendo, entre outros, o troféu do Grande Prêmio do Cinema Brasileiro.

Em Berlim, onde, em 2014, foi indicado ao Urso de Ouro com “Praia do Futuro”; em 2018, ganhou o Prêmio da Anistia Internacional com “Aeroporto Central THF”; e em 2020, integrou a Panorama, principal paralela do evento, com “Nardjes A”.

“O Marinheiro das Montanhas” revisita as origens do cineasta a partir da relação entre seus pais, uma brasileira e um argelino. É um diário de viagem filmado na sua primeira ida à Argélia, país em que seu pai nasceu. Entre registros da viagem, filmagens caseiras, fotografias de família e arquivos históricos, o filme mescla a história de amor dos seus pais, a Guerra de Independência Argelina, memórias de infância e os contrastes entre Cabília (região montanhosa no norte da Argélia) e Fortaleza, cidade natal de Karim e sua mãe, Iracema. Passado, presente e futuro se entrelaçam em uma singular travessia.

Em entrevista exclusiva ao JORNAL DO BRASIL, Aïnouz falou do filme, da importância da seleção para Cannes e como vê a área de cinema com tudo o que está ocorrendo.

JB - Qual o significado de retornar a Cannes pela quarta vez e após ter conquistado, em 2019, o importante prêmio de Melhor Filme da mostra Un Certain Regard, com “A Vida Invisível”?

Karim Aïnouz - É uma sensação incrível, ainda mais depois da chegada dessa pandemia que veio no contrapé de todo planejamento possível. Os momentos mais marcantes da minha carreira até agora tiveram o festival como palco. Sempre fui recebido com muito carinho. Foi lá minha estreia com “Madame Satã”, já se vão quase 30 anos, lá também mais recentemente apresentei “A Vida Invisível”, que surgiu lá e ganhou o mundo. É no mínimo curioso voltar para o festival que já me acolheu tanto nos últimos anos da minha carreira com um filme tão pessoal, parece um retorno para casa.

O que o motivou fazer “O Marinheiro das Montanhas” que revela episódios, impressões e sentimentos de uma jornada tão íntima e pessoal?

Acho que de alguma forma “O Marinheiro das Montanhas” foi meu primeiro filme. O filme que sempre sonhei fazer e que só consegui realizar muitos anos depois. Essa história de amor entre os meus pais habitou meu imaginário desde que eu me entendo por gente e, de alguma forma, transformá-la em filme foi o que me levou para o cinema. Muitos processos criativos estão sendo concluídos com esse filme, e outros tantos se iniciaram com ele. Sinto como um filme seminal. Ter podido realizá-lo dentro desse cenário tão mudado, que é o mundo em pandemia, foi um desafio, mas de alguma forma foi esse momento mais introspectivo que vivemos todos – ainda mais precisamente no começo da pandemia – que me permitiu acessar alguns lugares muito fundamentais que seria necessário para fazê-lo.

Qual sua expectativa para essa edição do festival tão diferente, com tantas mudanças e, ao mesmo tempo, com uma programação ótima e tão abrangente? Enfim, como você vê o cinema com tudo que está ocorrendo?

A pandemia nos fez entender que um mundo sem cinema seria impossível. Que um mundo sem contato seria dificílimo. O esforço do Festival de ocorrer respeitando todas as medidas sanitárias é o que nós precisamos agora. Mostrar que estamos cientes do que estamos vivendo, e que a nossa escolha é pela vida. É com a vida que se criam histórias, e eu vivo disso.