‘Através’ leva ficção fantástica às ruas de uma agitada metrópole

Romance de estreia de Ricardo Assumpção Fernandes convida o leitor a enxergar através de outros olhos, através de três histórias de amor, através do cenário da cidade

Foto: Divulgação
Credit...Foto: Divulgação

Helena acorda e vê através dos olhos de um estranho. Ao tentar entender quem é esse estranho, por que e quando isso acontece, entra no universo alheio. A busca pelo outro passa pelo encontro com ela mesma. Seria esse “outro” alguém desconhecido? Se sim, como poderia achá-lo?

João é um sujeito tímido. Na infância, preferia a conversa com animais ao relacionamento com seus pais e irmãos. Crescido, um acontecimento foi decisivo para sua ida a São Paulo, onde trabalha. Na metrópole, encontros casuais marcam sua vida afetiva, permeados pela sensação de estar sendo observado.

O romance Através (Editora Folhas de Relva, 184 páginas) é ambientado nas agitadas ruas da capital paulista. Mas também percorre o caminho das gotas de chuva que passam através das ranhuras do concreto das calçadas e se alojam nos rios subterrâneos. Para onde levará a busca por este outro, estranho? A resposta pode estar na trama, mas também em Aladina e Madalena, que, ao lado de Helena, formam a tríade de mulheres que atravessa a vida de João. Ou em Anton, Joaquim, Ermenegildo e Jeová que, matando, morrendo, amando ou simplesmente apontando caminhos, recheiam a história com reflexões e aventuras.

“Nas páginas deste livro nos vemos em ruas centrais de São Paulo, percorrendo tramas que acontecem nas esquinas, em bares, numa escrita que dialoga com a linguagem do cinema. Esses territórios da cidade, ora vazios, ora tomados de pessoas, nos ajudam a compreender as ações e motivações dos personagens, na maioria bastante misteriosa”, observa o editor da obra, Alexandre Staut.

“Através, romance de estreia de Ricardo Assumpção Fernandes, ocupa a categoria das obras ricas em sucessão de acontecimentos, ação, diálogos, ingredientes capazes de nos fisgarem imediatamente”, afirma Ricardo Ramos Filho, que escreveu a orelha do livro. Ele completa: “narrativas ricas como a que estão prestes a atravessar, exigem personagens bem delineadas.”. De fato, ao conduzir o livro com narrativas em primeira e terceira pessoas intercaladas, o autor guia o leitor a descobrir personagens de várias partes do Brasil e do mundo, que ambientam o enredo, reproduzem a pluralidade cultural da cidade e enriquecem a história.

Trechos como “Toma, bebe essa. Esquentou? Aí sim, agora vamos assuntar. Tá chegando no vermelho inferno. Desce um pouco mais e vai ver a água da sede. Tô falando daquilo que a gente busca e não acha. Já tentou cavar um buraco pra cima? Não acha o fundo, a água, mas a mão fica toda suja de terra. É igual aqui. Gente de todo mundo procura amizade, mas ninguém acha.” retratam encontros, atravessamentos e estranhamentos num ambiente urbano recheado de diversidade, fator inerente aos grandes conglomerados urbanos do século XXI.

“Olhar através dos olhos de outro pode ser assustador. E aproximar-se, estar atento ao que o estranho próximo, diferente de nós, enxerga, não poderia nos ajudar a compreender melhor a nós mesmos, aceitar o outro de maneira civilizada? Isso num mundo dividido, onde posições são marcadas excluindo-se o sujeito ao lado. Ao negar a sombra, possível de ser vista somente através do estranho, deixamo-nos cegar pela claridade ofuscante.”, diz Ricardo Assumpção Fernandes sobre o seu livro de estreia.

Temas como o tempo – ou a ausência dele – e a própria existência proporcionam densidade à obra, favorecem a trama e tornam possível uma aventura na ação das personagens e seus motivos singulares. Aproximam, assim, o leitor do estranho próximo, que pode viver na página ao lado. Quem sabe, com o tempo, esse estranho não seja visto de uma forma diferente?

Sobre o autor:

Ricardo Assumpção Fernandes nasceu em 1973, em São Paulo, cidade em que cresceu, vive e escolheu para cenário do seu primeiro livro. É autor de contos, poemas e crônicas. Publicitário de formação, é articulista do Jornal do Brasil e escreve para sites de literarura como São Paulo Review. Através é seu primeiro romance.

Sobre a Editora Folhas de Relva:

A Folhas de Relva Edições, ligada ao portal de literatura e artes São Paulo Review, foi fundada em 2018 pelo escritor e jornalista Alexandre Staut, como editora especializada em literatura nacional em seus mais diversos gêneros. A estreia no mercado ocorreu graças ao I Fomento de Literatura da Secretaria de Cultura de São Paulo e foi marcada pela publicação da novela Epilepsia - uma fábula, do ator, bailarino e escritor Samuel Kavalerski; e pelo romance O Incêndio, de Alexandre Staut, que também é criador e diretor do portal São Paulo Review.


Ficha técnica: Através (184 páginas) / Autor: Ricardo Assumpção Fernandes / Editora Folhas de Relva. Preço sugerido: R$ 46,00.